Maxïmo Park - Too Much Information
90%Overall Score

Chove e não é pouco; talvez um livro de W.B. Yeats debaixo do braço e os The Smiths nos headphones, alguém de sobretudo cinzento corre e entra num autocarro vermelho: e isto podia ser uma fotografia. Too Much Information podia ser uma fotografia de um dia-a-dia em Londres ou em alguma outra cidade britânica. Sim, britânica, porque há canções que nascem com a genética de um povo e num só disco pode-se desenhar toda uma linhagem e herança sonora de um povo. Nenhuma destas canções podia ter sido escrita em Nova York ou Reykjavík. Neste caso, é Newcastle a fonte onde nascem estes pedaços de histórias. Canção a canção, Paul Smith, canta as melancolias do amor, das partidas, das novas descobertas e das velhas feridas. “Senta-te aqui comigo junto ao Thames e eu vou-te cantar umas histórias”, parece dizer.

Sabe bem ouvir discos destes. Com canções simples na sua complexidade e diversidade. Não é preciso mais que histórias, palavras e sinceridade! São canções honestas, sinceras e sofisticadas. Sim, sofisticadas. Não temos canções de pub. Nem mesmo em “Give, Get, Take”, “My Bloody Mind” ou “Her Name Is Audre”, canções que parecem correr pelas ruas carregadas de sentimentos urbanistas, se denota uma vontade de ser punk, é sempre mais post do que punk. Alfinetes aqui só na gravata.

Vamos tirar mais fotos e beber um copo ao fim do dia?! Vamos. “Is It True” é uma bebida a dois num apartamento a meia luz. A idade maior onde ouvir uma canção a dois é muito mais que suficiente, é o momento pleno! É uma foto escura com amarelos torrados. “Drinking Martinis” é apenas uma fotografia desfocada. Belíssima, mas enganosa, “We act as if the way that we were was wrong / as if people changed”. Não, as pessoas não mudam, a idade maior é que chega sem dares conta. “Lydia, The Ink Will Never Dry” é um retrato de Morrissey a desenhar a carvão Paul Smith a escrever uma canção que poderia ser “Midnight On The Hill” ou “I Recognize The Light”. A canção dentro da foto da canção que era uma foto: “I visit South America following a dead man’s words / I visit through a different man’s images”.

Entre tantas fotografias existem dois filmes; duas longas metragens que entram directamente para a corrida aos prémios maiores do Olimpo. “Brain Cells” e “Leave This Island” são canções de uma vida. São dois estrangeiros perdidos numa cidade enorme onde não entendem a língua, mas ainda assim falam mais alto que todos os outros. Em “Brain Cells” é de noite e não é uma boa noite para sair. Algo de escuro anda lá fora e vai-te levar. São os medos e as paranóias. De um densidade sufocante e distorcida, onde as guitarras foram roubadas e os sintetizadores e as percussões ficam a pairar na noite, quase assustadoras, quase geladas, mas no fundo tão cheias que o ar fica carregado e irrespirável. E depois surge “Leave This Island” onde não é de noite nem de dia: perdemos os sentidos, perdemos a noção de onde estamos ou o que estamos a fazer. Se “Brain Cells” te retirou o ar dos pulmões, “Leave This Island” retira gota a gota cada lágrima dos teus olhos. A mais bonita canção de amor do início de 2014 ou o que deveria ser um clássico intemporal.  Uma dança, um arrepio, uma brecha no tempo para entrar e sair a dois ad aeternum.