Foi com muita surpresa e algum espanto que o mundo assistiu já este ano às primeiras canções de Marika Hackman para I’m Not Your Man, o seu próximo registo de estúdio, canções que viram a norte-americana transfigurar as ambiências alt-folk imbuídas de inquietação melancólica e as imagens com sabor a terra e feno que constituíram grande parte do seu primeiro disco e ir ao encontro de um punk, muitas vezes de contornos grungy, de nervo ligado à corrente e de uma rebeldia suave e delicada como se fosse uma good girl a brincar às bad girls.

Mas a verdade é que We Sleep At Last de 2015, embora registando uma forte tendência orgânica e acústica, já fazia antever a espaços (lembram-se de “Open Wide“?), um magnetismo alternativo colocado bem fora das esferas bucólicas delicadas e tranquilas da maioria das canções desse disco, a pender quase quase para uns Radiohead casados com uns Nirvana versão ligeiramente menos angsty mas igualmente embrulhada em tristeza, alienação e angústia. Algumas delas poderiam, no limite, muito bem ser versões acústicas dos primeiros, com uma construção melódica muito próxima à que reconhecemos à banda de Thom Yorke.

Se “Boyfriend“, “My Lover Cindy” e “Violet” são espelhos dessa veia mais insurgente e amotinadora, o novo tema “Cigarette” testemunha Marika Hackman de regresso às cordas crepitantes e de viola na mão com um sentido imenso de harmonia na ponta dos dedos que a devolve, literalmente, ao formato canção folk. As temáticas, essas, focam-se em questões de género e identificação sexual, nas pressões decorrentes da bolha que são as redes sociais, no ritmo acelerado do mundo.

I’m Not Your Man sai já na próxima semana, a dia 2 de junho, via Sub Pop.