Mark Lanegan - Imitations
70%Overall Score

Mark Lanegan já nos habituou: o que quer que faça, fá-lo bem. Este álbum de versões não é excepção. Imitations é, tal como indica o título, uma colecção de imitações das suas influências que, por ele cantadas, ganham um novo significado na sua voz inconfundível, chegando até a rivalizar com os originais. Desde Chelsea Wolfe a abrir o álbum com “Flatlands”, até ao final “Autumn Leaves” de Andy Williams, Lanegan leva-nos numa viagem onde a sua voz é a condutora de emoções numa paisagem de músicas com arranjos muitas vezes minimalistas, mas que nos tocam precisamente pela sua beleza simples.

Ao longo do álbum vamos sentindo um crescendo dessas emoções e essa sensação de gradação é a verdadeira mestria do alinhamento. Em “Flatlands”, “She’s Gone” de Vern Gosdin e “Deepest Shade” de The Twilight Singers, Lanegan mantém-se fiel aos originais, mesmo na raiz country de Gosdin, o cantor norte-americano. Mas a grande mudança vem com a quarta música do alinhamento, “You Only Live Twice” de Nancy Sinatra. É surpreendente ouvir Lanegan cantar Nancy Sinatra, mas não é nada surpreendente que consiga fazer da música obra sua e esquecemo-nos por momentos que esta é uma das mais famosas músicas do genérico de abertura de 007 com o mesmo nome. Numa versão despida de artifícios orquestrados e com um excelente arranjo de guitarra, a voz grave de Lanegan contrasta com a de Nancy Sinatra, mas soa tão bem como o original. E logo de seguida temos “Pretty Colors” de Frank Sinatra. Impensável dizer que alguém pode cantar uma música de Frank Sinatra melhor que o senhor The Voice. No entanto, esta é uma homenagem digna, de um excelente cantor para outro. Duas das vozes mais carismáticas de sempre. Acredito que o “Ol’ Blue Eyes” teria ficado orgulhoso.

O alinhamento leva-nos por mais caminhos em que Lanegan está em casa, como Nick Cave ou John Cale, com versões bastante próximas dos originais. Andy Williams, o cantor norte-americano de grandes êxitos nos anos 60, é o escolhido para três dos temas deste álbum: “Solitaire”, “Lonely Street” e a já mencionada “Autumn Leaves”. Todos eles com versões bastante bem conseguidas e cantadas de uma forma menos dramática/operática e mais boémia na voz de Lanegan, como seria de esperar.

As surpresas finais vêm com mais dois temas, “Élégie Funèbre” de Gérard Manset e “Mack the Knife” de Bobby Darin. Na primeira, temos Lanegan a cantar em francês (não é inédito, lembre-se “The Gravedigger’s Song”), mas apesar de bem conseguida instrumentalmente, a prestação vocal é um pouco prejudicada pela sua fraca pronúncia francesa. Na segunda, um original da dupla Kurt Weill/Bertolt Brecht escrita para a sua peça A Ópera dos Três Vinténs e popularizada pelo ícone norte americano Bobby Darin, temos uma versão que nada tem de big band jazz, como a de Darin. Apenas uma guitarra acústica e a voz de Lanegan são suficientes para um dos melhores momentos de um álbum com um toque elegante, interpretado por um artista tão cativante e ecléctico quanto as próprias músicas.