Imaginem entrar num filme sobre aqueles dias soalheiros e de moleza de verão com os amigos e uma câmara analógica. Está encontrado o imaginário preciso para a apresentação no Auditório de Espinho de Slow, o mais recente disco dos Minta & The Brook Trout. Casa meia composta e um arranque lento e seguro do concerto. A abrir, “Sand” e “Light Blue Blues”. Desde cedo se percebe o imaginário que envolve a banda: o cancioneiro blues americano com uma calma que se tornará a característica principal da noite.

Seja num espírito mais alegre, seja mais introspetivo, Slow é lento e, sobretudo, minimal. Uma reflexão interior nos chega de forma despida e muito intimista nos temas seguintes: “Colin Call”, “Holy Trinity” e “In Spain”. A ligação entre as vozes é algo muito característico nos Minta: a voz de Francisca Cortesão ‘dialoga’ com a voz de Mariana Ricardo numa heterogeneidade que se veio a desenvolver desde a criação dos The Brook Trout. A sala enche-se com uma dream pop que respira folk e nos aconchega de tal maneira que quase nos sentimos em casa. Cortesão é muito comunicativa com o público, e ele corresponde. A relação com Espinho já é longa… e é para manter.

Tempo para revisitar os trabalhos passados e a começar com “Falcon”, tema de Olympia que se mostra contrastante com o registo do concerto até então. E o público acompanha essa mudança. “Blood and Bones” começa tão simples que poderíamos colocá-la numa caixinha de música e levá-la para casa. A certa altura, parece saída da banda sonora de um filme como Juno com um sintetizador melodioso que nos remete para John Grant.

Depois de uma passagem por “Future Me” e “The Right Boulevards”, os Minta voltam ao registo mais recente e desta feita com “Little Falls”, que acaba por ser a música menos lenta do álbum. Segue-se o primeiro tema composto para Slow; “Old Habits” surgiu logo depois do lançamento de Olympia e veio a dar o mote para as restantes composições. Não é só um registo musical lento mas também um processo de construção do mesmo que levou o seu tempo. Cresceu e amadureceu lentamente. O ambiente continua meditativo e o  filme de que falámos está cada vez mais presente. Principalmente com “I Can’t Handle the Summer”, o primeiro single, faixa que exclama para ‘levarmos com calma’ um certo sentimento juvenil veranil. As guitarras são tão comunicativas que parecem ser a mesma. Tão simples mas tão precisa.

Tempo para relembrar “Large Amounts” do álbum homónimo de 2009 e para apresentar os The Brook Trout. Francisca, a.k.a. Minta, faz-se acompanhar por Mariana Ricardo no baixo e voz, Tomás Sousa (You Can’t Win, Charlie Brown) na bateria a substituir Nuno Pessoa, e as novas aquisições: Bruno Pernadas na guitarra e Margarida Campelo nos teclados. A banda apresenta assim o seu álbum, pela primeira vez fora de Lisboa.

Antes de saírem, tempo para “A Semester Abroad” que fecha esta primeira viagem que foi o concerto. Seguiu-se um encore com “Bangles” que nos deixa sempre com um pequeno sorriso nos lábios e, para acabar, o pequeno hino dos Minta: “A Song To Celebrate Our Love” que celebrou não só o amor de todo este concerto, como os 100 concertos feitos pela banda desde a sua formação. O público quis mais e Francisca e Mariana, apenas as duas, trouxeram-nos uma versão muito despida de “Family”.

A pouco e pouco, os Minta & The Brook Trout vão criando o seu espaço no panorama nacional e este concerto mostrou que estamos bem entregues. Slow ficará, com certeza, como um dos melhores registos nacionais do ano. A viagem não acabou mas podemos voltar felizes para casa.

Minta & The Brook Trout @ Auditório de Espinho