No mítico reino de Westeros, cenário onde decorre grande parte da história do fenómeno televisivo A Guerra dos Tronos, a chegada das estações do ano é anunciada através de corvos albinos que são enviados pela Citadel para todos os locais relevantes dos Sete Reinos. No mundo não fictício, há um grupo britânico que torna essas aves em discos: falamos de nada mais nada menos do que dos Metronomy. A música do grupo liderado por Joseph Mount sempre teve uma espécie de ligação “simbiótica” para com o Verão, facilmente justificada através de uma mistura entre groove e soul, unidas por uma sofisticada electrónica a fazer de ‘cereja no topo de bolo’. A junção destes elementos é o que dá vida à musicalidade dos Metronomy, desencadeando uma tremenda felicidade no nosso interior, como se de um vazio sem fim tivesse finalmente sido preenchido; um vazio de nove meses sem calor, sem praia, sem saídas ou aventuras pela noite dentro, que desaparecem nos raios de sol com que Junho, Julho, Agosto e meados de Setembro nos brindam.

Relembrando a matéria das aulas de Filosofia do secundário – pois nestes meses as aulas estão em pausa -, sobre premissas e conclusões: “Há felicidade no Verão. Os Metronomy têm felicidade na sua música. Logo, os Metronomy são música de Verão”. É este raciocínio que dá mote ao mais recente quinto álbum de originais, Summer 08, lançado no primeiro de Julho. Passados dez anos desde o primeiro Pip Paine (Pay The £5000 You Owe), Joseph Mount volta a produzir um disco para a banda de forma individual e só, o que conduz a uma mudança (positiva) na sonoridade dos Metronomy: o nu-disco sobressai em favor da electrónica groove/soul, alcançando a linha de pensamento que Love Letters introduziu e assinando o longa-duração mais indietronica que os britânicos cozinharam até à data.

Esta nova direcção não é de todo um aspecto negativo, antes pelo contrário; a experiência dos Metronomy permitiu-lhes alterar a receita do bolo, mas sem que este perdesse a sua essência na totalidade. Aliás, algumas faixas não são abrangidas completamente por esta nova orientação: “Back Together” e “My House” mantêm aquela vibe mais para o funky com que nos têm habituado ao longo dos seus discos, muito graças ao electrizante baixo de Olugbenga Adelekan. Contudo, são os temas repletos de electrónica que verdadeiramente se destacam, como “Old Skool” ou “Night Owl”, os primeiros que foram dados a conhecer nas últimas semanas, e a belíssima “Hang Me Out To Dry”, que conta com a participação da sueca Robyn como voz principal. O aglomerar de teclados e sintetizadores em Summer 08 permite levar o ouvinte para além das nuvens cor-de-rosa, com sabor a algodão doce, de Love Letters e directamente para a estratosfera, onde os Metronomy improvisaram uma pista de dança gigante com as noites de mil e uma estrelas a servirem de tecto e a Lua a fazer de discoball gigante.

Neste cenário de sonho, Summer 08 é passado na íntegra, tal não é a capacidade deste de funcionar como um todo que deixa uma sensação de “sucesso” a pairar no ar: as suas dez músicas complementam-se entre si para alcançar o Nirvana, revelando que, por mais que algumas canções causem mais impacto do que outras – “Mick Slow” parece o quanto ou nada perdida no meio do disco – todas trabalham em prol de um bem como. Isto revela a complexidade da mente colorida de Joseph Mount que sabe remisturar e mexer as coisas ao ponto de não as alterar totalmente; a electrónica predomina, é um facto, mas não em demasia nem em exagero, está presente quanto baste.

Se fundir electrónicas com groove e soul sempre foi o mote dos Metronomy, é em Summer 08 que elevam esta combinação ao próximo nível, produzindo um disco que certamente será o fiel companheiro de muitos para este caloroso Verão. Lançado em 2011, The English Riviera foi o canto do cisne da banda e, provavelmente, um dos melhores discos da década, mas compará-lo com este novo, em termos de qualidade, seria uma tremenda injustiça visto que, mesmo com músicas funky em ambos, o suficiente para despertar um ou outro pézinho de dança, até para quem se auto classifique como “pé-de-chumbo”, ambos seguem trajectórias tão diferentes que a única coisa que os une é mesmo o resultado final de alegrar quem o ouve. Os Metronomy têm crescido imenso ao longo dos anos e este novo disco vem provar que são dos artistas mais versáteis que para aí andam, como de uma serpente (de peluche porque eles são fofinhos) a mudar de pele se tratassem, reinventando-se de álbum para álbum mas sem nunca perder o seu rumo. Valar morghulis? Não, valar dançaeris!