Na última sexta-feira, início de um fim-de-semana com vários concertos apelativos na capital, A Comissão reuniu no bem preenchido Sabotage Rock Club para receber concertos de dois trios: os Alma Mater Society e os portuenses Malcontent como cabeças de cartaz. Os primeiros, uma banda recente com lógica fome de palco; os segundos, uma das melhores bandas portuguesas do seu estilo, cujos concertos em Lisboa sempre têm interesse, porque são poucos.

A câmara (ob)escura da Alma Mater Society

Os Alma Mater Society, que a Tracker reportou já neste ano (tocaram antes de Sad Lovers And Giants, em Lisboa), continuam a rodar as canções do que será o primeiro álbum, um conjunto de temas cold/dark wave influenciado também pelo rock gótico da década de 80 e pelo noise industrial. É um universo cinemático, negro, apesar de não ser sempre goth, povoado mais por espíritos que por fantasmas, assombrado por várias formas de loucura, amiúde de frio distanciamento, às vezes sobre gente misógina, noutras misantrópico, mas sempre emocionado e com estética muito gráfica. Numa prestação arrancada com “Del Rey”, a estupefacção de “Only Your Knife Knows”, com música que lembra Bauhaus, definiu o mood do alinhamento: tenso.

“Obrigado por terem vindo. Próximo tema, chama-se “No Danger”. foi como o vocalista João timidamente apresentou aquela canção, que os acordes de órgão fizeram lembrar tanto a pop dark dos 80s, enquanto a raiva na voz de João soou distantemente cold nos vários “Even can’t…” do tema, antes da maior dose de insanidade lírica ter sido servida em “Hallucinations” (do próprio suicídio), que inclusivamente começou por soar a Joy Division, mas derivou para um refrão mais em rock e menos em wave. Ainda com a morte iminente no pensamento (e num alinhamento coerente), o resignado desespero the “Under The Gun” foi muito bem vertido no dramático cante das frases “They will shoot us e They will kill us (just for the fun).

Durante a agonia afectiva de “Slow Motion”, mesmo se atenuada pela música dreamy (não de pesadelos) vinda da guitarra, confirmou-se que ao longo do concerto a abordagem vocal ao repertório foi mais (es)forçada, intensa e menos afinada que a adoptada no outro concerto visto pela Tracker, abordagem que revelou um final de canção carismaticamente gutsy. Estava-se no período mais triste e cold e o longo solo de guitarra da intimista balada “Mistake” (que realçou a frieza da narrativa) permitiu observar o maduro público, contido não por tédio, mas para interiorizar as emoções do tema.

O final do concerto foi iniciado pelo bom humor de João apresentando a versão de “Skeletons” (The Sound), com um jocoso “Espero que a reconheçam…”, e se a canção esteve facilmente reconhecível naquela versão mais hard, foi interessante escutá-la quase como se fosse cantada por Ian Curtis (Joy Division), em vez de por Adrian Borland. E antes da derradeira “Forniphilia”, um dos melhores temas do concerto foi “Red Hair Girl” que, talvez pelo tratamento do som, pareceu ser duas canções em simultâneo numa só – a das guitarras e a da bateria. Mais que amornar, os Alma Mater Society conseguiram aquecer os ouvidos da plateia.

O dínamo Malcontent

Em Portugal há poucas boas bandas que fazem bem o som dos Malcontent. E isso basta para gostar de cada vinda daqueles portuenses a Lisboa. E o que é um som como o dos Malcontent? É um noise psicadélico negro, pintado nos tons gris do urbano-industrial a preto e branco. Numa factory que parece espiritualizada por Nine Inch Nails (e Filter) e A Place To Bury Strangers e The Jesus And Mary Chain e The Psychedelic Furs nas composições mais ásperas daqueles, e outras bandas de riffs de guitarra roucos e distorcidos, como os Sonic Youth, que tratam a bateria em modos parecidos.

Distorção é uma palavra essencial para falar sobre os Malcontent; ondulação (dos efeitos wah-wah) é outra. Saídas das guitarras desde “Never Wanted”, foram quase omnipresentes durante o concerto no Sabotage, que continuou por “My World Is Falling” (do último álbum, Riot Sound Effects), com guitarra e batidas que sugeriram influência de Black Rebel Motorcycle Club. Quase sem parar entre canções, o trio avançou para o último EP, Denial, no dinâmico medley de “Real Cool Scene” e “Riot Sound Effects”, unidas também no volume de efeitos de guitarra que rechearam os ouvidos do público, que no final exclamou intensa satisfação.

Já ’em casa’, os portuenses agradeceram a quem os foi ver, retribuíram com “É sempre um prazer tocar em Lisboa” e convidaram as pessoas a comprar o primeiro álbum, Love The Gun, que inclui “It’s All In Your Mind” – mais um exemplar do rock poderoso e ácido que é a matriz artística de Malcontent -, da qual como um CD (sem pausa) transitaram para a recente “Living In Denial” (dos dois últimos álbum e EP), ao longo da qual, de riff em riff, confirmaram a forte coesão em palco de quase uma década juntos. E após uma breve pausa concedida a um aplauso mais comprido e ruidoso, Denial foi ‘fechado’ imediatamente a seguir na “Highs And Lows”, à velocidade daquele industrial rock americano dos 90s que afinal emergiu na década anterior e na Grã-Bretanha, onde está a Escócia dos The Jesus And Mary Chain (influência assumida pela banda), que o tocam há trinta anos – o instrumental final, em longa distorção, foi também a dinâmica transição do medley completado por “35 Blues”.

No palco, os Malcontent evidenciaram que “Agressive” é um ‘estático’ e distorcido clássico do rock português, com uma cadência roady ainda mais fresca ao vivo que sete anos atrás no álbum Love The Gun, e que logicamente foi uma das canções mais aplaudidas da noite. E aquele longo e caloroso aplauso foi dica para outro agradecimento da banda, aos Alma Mater e a A Comissão, “por mais uma vez nos trazerem a Lisboa”, concretizado num novo tema ainda sem título, mas que já está bem produzido, num pulsante rock dançável, enérgico, que facilmente agradou a um público que sabia muito bem ao que ia (confiante nas duas bandas). Também de Love The Gun, “No Need To Hide” continua exemplar de quão intensos e emocionais o rock ‘n’ roll e os concertos devem ser, desde o longo solo de guitarra (dedilhado e riffado, com vários efeitos de pedal e distorções) até ao final que foi a dinâmica transição de mais um fluído medley, com o drive rock de “One More Second” – num momento em que os Black Rebel Motorcycle Club já vinham à tona da consciência -, até ao final em distorts do que afinal foi mais uma transição em medley, para a excelente “This Time Is Different”, cujo verso “Sometimes it feels so underground” retrata bem o underratment imposto a uma banda tão competente e amadurecida como os Malcontent.

E, todavia, porque os concertos são para desfrutar, o público vibrantemente exigiu encore e foi presenteado com a estreia de mais um novo tema que ainda não tem título, será o que vocês quiserem! Típico Malcontent, outra canção encorpada e robusta, bem cadenciada pela bateria, que a recheou muito bem, até ao fade out instrumental, logicamente a toque de distorções das guitarras, como se estimulando o nosso “Voltem logo!” Além do amadurecido conceito musical, os Malcontent ofereceram um convicto (bom) senso de espectáculo, com o mínimo de pausas, (o mais curtas possível) e, quando viável, evitadas por sequenciais medleys de canções, resultando num concerto animado porque dinamizado por aquele impetuoso psicadelismo de guitarradas afiadas, ora distorcidas, ora ecoantes de efeitos wah-wah. E sim, voltem logo à capital, porque encherão muito bem qualquer grande palco de festival ou pavilhão!

Fotografia por Luís Custódio:

Malcontent @ Sabotage Rock Club

 

 

Alma Mater Society @ Sabotage Rock Club