Marijuana Deathsquads - Oh My Sexy Lord
90%Overall Score

Há discos assim… tão difíceis de largar em palavras sobre um papel. Tão especiais em forma e conteúdo, que se torna quase impossível colocar tempos verbais ou adjectivar os substantivos do ser, da coisa, da substância sem se parecer a milhares de anos de luz do que realmente deveria estar a ser escrito.

Ryan Olson, co-fundador dos Poliça e mentor dos Gayngs, e Isaac Gale são o núcleo duro dos Marijuana Deathsquads. Depois, existem uma série de lendas. Diz-se que Stef Alexander (P.O.S.), fundador do colectivo Doomtree, filósofo punk, músico hard-core, rapper e produtor, também anda por aqui e é a lenda mais bem contada de todas. Ben Ivascu, Channy Leaneagh e Drew Christopherson dos Poliça, Har Mar Superstar, David Yow dos Jesus Lizard, Justin Vernon dos Bon Iver, Matt Sweeney dos Chavez e muitos outros nomes, consta que andam ou andaram por este colectivo experimental. Se de alguma forma isto for verdade, estamos perante uma das maiores super-bandas de sempre. Mas o facto mais que tranversal aqui, é que na verdade é absolutamente irrelevante. Oh My Sexy God não foi escrito na Terra. Não nesta que conhecemos. Foi escrito talvez numa paralela realidade de uma talvez nave a caminho de lado nenhum num talvez espaço profundo de híper realidade fantasmagórica.

“Ewak Sadness”, single de apresentação do disco, abre a viagem. Começa em ambientes eletronicamente tratados e acaba na velocidade punk-rock de “Black Steel” de Tricky. A voz, sempre indefinível entre o homem/mulher, terreno/alienígena, espectro/humano, sabe onde vai terminar a viagem: “We know how this ends / We all gonna die in the ocean”, e entretanto as luzes da nave tremem, acendem e apagam, aumentam o nervosismo e o desconforto já instalado logo à primeira música. Seremos vítimas de um ataque zombie ou apenas de uma mentira demasiado prolongada? Cronicamente letal como o ser humano. Temas como “Scheme” ou “Dissolve” funcionam quase como intermináveis separadores entre pesadelos e estados alterados de paz, não escondendo nunca os monstros que se arrastam pelos corredores da nave. Em “Crosstown Crippler”, os espectros aproximam-se tanto que em “Sunglasses And Bail Money”, “893” e “Stacks” lambem-te o rosto de forma quase sexy: que pena ser apenas um espectro! “Bad Boy Masterpiece” é um grande plano do rosto desumano do monstro, mas podia ser Alice Glass dos Crystal Castles com os amigos russos dos Ambassador 21 numa madrugada em Londres pós apocalipse a combater zombies com armas carregadas de beats power noise.

Há vestígios de imensos universos, como se os Marijuana Death Squads fossem mais que uma banda; fossem uma civilização avançada. A facilidade com que o hip-hop se mescla no industrial de uns Skinny Puppy e o synth-pop dos Chvrches espreita a saudade dos primeiros ecos do drum&bass e do jungle de Goldie, Roni Size e Squarepusher ou o experimentalismo pop sombrio de Tricky, Atari Teenage Riot e Archive, é absolutamente natural e como se nunca tivesse sido de outra forma. Tudo, claro, sempre envolto numa atmosfera aterrorizante e creepy sci-fi. Milla Jovovich e o seu Resident Evil agradeciam uma banda sonora dos Squads.