São nove faixas à beira Mediterrâneo plantadas. Todas elas pejadas de letras em português, das cordas da guitarra de Valter, tão bem incorporadas na sua voz. Quando o tempo passa a correr, costuma ser bom, não é? E como passa e corre junto a este Mediterrâneo de lirismo íntimo e sublinhado de elegância. O Outono melancólico de Lobo agarra, com unhas e dentes, o amor, a amizade, as emoções humanas e coloca de parte todas as circunstâncias e elementos superficiais que as pessoas costumam agarrar à vida. Possamos, assim, lembrar-nos de fazer o mesmo. Com aromas de flores, de oceanos, terras sem fim, batalhas navais, cavalgar de índios ou varandas com vista para o mar na hora do crepúsculo, teríamos de mentir se disséssemos não derreter.

De Braga, e três anos passados do ep Inverno, Valter conta, nesta obra, com a participação dos músicos Jorge Moura e Tiago Borges e com a produção de Pedro Bessa. O cantautor, com um disco nitidamente cheio de maturidades, provoca o cancioneiro mais tradicional, na forma e no conteúdo das suas aventuras líricas, e cria nove momentos de uma imensa intimidade, cheios de uivos duros e suaves, deixando-nos à mercê de nos sentirmos muito vivos. Dizemos isto pois a proposta não deixa, todavia, de se identificar com o âmago dos ouvintes, através das letras, delicadas e melódicas, que assobiam vários degraus da condição de se ser humano.

A guitarra e a voz de Valter são duas faces de uma moeda com uma engrenagem muito especial: nenhuma das partes se sobrepõe à outra, sobretudo se atentarmos aos arranjos conseguidos com os outros músicos. Neste que é o seu primeiro álbum, estão presentes várias referências à natureza, sobretudo ao mar, como meio de simultâneos sentidos, uns mais pacíficos e outros mais tenebrosos, embora sempre assente numa imponência sem igual. Encharcamo-nos de sal e espuma a cada faixa, e logo nos queremos aninhar numa cama de lençóis macios. Conforme vamos escutando Mediterrâneo, ficamos com vontade de anotar as letras em cadernos, torná-las poemas que possamos ler e levar connosco. A palavra ganha um trampolim ao infinito e seria, talvez, ao jeito das canções de amigo, de escárnio e maldizer, no pretérito nacional, que Valter se sentiria melhor inserido. Cada balada oferece pequenos sufocos no fôlego e, quando assim o agarramos, também réstias de esperança e de ânimo.

Escolhendo entre ouvir ou sentir, ou escolhendo ambas as hipóteses, as sensações revelam-se à flor da pele, sem esconderijo possível. A frontalidade e a sinceridade de Valter, que não omite ao detalhe, levam-nos em viagens de carro, em noites mal dormidas ou em longos passeios à beira-mar, entre manhãs de Outono e entardeceres de Verão. Essa capacidade de oferecer movimento, de oferecer dinâmica, de nos deixar envolver com os seus temas, os seus assuntos, os seus dias, é bastante digna e bela. Custa aceitar, à primeira audição, mas logo nos deixamos tombar e assimilamos que, de facto, há passos transcendentais na existência, e há memórias e imagens que, na vida dos homens, conseguem relacionar-se.

Em “P’ra Sentir Mais Dou De Mim Mais”, faixa que inaugura o disco, Valter, depois de a guitarra dizer tudo o que quer, abre-se logo o leque ao que trata, na primeira instância, o álbum: dar tudo de nós, sentir tudo o que é possível e impossível e, assim, em jeito de prólogo, deixar que nos embalemos pela emoção, pelo que é mais característico da vida, entre matéria terrena e matéria não tangível. Se a pele começar a arrepiar já…é bom que se habituem, pois será assim ao longo das nove faixas, e ninguém é de ferro, felizmente. Somos carne e ossos e sangue, e tudo isso, numa mistura inteira, gera um enorme sentir de tudo.

A segunda música partilha o nome com o álbum: “Mediterrâneo”. Neste que é um sonho azul, entre códigos genéticos, paisagens fragmentadas, sangue ancião e moderno, e em busca incessante pela inspiração, ouvimos o trecho: “levo a imaginação toda em verso e um plano que se começa a escrever numa varanda sobre o Mediterrâneo”. O mar, entre o continente africano e o europeu, tem provado ser um local de troca de mitos e episódios históricos, de várias eras. Este mare nostrum, que dita também a afamada dieta mediterrânica, bem como o clima, celebrizou-se constantemente pelas inúmeras trocas culturais e comerciais, entre vários povos, e assistiu ainda a alguma fragilidade política, relacionada com questões de pertença e fronteira. As analogias são várias, mas, para quem esteja na região de Braga, o Mediterrâneo parece, de facto, algo distante geograficamente, embora, por outras leituras, esteja até bastante perto.

Na terceira faixa, “Oeste”, a designação e a abertura da música remetem, de imediato, para um sonido que, em tudo, se assemelha aos cascos de cavalos, caminhando com a crina ao vento. Esta canção, passível de soar bem aos índios e aos cowboys, deixa que seja Lobo a chegar-se à frente, ao dizer-nos que “só de te abraçar sinto que a música altera, o meu corpo altera, o mundo altera-se”, deixando-nos à mercê das consequências da música e da sua voz que, gradualmente, expande e cresce sem receio algum. O imaginário de cada um que a escuta viaja entre os westerns de antigamente e, novamente, somos empurrados para uma viagem no tempo, sem medida e sem espaço concreto, mas que deixa efeitos secundários muito marcantes.

Com “Tenho saudades”, regressam as palavras cruas, banhadas dos mais altos sentimentos e das emoções mais despidas, deixadas ao relento. Sentimo-nos quebradiços e Valter confirma que é assim que tem de ser, quando nos canta “carne crua tenho saudades” e diz querer “morar no teu jardim”. Com esta música poucas são as hipóteses de sobrevivência e, àqueles que conseguirem resistir, os nossos parabéns, pois não é, em nada, tarefa fácil. Em termos de melodia é também nesta faixa que a composição musical encontra um ponto muito peculiar, cobrindo-se de ruídos que parecem provenientes de sonhos ou atmosferas paralelas, embriagadas de uma aura não mundana. Não é que as suas composições sejam obrigatoriamente tristes, mas é na comparação pessoal que nos chega a dor maior, a de não saber se, às tantas, Valter fala dele próprio ou de nós.

Chega-nos “O Governo Não Sabe Nada Do Nosso Amor”, faixa que podia facilmente tornar-se política mas que fala antes de um amor que ultrapassa almas e corpos, sendo impossível camuflá-lo ou torná-lo discreto, ainda que os vários locais e instituições do universo não o consigam distinguir ou enumerar, como o governo ou o cinema. O amor, nas várias raízes e leituras, é aqui nomeado no álbum vezes sem conta, mesmo que por palavras e caminhos distintos e imprevisíveis. Valter chama a “Primavera tardia no meu Inverno”, quiçá estabelecendo, em parte, ligação com o seu ep, desaguando a sua carta num amor que parece quase proibido, quando canta que “não há como vertermos a viagem de um corpo envolto em sentimento, é mais forte que o segredo de um corpo envolto em desalento, não consigo mais esconder”.

Em “Guarda-me Esta Noite” voltamos a ser arrebatados logo que Valter entoa que “a casa vai ruir se não formos ossos do nosso amor, se não formos corpos em furacão, sem roupa nas palavras”. Nesta música existem, assim, muitas frases que queremos citar a toda a hora, como “se soubesse que amanhã não há um amanhã tão certo, guarda-me esta noite” ou “o universo ainda não tem o que nos falta para sermos eternos”, tudo brindado pelo fôlego incessante e resistente de Lobo, numa desmesurada entrega à letra e à melodia. Vamos apanhando os cacos em que nos transformámos e, ainda com alguma força suplente, continuamos em marcha.

É então altura de escutarmos “Fora Do Coração”. Esta faixa demonstra bem a capacidade vocal de Valter, num crescendo ímpar, tal é o ritmo incansável da música, um pouco como sucede com as batidas do coração, esse músculo enlouquecido. “Fora do coração deixo o que me faz mal, deixo as coisas que fazem sofrer”, numa “valsa negra”, frenética, como alguém que corre com muitas ganas, respirando com força. A diferença, talvez, entre tomar decisões de cabeça fria ou de cabeça quente, ou, até, decidir, como dizem as vozes do mundo, com o coração, e não com a cabeça.

A penúltima faixa de Mediterrâneo, “#Supernós”, cria um trocadilho possível entre as palavras, quando entendemos o som idêntico de ‘nós’, na primeira pessoa do plural, e os nós de cordas, por exemplo. É uma brincadeira viável pois o ‘nós’ humano, no seu colectivo de duas ou mais pessoas, tende a encher-se de nós, alguns até apertados, não é verdade? Lobo canta-nos que “vai ser bom para nós, vai ser bom mudar, vai ser supernós”, deixando que, nesse instante, a sua voz conheça algum eco, e se aprofunde no instrumental maravilhoso que a envolve, numa ressonância que recorda o interior das cavernas ou o alto dos precipícios, implorando que lhe “lancem as cordas”, num fervoroso pedido de salvação e sobrevivência.

A odisseia de Mediterrâneo, intensa e cheia de vida, finaliza com “Quem Me Dera”. Esta faixa, tratando-se da última música do disco, encabeça as vontades propostas para um futuro, próximo ou distante. Depois da tempestade, a bonança, e depois do mar em polvorosa, o aparente descanso das águas. Fala-se aqui de uma moça sem nome, de vestido bonito, e Lobo declara “de terra para a lua, da lua para o mar, se o teu corpo é mar inteiro, o que eu quero é naufragar”. Na verdade, foi bastante complicado chegar inteiro ao fim da viagem. Mas, para aqueles que o fizeram, é bom que se continue a navegar, caso contrário nada terá feito sentido até então. É preciso primeiro passar pelas tormentas, sejam elas quais forem, para que, no fim, se possa mergulhar num profundo azul.

Obrigada Valter. Aqui te escutamos. A ti e ao teu Mediterrâneo.