O título da reportagem já entrega de bandeja alguns factos, mas ainda assim será necessário desenvolver. O passado domingo (marcado pela entrega dos Prémios da Academia e o triunfo do filme Spotlight) foi agitado para os lados da Zé dos Bois. Intensa é a palavra mais que correcta para o serão que pôs no mesmo palco o músico experimental David Maranha (mais dois amigos) e os dinamarqueses Marching Church. Mas foi uma intensidade muito particular. Aquela que não se fica pela superficialidade do suor dos corpos ou das goelas abertas de tanto gritar. Foi uma intensidade cerebral, psicológica e latente. Em qualquer dos casos, houve instabilidade e mudança, um arrastar da plateia por parte dos músicos para outros exóticos e bizarros universos. Quer no pensamento absolutamente fora da caixa do primeiro acto, quer na demência excessiva do segundo, a experiência neste dito serão atingiu contornos de tesouro e mediu-se em peso e zumbidos nos ouvidos. Comecemos então do início.

Munidos de um pequeno violino, um par de sintetizadores, umas quantas pedaleiras, um saxofone (e um demoníaco saxofonista) e uma bateria, os denominados Maranha Boys Band foram eficazes na arte de tocar alto e densamente. O grupo encabeçado por David Maranha, Pedro Sousa e Gabriel Ferrandini apresentou-se sério e bem vestido para interpretar temas que vão muito em linha com o espólio avant garde e exploratório do trabalho do titular músico. Muito baseado na manipulação do ruído, dos drones e na modelação sonora, o concerto deste trio juntou elementos de free jazz com as costumeiras experiências com a electro acústica num espectáculo que adquiriu contornos de escultura sonora, como alguns lhe gostam de chamar. A música era comandada por uma feroz secção rítmica, sempre agressiva, num registo uptempo imperdoável que se colava à mesma moda do sintetizador de Maranha, controlado por pedais de sustain duma forma que eliminava praticamente toda a componente melódica do instrumento, como se este fosse mais uma secção da bateria. É importante referir como a dupla foi abrasiva e omnipresente, abolindo completamente o silêncio. Não houve mesmo paragens, só notas sustidas.

A estas duas componentes rígidas e quadradas junta-se a voz histérica e estridente do saxofone que lançava a música num rodopio de paranóia e cornucópia. Os três elementos em sintonia criaram um derrame de som que só não era palpável por pouco. A verdade é que raramente se tem visto por aqui uma banda a soar de uma forma tão concreta, tão áspera e vincada. Não havia um pingo de humidade nos dois temas que tocaram, nem tão pouco a sensação de ar por entre os instrumentos (excepto aquele que Pedro Sousa expirava para o saxofone de maneira tão impressionante). Não se está a apontar um defeito, mas sim uma característica. Se alguma vez este redactor chegou perto de virtualmente conseguir tocar (agarrar, mesmo, com as mãos) em música, foi neste domingo. Enquanto a maioria da arte sonora que se costuma fazer tem algum tipo de “gelatina” ou névoa (onírica ou não), a que esta Boys Band fazia, não. Pura e simplesmente por ter uma textura tão palpável e real, como se a música fosse uma coisa viva e física no mundo. Se realmente fosse o caso, arriscaria a dizer que aqui a música que eles tocaram seria feita de madeira.

Isto por ser intensa, rudimentar, imponente e natural. Raramente rítmica o suficiente para apelar ao corpo e concreta demais para ser transcendente, a performance do grupo foi uma para verdadeiramente se ver. Ver como é que cada músico levava a cabo a sua parte e o que usava para produzir o seu som, ver como a intervenção deste ou aquele elemento mudava alguma coisa na “escultura”, ver (principalmente intrigante e estimulante) precisamente como cada músico reagia e sentia o que estava a fazer. Foi provavelmente a interpretação musical mais visual que este redactor teve num concerto que só teve música e músicos. Sempre num volume ensurdecedor, foi um concerto absolutamente cativante e impressionante. Há que notar a imensa proeza de Pedro Sousa na voz do saxofone e o seu fantástico esforço físico e técnico para comandar um poderio que quase nunca parou de ecoar durante o todo o tempo.

O concerto foi curto (à volta dos 30 minutos), o que é compreensível tendo em conta o peso e a colossal intensidade do volume e a densidade do som, tanto para uma plateia que observava imóvel e inexpressiva (com cada pessoa com certeza a extrair mil e uma coisas diferentes da outra que estava ao lado), como para os músicos, cujo esforço foi visivelmente notável. Este é um concerto que certamente não é para se ter todos os dias, mas é uma experiência absolutamente crucial para todas as mentes que se gostam de manter abertas às possibilidades do som. Bastante além fronteiras daquilo que são as concepções gerais da música, David Maranha e a sua crew foram excelsos em oferecer algo novo a quem nunca os tinha ouvido antes. O ar não tremeu, foi preenchido.

A presença do músico não saiu inteiramente de palco com a entrada dos Marching Church. Isto porque um dos seus discos, Antarctica, é grandemente estimado pelo vocalista e líder, Elias Ronnenfelt, e foi uma peça de inspiração fulcral para a definição da textura sónica deste grupo. Provenientes do muito vincado cenário artístico dinamarquês, os Marching Church são um grupo difícil de traçar. Gostam de brincar com o soul, mas não são inteiramente soul, pegam no jazz, mas nunca sequer tinham tocado jazz antes, conseguem tocar alto e distorcidos, mas não é de distorção que se trata. Seja como for, estrearam-se em absoluto no nosso país com um tão esperado concerto que confirmou com arte, perturbação e encenação de alto nível, o porquê de ter levantado tantas cabeças aquando o seu anúncio.

Mais do que pelo espólio de inspiração, Maranha havia de vincar a sua presença contínua pela noite ainda por outra razão: Pedro Sousa, o virtuoso homem dos sopros, voltou a subir ao palco com os estrangeiros, aumentando a conta de homens em palco para seis. Se por um lado se pensou no homem e no descanso que ele realmente merecia, não houve como não ficar empolgado e curioso pelo que o regresso do músico iria trazer a este cocktail bem apurado. A banda, com bateria, guitarra, baixo, violino e agora saxofone, lança-se numa atmosférica peça instrumental durante largos minutos, ecoando uma sequência de ambiente reminiscente às que dão início aos concertos dos Godspeed You! Black Emperor. A tensão e expectativa acumulam e eis que entra o vocalista e frontman, Elias Ronnenfelt, numa dança encharcada em álcool e excesso, abanando-se ao longo da sensual linha de baixo que ecoava atrás dele.

Com um cigarro a meio, uns bafos longos e consumidos, juntamente com um cambalear decandentista e um olhar que parecia carregar nele todas as impurezas e vícios no mundo, Ronnenfelt entra de longo sobretudo até aos joelhos e bocas de sino de seda. A teatralidade perdura demorada até ao momento em que abre a boca para começar a cantar na sua sui generis voz, carregada de mágoa e queixume. Se a particularidade da voz do cantor já é mais ou menos notória, a forma como a mesma entra com a sua persona de palco é algo que vai ser sempre impressionante de se ver. Muito se fala de Nick Cave, mas enquanto o Homem da Vermelha Mão Direita é uma encarnação directa do Diabo ele próprio, consumido por uma malícia erudita e possessa, Ronnenfelt é mais um jovem Nosferatu com ares de príncipe das trevas, altivo e vidrado, quase como em transe. A seriedade desconcertante como fita a plateia e a postura ameaçadora como se coloca definem logo um registo instável e oscilante. Há uma fúria futurista na sua energia jovem, mas ao mesmo tempo há uma aura sinistra de náusea e obsessão que simultaneamente fascinam e assombram.

O seu olhar consegue ser perturbadoramente penetrante e serpentino, sendo sem dúvida, um dos mais potentes de todo o rock actual. O respeito que um jovem de 24 anos consegue impor com a sua postura comprova uma maturidade que se estende para além da já conhecida erudição musical. Ronnenfelt sabe comandar um palco e sabe comandar uma banda e uma audiência. Simultaneamente uma figura excessiva e cheia de si, como um moderno Alexander DeLarge, aqui foi também um autêntico timoneiro a comandar a tempestade gótica que aconteceu no Aquário, guardando-se a imagem das suas garras, que saindo das longas mangas de feiticeiro, se balançavam violentamente pelo ar sincronizadas com as dinâmicas musicais da banda, pesadíssimas, que ora oscilavam em volume para cima e para baixo, dando a sensação de estarmos à deriva num navio apanhado num furacão.

E o raciocínio que se faz enquanto se vê toda esta encenação a acontecer não podia ser mais recompensante quando um dos showmans mais indiscutivelmente interessantes da música actual em nada ofusca o que está a acontecer atrás dele. Os Marching Church, ao vivo mais que nunca, são verdadeiramente um colectivo de músicos e uma amálgama inseparável de artistas. Todos os seis músicos pareciam estar quase fisicamente interligados numa bolha musical onde se notava uma estrutura palpável onde cada camada trabalhava em prol uma da outra de modo a criar esta música extremamente bela, por muito magoada ou anestesiada que por vezes soasse. Aqui, os músicos jogam muito as dinâmicas emocionais, soando sempre eruditos e altivos quando o fazem. E se sempre soaram a esta verdadeira máquina interligada, muitas foram as vezes foi possível vê-los brilhar na sua individualidade dentro do colectivo, com cada músico a mostrar-se. Tomemos de exemplo a notável a aspereza de Anton Rothstein atrás do kit ou da figura felina de Kristian Emdal a fazer jus ao baixo que carregava.

A banda lançou-se então numa performance artística, inspiradamente munida dos seus toques cinemáticos e literários, servindo como trilha sonora para o excesso, a juventude e o desejo ardente. Baseados essencialmente em temas novos de um disco que estará para sair para breve, a banda tocou alguns temas de The World Is Not Enough entre as quais se destaca uma muito fervorosa e intensa, “Up A Hill” (tão superior à do disco que devia ser regravada), que encerrou o concerto com uma autêntica derrocada sonora que levou tudo a frente. Saltando então de registo em registo, onde visitaram o cabaré, a marcha militar e as áreas mais recônditas do art punk e um pouco do velho drone, os Marching Church levaram a cabo o seu propósito artístico de não se limitarem e manterem-se num ecletismo desbravado. Nem sequer faltou uma balada de 60’s pop masculino cantada pela gultural voz de Elias, que foi um delicioso contra-senso que não podia fazer mais sentido.

Juntamente ao apelo artístico e vanguardista da banda, que podia muito bem ser um colectivo modernista do séc. XX, há uma grande sensação de perigo inerente aos Marching Church. Os instrumentos não soam limpos, soam doridos e enferrujados por muito bonita que seja a frase que estão a entoar. Soam a velho. O som, embora já mais espiritual e solto que os rapazes de Maranha, também se ouviu denso e sufocante. As cordas dos violinos racham-nos os tímpanos e o saxofone (sempre calculista a entrar numa performance improvisada de grande classe) vem para inquietar as sensibilidades. Se isso não bastar, a pura seriedade dos seis músicos há de resolver isso. Constantemente concentrados e sérios em relação ao que estavam a fazer, a postura distanciada dos artistas ajudou a esboçar uma estética aprazível banhada a uma dose (ainda) aceitável de pretensiosismo.

Tocaram muito alto e muito intensamente. Depois de pouco mais de uma hora de concerto, um a um vai abandonando o palco. Fica-se com a sensação de se ter visto algo bastante penetrante, trabalhado e artisticamente eficiente. As guitarras e os violinos ainda ecoam nos ouvidos e a despedida faz-se com um discreto “good night”. Ainda que por vezes puramente estética e pouco mais, a performance dos Marching Church na Galeria Zé dos Bois não pode deixar de saber a espírito e emoção, como ver uma peça de arte verdadeiramente prazerosa. Um espectáculo de emoções polidamente bem orquestrado por talentosos músicos e comandado por um brilhante actor e performer. É como se diz: Fortíssimo.

Marching Band @ Galeria Zé dos Bois