Há muitos anos que pretendo dizer das boas ao Mark. Ainda não foi desta. Faltou-me um bocadinho assim. Depois vi o concerto. Mesmo sem a entrevista. E já estou melhor.

Éramos meia dúzia de gatos pingados e pinga-amores sobejos. Tudo à espera d’O Bom Pastor. Mark Eitzel a palavra. A sua. É quanto baste para uma pequena legião de seguidores a cantar em uníssono. Porque nesta estória do quotidiano de um homem, não há nada de especial para lá do facto de as saber contar como ninguém.

Longe vão os tempos dos American Music Club (AMC), esses que, com os Red House Painters do Kozelek, ainda nos faziam ter esperança “naquela” América. Pertíssimo de nós (para isso, conte-se com a pródiga ajuda do Musicbox, um must no que toca à aproximação entre artista e público) está este homem que passaria despercebido numa esplanada qualquer, mas que aqui é rei e senhor. Dono destas hostes que fecham os olhos e balançam o tronco à espera. Quase posso garantir, não aguardam “aquela nota” mas sim “aquela palavra”. Palavra de Eitzel. Sagrada.

Sem essa, porém, nem uma, nem um “obrigadozinho” pelas palmas da recepção, os primeiros acordes e o ambiente que criam são aquilo que, digo eu, o Sufjan Stevens aprendeu a fazer. Há fragilidade. Ou ócio. Podia ser um bar onde se bebe um copo. Espera… Afinal É. Os Tempos Modernos dos diners ou de outro lugar qualquer são descritos. Com erudição. Jazzístico, sim, soturno, um contrabaixo, “and our talk is useless / it only makes us seem clever / while nothing changes”, é um homem, apoiado no tripé do micro, a segurar a audiência com um tema de 60 Watt Siler Lining de 1996 e não de Don’t Be A Stranger que supostamente vem apresentar. Prossegue com um “Well, I’ve been praying a lot lately / It’s because I no longer have a TV / Just a fluorescent hangover to light the way / Between the things you say and the things I see” de “Apology For An Accident”, dos AMC, de que Eitzel justamente se apropriou, depois d’O Fim, em 1994.

Ok, estamos todos pelo beicinho, Eitzel está à altura dos ombros que sobe para dar os (possíveis) agudos e tudo está no devido lugar. Agora, já podemos ouvir temas como “I Love You But You’re Dead”, do “novo” disco, desde que retornemos depois a dois hinos, “Night Watchman”: “Is there some secret i’m supposed to know / Is there some secret i’d always miss / ’cause there’s no dignity when you have to live / Within the boundaries of a kiss” e “Why I’m Bulshit”: “… because I like sleep and I like social drinking and I don’t like going past the point of no return”, enquanto ergue a cerveja e canta o final do tema assim, brindando, como um Shane MacGowan que troca a letargia do álcool por toda a acutilância com que observa o que o rodeia e oferece ao mundo, só não ouve quem não quer, só não gosta quem deveria apanhar o próximo shuttle para Marte! É então que alguém pede, directamente, olhos nos olhos (estamos no Musibox, relembro), o “Patriot’s Heart”. Isto poderia ser a descrição de qualquer outro concerto. Porque em todos se pede O Hino dos AMC. Mas agora há algo diferente. Passamos para a sala-de-estar de alguém. Outro alguém agradece a quem pediu. “If you want to see something patriotic there’s a stripper / He don’t that look that good / But he’s got an all american smile / That fills his underwear with all the lonely dollars” e o mundo roda neste eixo.

A partir de agora, o homem pode ir embora. E vai, pouco depois. Mesmo quando estava a ficar bom, dirá a maioria. Não. Ficou melhor ainda, houve mais quatro ou cinco temas, o tal que escreveu a propósito da sitcom onde Mr. Humphries perguntava a punchline “Are you being served?”, o “Oh Mercy” (ou o hino anti-festas), os lamentos de “We All Have To Find Our Own Way Out” e “no one here is going to save you”, dois encores, histórias dentro da música, as histórias que as fizeram nascer, ou seja, o costume em Mark Eitzel. E que seja. Costume. Ou ritual. E é.

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