The Holy Bible, o icónico terceiro álbum dos galeses Manic Street Preachers, foi apresentado ao mundo em Agosto de 1994. Embora não tenha sido um imediato sucesso comercial, o seu sucesso perante a crítica – aliada ao fervoroso fanatismo dos admiradores dos Manics -, catapultou o álbum para o Olimpo do rock onde permanece como um dos maiores e melhores discos de todo o sempre. Uma vasta tournée promoveu o trabalho da banda por todo o mundo passando, inclusivamente, por Portugal. Estava aqui, então, lançada a pedra definitiva para os alicerces do edifício que seria a carreira dos Manics, com a crítica a tecer as mais dignas loas à banda e ao mais recente trabalho, com uma série de concertos já marcados. A eternidade abria as suas portas. E, ao mesmo tempo que se abria essa porta, outra – talvez a mais importante de todas -, se fechou para sempre.

The Holy Bible, produto da fértil e complexa psique de Richey James Edwards, expôs ao mundo todos os seus pensamentos, sem filtros, sem concessões corporativas da editora, sem piedade. Os Manics, que já de si diferiam – e muito! -, dos seus britânicos contemporâneos como, por exemplo, os Suede, os Pulp, os Blur, ou os Oasis, põe de lado a estética e modo de vida hedonista que tanto caracterizava as bandas da altura, e toma por assalto o mundo com um dos mais pesados, sombrios, crús e complicados registos de todos os tempos. Aqui não se discutem separações ou problemas financeiros, não se debate a sensação de outsider permanente, não se especula sobre inadequações reais ou imaginadas. Não, os Manics falam-nos directamente sobre o Holocausto, sobre a anorexia, sobre a prostituição infantil. Aqui, os temas são profundamente políticos, sem recorrer a demagogias fáceis e clichés habituais. Encaramos toda a condição do sofrimento humano. E tudo isto, tudo isto saído da cabeça e da caneta de Richey.

Richey, quiçá o último verdadeiro punk, talvez o mais lúcido em toda a sua frágil existência, certamente aquele que um dia optou por se tornar inesquecível e eterno; Richey, que quando confrontado com a sua seriedade perante a arte que era tão sua, questionado sobre a autenticidade e dos valores da banda, respondeu cabalmente com uma incisão na própria carne : ‘4 Real’. Richey James Edwards, figura maior da banda, mítico, místico, malogrado, inigualável. Por sua própria deliberação, saiu do mundo em Fevereiro de 1995, para nunca mais ser visto, tornando-se  o seu mito eterno, mesmo após ter sido considerando legalmente morto apenas em Novembro de 2008.

Vinte anos volvidos, e para comemorar a vintena de anos que o álbum completara, os Manic Street Preachers embarcaram numa digresão para celebrar essa efeméride: concertos múltiplos em Londres, concertos no Castelo de Cardiff e até mesmo uma rara visita da banda aos Estados Unidos. A documentar momentos vários da digressão, surge-nos agora BE PURE. BE VIGILANT. BEHAVE., com estreia marcada para este mês por terras de Sua Majestade. O documentário, pela lente do premiado Kieran Evans, assíduo colaborador da banda, traz-nos imagens únicas da digressão da banda pelos Estados Unidos, e mostra-nos uns Manics em franca forma, capazes de rivalizar com qualquer outra banda.

Em “Faster”, um dos temas centrais de The Holy Bible, a voz única e acutilante de James Dean Bradfield, aliada à descarga sonora da banda, canta-nos as palavras de Richey:

I know I believe in nothing, but it is my nothing.

É chegado, então, o momento em que todos poderemos ver o nada – nascido de um credo profundamente pessoal e niilista de Richey, tornar-se realidade para tantos. É o nosso nada, agora.