Matthew E. White - Fresh Blood
90%Overall Score

O gentil gigante da voz envolvente fê-lo outra vez! O nome do songwriter da Virginia (E.U.A.) causou um autêntico sobressalto em 2012 com Big Inner, um conjunto de gravações caseiras que tinham como objetivo mostrar a outros cantautores o enorme potencial da editora Spacebomb. A editora lá se lançou, mas o que mais impressionou foi o estrondoso talento de Matthew que viu a sua vida dar uma volta de um dia para o outro. “One of the great albums of modern Americana”, exortou a Uncut, “Mágico” clamou a Pitchfork, e o exigente The Guardian colocou Big Inner entre os melhores álbuns do ano, carimbando-o com cinco estrelas. Em dezoito meses, Matthew andou por território europeu e norte-americano a mostrar o seu talento, encantou plateias em festivais como Glastonbury e Primavera e até tocou com uma banda de 30 elementos em espaços de eleição como The Hollywood Bowl e a Sidney Opera House. Daí às entrevistas, reportagens e muitas requisições Matthew, que ainda anda a recuperar do que lhe aconteceu em 2013, começou a ser bombardeado pela pergunta fatídica, pesadelo de tantos artistas e bandas desde tempos imemoriais: para quando o segundo álbum? A espera acabou… e vem em golfadas!

Fresh Blood, o novo álbum, pouco tem a ver com o trabalho de estreia. Se Big Inner nasceu de geração expontânea porque resultou num álbum que nem era para ser, tudo em Fresh Blood foi meticulosamente planeado, sem que esse planeamento signifique uma quebra de qualidade, bem pelo contrário. Matthew planeou-o ao pormenor com o seu parceiro de canções, amigo de longa data e antigo companheiro de banda, Andy Jenkins. Confiou o som à banda da casa (da Spacebomb), foram definidas timelines e deadlines, e discussões demoradas sobre que histórias deveriam ser contadas nos temas de Fresh Blood. E no entanto, ouvindo Fresh Blood, não dispensaríamos por nada este cuidado planeamento ao qual o segundo de Matthew E. White foi sujeito. Audaz e confiante, assim soa Fresh Blood.

O segundo álbum começa onde tantos terminam: na balada. “Take Care My Baby” é uma clara manifestação de amor com um toque de soul dos anos setenta, onde até o batido verso “where have you been…” ganha uma vida nova. Passamos do amor terno para o festim, onde Matthew E. White é o anfitrião e faz as honras da casa. Em “Rock & Roll is Cold”, é tudo dele e é ele quem aumenta e diminui o termostato desta White Party! Soul, rock, gospel e um Matthew a divertir-se à grande enquanto brinca com a voz dele e a esconde atrás dos backup singers e saxofones ao rubro. E o entusiasmo continua continua ao longo de “Fruit Trees”, um tema sorridente e sedutor onde White insinua “let me sleep in your tent tonight” entre harmonias, cordas e sopros.

No entanto, nem tudo é festa e sorrisos em Fresh Blood. A meio do disco, Matthew mostra o mundo tal como ele o vê. “Holy Moly” é uma pujante manifestação de raiva em direção aos abusos sexuais no seio da igreja, e vai ganhando fel à medida que avançamos entre o frenesim da banda que o parece acompanhar na indignação. De seguida, “Circle ’Round The Sun” conta-nos a história do suicídio de uma amiga da mãe de Matthew, numa manifestação de amor a alguém que partiu e um conflito latente entre vários sentimentos. “Feeling Good is Good Enough” até soa a resignação à primeira, mas quando Matthew solta um “honey, will you come home with me”, sabemos o que pode acontecer a partir da “one last dance tonight”… amor e desejo assumidos e sem medo de parecer lamechas. “Tranquility” é a homenagem improvável ao talentoso Phillip Seymour Hoffman, um tema também ele talentoso dedicado a um actor de eleição e ao aparente conflito entre força e fragilidade. “Golden Robes” é mais uma manifestação de sedução e em “Vision”, Matthew não tem dúvidas que “nobody in this world is better than us” e explora com mestria um dos temas mais fortes de todo o álbum, com todo o manancial que tem ao seu dispor. E como poderia Fresh Blood terminar sem o sangue quente de Matthew E. White? “Love is Deep” é amor, é posse, é o final perfeito para um disco arrebatador.

Matthew sabe o que vale e Fresh Blood vale muito! Um dos melhores álbuns do ano!