Podem o punk e o noir ser psicadélicos? Podem, e a equipa Reverence Festival sabe muito bem que psicadélicos são os efeitos – sonoros e visuais -, a imaginação e o surrealismo, não só a quantidade de cores. E, coerentemente por isso, os Mão Morta protagonizaram na última sexta-feira mais uma Reverence Underground Session de promoção ao Reverence Valada agendado para Setembro pelo mérito que acumularam em três décadas de carreira, no Sabotage Club.

Entrar ‘a matar’…

No apinhadíssimo Sabotage, o arranque do concerto foi Mão Morta típico, feito de palavras fortíssimas, tais como “cemitério” ou “maternidade”, enquanto Adolfo Luxúria Canibal fazia o que tão bem sabe: interpretar rudemente as narrativas – ora ambientais, ora satíricas, ora medonhas -, que o próprio escreve, outra coisa que ele tão bem faz, para aquele público que ovacionou energicamente a banda logo na entrada em palco, absolutamente (cons)ciente daquilo que ia ser oferecido e da qualidade do que fez as pessoas saírem de casa numa noite que ameaçava ser chuvosa. E a rudeza lírica e performativa continuou com o Quero que te vás f*der! de “Oub’Lá”, cantado pela maior parte do público, entre os sons distorcidos que reverberavam nas paredes da pequena ‘caverna’, soando ainda melhor que nos concertos em recintos abertos; até Adolfo pareceu declamar como se preferisse estar na alma mater do rock’n’roll – os pequenos clubes.

O concerto entrou em ebulição muito depressa e por isso o clássico “E Se Depois” foi cantado por quase toda a plateia, tendo sido o primeiro momento alto do espectáculo, por ser um tema cuja cadência pesada é capaz de levantar qualquer público de rockers e que consequentemente foi um dos mais aplaudidos. Já não havia retorno emocional possível quando se escutou Este é o momento em que se dá o encontro do futuro, do passado e do presente romântico, com velas acesas… que Adolfo espirituosamente declamou para introduzir a “Hipótese de Suicídio”, tão intensa musicalmente como acre na voz do Canibal. E após um início poderoso, “Destilo Ódio”, sem ser uma balada ligeira, foi uma activa descompressão no meio de tanta tensão; mesmo assim, foi sendo gradualmente intensificada, num crescendo que justificou o abrandamento para “Pássaros A Esvoaçar”, narrativa quase surrealista embalada pelo instrumental entre o rock progressivo e o noise e o shoegaze; no final, Canibal esticou os braços unidos pelas mãos, para o espaço dos pássaros – o ar -, enquanto a banda tocava o instrumental epílogo.

“Budapeste” ainda é o tema que todos cantam inteiro, porque é um hedonista hino rock’n’roll que continua muito fresco, sempre um clássico obrigatório nos concertos de Mão Morta com estatuto comparável ao da “Minha Casinha” para os Xutos e Pontapés. E Adolfo berrou o final como se estivesse sob o efeito dos speeds tão trendy nos anos 80. Logicamente a casa veio abaixo com o vigoroso coro durante a canção e também com a torrencial ovação após o fim. A próxima chama-se “Tira A Camisa”, uma nova que o Charles Manson criou”, introduziu a sátira geopolítica “Charles Manson”, muito aplaudida e sobre a qual Adolfo ironicamente comentou “No entanto o Manson não sai da prisão… Restam os franceses, que andam a malhar forte na Polícia” – aludindo às belicosas manifestações contra o novo código do Trabalho naquele país.

Na demencial “Vamos Fugir”. Canibal psicoticamente gesticulou como se estivesse a discursar subversivamente para a plateia em ebulição, num momento que estava sendo visivelmente extenuante para ele próprio e também para os fotógrafos entre a banda e um público compacto, todos suados. E aquele sufoco tornou oportuna “Barcelona”, entre o groove mediterrânico e o punky noise rock anglo-saxónico, como sempre induzindo danças sinuosas e um transe entre o racionalismo europeu e o exotismo magrebino, talvez o verdadeiro transe também de Lisboa. Aliás, “Lisboa” foi pedida enquanto Adolfo Canibal se hidratou antes da canção seguinte, estando o público eufóricamente tão ruidoso que o próprio advertiu jocosamente Quando vocês estiverem em silêncio, a orquestra começa”. E sim, no pequeno Sabotage, a orquestra fez vir a mística mulher fermentada no armazém” do alucinado clássico “Véus Caídos” – de 1987, quase trintão!

… e acabar a morrer

O ambiente estava já insalubre, impróprio para corpos muito amadurecidos, mas o Canibal estava longe de desfalecer e com força anímica para oferecer Mais uma vez, para os franceses que andam nas ruas, “Anarquista Duval”, densamente entre o noise e o stoner, para o público que quase gritava a canção em êxtase. Era o fim do corpo do concerto, anunciado por um Adolfo encharcado em suor que exclamou um informal Obrigado! Se quiserem uma segunda parte, peçam, que a gente toca. Mas agora vamos beber uma”. E foi um intervalo a sério, longo bastante para de facto beber uma (ou sair por dois minutos, para arejar). No regresso, “Facas Em Sangue” foi o tema mais calmo (ou menos intenso) desde a inicial “Aum”, talvez porque foi um reatamento, em vez de encore.

Nada que impedisse a banda de voltar a aquecer os ânimos, efeito causado por “Maria Oh Maria”, com a intro grungy que trouxe à memória os Nirvana e logicamente os Sonic Youth que tanto os influenciaram, como também influenciaram o som dos próprios Mão Morta em músicas desatinadas (não desafinadas) como aquela “Maria Oh Maria”, que foi cantada por grande parte do público e uma das mais aplaudidas da noite.

Em flagrante ambiente de fim de festa, após ser pedida algumas vezes durante o concerto, “Lisboa” foi secamente apresentada só com o nome. Mas foi outro dos pontos altos do espectáculo, pelo refrão cantado por todo o clube e pela seara de braços erguidos. E se Lisboa está para curtir até cair, “Até Cair” foi interpretada num jeito tão rock’n’roll que Canibal caiu mergulhado nos braços da multidão, deitado nos quais deambulou pelo perímetro do Sabotage – um pesado andor sem santo, carregado com todo o gosto.

“Uma viagem muito curta… Mais uma vez, para os franceses. Quando começam a malhar na Polícia, gosto muito dos franceses. Aquele cheirinho a gás lacrimogéneo, o fumo… Para os franceses, “Horas de Matar”. O lalalala cantado de uma ponta à outra do clube. Canibal de braço no ar, com o indicador e o polegar esticados como uma pistola. E a portentosa ovação final, atestando porquê o concerto do Sábado também já estava esgotado, com a chance de apreciar os clássicos “Cão de Morte” e “Chabala”, não incluídos no alinhamento da Sexta-feira. A casa quase veio abaixo e é assim que os concertos de rock devem ser! Havendo um carismático vocalista como Canibal e distorcidos sons de guitarras, dois pequenos concertos entre paredes podem ser mais grandiosos que um grande concerto ‘outdoor’. E Mão Morta no pequeno Sabotage Club foi mesmo grandioso!

Todas as imagens de Luís Custódio aqui:

Mão Morta @ Sabotage