Separadas e juntas, “sundur og saman“. É o provérbio islandês que foi adaptado para o nome do álbum das nossas mui queridas irmãs Pascal Pinon. As islandesas Jófríður e Ásthildur Ákadóttir estão de volta com Sundur. Esta nova pérola traz consigo momentos experienciados pelas duas, durante um ano e meio, sentimentos de distanciamento emocional e físico e isolamento pessoal que retrata a separação temporária das duas inseparáveis irmãs. Quando Jófrídur viajou em tour com a sua outra banda, Samaris, e Ásthildur partiu para Amesterdão para estudar piano, a dor e a perda momentânea deram origem a um belo banquete de músicas tão distintas quanto sofisticadas. Nunca esqueceremos a inocência das duas com os seus teclados Yamaha e vídeos bonitos no YouTube, mas o seu neo-folk electrónico, assim como a melancolia minimal, surgem mais aperfeiçoados agora, num poema contínuo.

 “We had never been apart our entire lives until we finished touring with our last album” – confessam-nos.

Sundur é o álbum mais matizado da dupla até à data e carrega em si faixas escritas pelas duas durante um ano e meio que enchem a alma, que fazem voar. Músicas contornadas pelo amor aos teclados e sintetizadores e, ocasionalmente, com estranhas percussões a dar as suas achegas. A beleza natural da Islândia é tão evidente com Jófríður e Ásthildur que poderíamos passar horas e horas deitados a ouvi-las cantar… é sonhar, chorar e contemplar. Sundur é um morcego dourado que sai da gruta para brilhar. É a dor que sai à rua.

Duas pessoas que separadamente construíram e desenvolveram o seu intelecto criativo, criaram ao mesmo tempo pontes que as fizeram aproximar uma à outra. Mergulhamos neste disco e deslumbramo-nos dia-a-dia com o dia-a-dia. Duas viagens distintas compiladas em apenas 48 horas com a ajuda técnica do progenitor Áki Ásgeirsson onde se identificam claramente semelhanças com os australianos Decoder Ring, os extravagantes AIR ou a magia suave dos Múm e dos Amiina.

Começamos com “Josá & Lotta”. A faixa é uma crua melodia que soa primeiramente com ruídos, mas que se torna tão clara e límpida. Acompanhados do órgão de Jófríður e entrelaçados na voz de Ásthildur, somos automaticamente embalados nestes quatro minutos, pegados ao colo, abraçados por estas duas vozes, sempre, em uníssono.

“Two hearts,
at separate peace, too big,
to merge their space”

“Skammdegi” – “pleno inverno” em português -, é totalmente cantada na língua materna das irmãs como se fosse um hino às neves da pequena ilha gelada. A fragilidade a destilar. A simplicidade a picar nos dedos. Retornamos a ouvir, sem parar, para nos deliciarmos com o gelado Inverno, ainda que não entendamos a língua em questão. Nos pássaros de “Fulgar” são visíveis as marcas do mundo de Björk, com o órgão sempre a pulsar e a voz a caminhar pelas palavras amargas e doces de ambas.

Um dos temas mais surpreendes deste precioso álbum encontra-se em “Spider Light” que nos faz reviver os tempos áureos da dupla francesa AIR, o perfeito ritmo que proporciona um abanar de cabelo pela aurora de um dia quente e meloso de um mês de Agosto nada nórdico. Perda, saudade e reconciliação são muitos dos temas que passam pelos nossos ouvidos aquando escutamos Sundur. Este novo álbum traz consigo uma nova estética, mais detalhada na decomposição poética do corpo e da alma. Uma introspecção em modo mp3.

Ao longo do álbum são apresentadas novas percussões, novos sons, mais incomuns como talheres caídos pelo chão ou brinquedos alheios. Novas experiências e novas sonoridades, incrementando o charme e mistério em Sundur, ainda mais. Como em “Forest”, esta preciosa faixa. Respirem fundo, depois de a escutarem. Note-se os progressos de teclado analógico, conduzindo numa pista meio CocoRosie. As duas irmãs uniram-se mais uma vez a uma linha poética que as guia através de sonoridades que mais parecem constar de filmes melodramáticos antigos, ou ainda de grafonolas a palpitar incessantemente notas musicais. Em “Twax” sinos soam divinamente acompanhados de um Yamaha bonito em modo relaxante, em modo pacifico. É uma grandiosa mescla de instrumentos, uns mais vulgares, outros nem tanto, como o ruído do cortador de relva. Três minutos para nos aninharmos. “Twax” é o instrumental perfeito para este banquete que veio da Islândia. É o mote, para a próxima faixa, “Babies”, novamente um matrimónio de sinfonias, incluindo drones harmonium. É, de certo, uma das criações mais bonitas e inquietantes das irmãs.

Em “Weeks”, desfecho de Sundur, podemos anotar um desassossego sonoro que se inicia desde logo quando carregamos no play. Este peculiar ingrediente sonoro assemelha-se a uma ventoinha futurista zangada, um zumbido electrónico, precedido pela voz de Jófríður e Ásthildur a entrar num êxtase e clímax que dá os seus sinais de despedida. Comovente e aflitiva, esta é uma faixa que nos sussurra durante momentos de silêncio, como quando lemos Bell Jar da poetisa Sylvia Plath. Palavras que picam e doem, que descrevem com detalhe cada tristeza e alegria. Quando são proferidas as palavras: “You took my sanity”, percebemos a criação intimista que Sundur despoletou em nós. As lágrimas vão caindo e os sorrisos vão sendo desenhados.

Sundur é o terceiro álbum-tesouro das irmãs islandesas. É muito mais do que todos nós julgamos pensar, é o pórtico para conhecermos estas duas almas e nos conhecermos melhor a nós próprios. Duas partes que se juntam numa só, a soma de dois corações. A separação como causa de uma união imensa e incrível. Um despojar quase automático, uma janela entreaberta para uma beleza frágil. Mesmo a milhares de quilómetros de distância, consegue-se dar as mãos. Mais maduro e diversificado, Sundur promete abrir os corações para o bem e para o mal. Com singles que outrora já vos apresentámos como ’53’ e ‘Orange’. Agora poderão ouvi-los na íntegra, com headphones perdidos em casa ou no jardim. Vão mesmo deixar passar esta viagem?