Mira, un Lobo! - Heart Beats Slow
86%Overall Score

No meio de tanta aplicação enfadonha que invadiu o Facebook, existe uma que consiste num questionário que dirá qual o nosso spiritual animal. Se Luís Sousa fê-lo ou não ninguém sabe, aquilo que sabemos é que o resultado seria um lobo. Mira, un Lobo! é o projecto a solo do português, projecto este que dá a saborear um copo de chillwave, um de dreamwave e outro de darkwave. O baloiçar de tanta onda deu origem ao seu primeiro longa-duração Heart Beats Slow, um disco que merece ser ouvido, apreciado e estimado.

Durante cerca de quarenta minutos, Luís Sousa é Neptuno, o rei dos mares, senhor dos oceanos. As suas ondas dão fruto a uma electrónica que se afasta da típica ‘vibrar dos corpos’ e atira-se de cabeça ao ‘vibrar da alma’. Este Heart Beats Slow mexe com o ouvinte de formas que, pessoalmente, nunca tinha experienciado; é assombroso o quão vidrado alguém pode ficar em dez músicas, ao ponto de ouvir um CD vezes e vezes sem conta. Por norma, é comum ler-se o “estou sempre a ouvir isto, desde que acordo até me deitar” numa conotação falsa, exagerada, mas que não é no caso com Mira, un Lobo!: sempre que dedico o meu tempo ao disco encontro algo de novo que me escapou ao início, quer seja uma batida ou uma mensagem. Merece ser visto e revisto vezes sem conta.

Heart Beats Slow tem a peculiaridade de funcionar como um todo. Desde “Tramadol” até “Introduction”, cada canção tem um propósito, um cargo a cumprir de modo a que o barco de Neptuno navegue a toda a velocidade. E quando zarpa, ninguém o agarra. Se “Tramadol” é a despedida para os que ficam em terra, “Newborn Killers” e “Serotonin” é o activar dos motores, o fogo que vai para a lareira, o full speed ahead; há que aquecer os espíritos através de melodias suaves e frescas.

Corpo e espírito aquecidos, dá-se a entrada em alto mar ao som de “Suffocation”, “Like Punching Glass” e “Spaceman”. Este trio é quase como garantido que irá causar pele de galinha, ou como diria o eterno Freddie “shivers down my spine“. O deus Luís ‘Neptuno’ Sousa proporcionou bom tempo, céu limpo e com sol, mas é pena não existir ninguém para o aproveitar, pois as do barco, entraram num estado de transe, o ‘vibrar de almas’. Embora “transe” seja a palavra que reina em Heart Beats Slow, são nas três canções acima mencionadas que melhor se verificam: metade das mesmas é como se de um clímax se tratasse, com a característica de não ter fim. Se o melhor é guardado para último, Luís Sousa deixa desde cedo que o aproveitem, havendo beldade e profundidade que reminiscentes de uma “Hoppipolla” dos Sigur Rós.

Tal como o fatídico navio que afundou no Atlântico em 1912, Heart Beats Slow segue a rota do Titanic e mergulha nas profundezas do oceano. Tal como no colosso dos mares, a música ouve-se mesmo após os instantes finais: enquanto que os feitos dos músicos do Titanic permaneceram para sempre na história, “Heart Beats Slow” e “Introduction” garantem o mesmo para o disco. O afundar deste não deve ser visto como uma catástrofe ou um acidente, mas sim como a reunião entre Neptuno e a sua cria, como um álbum que acaba em glória.

O disco de estreia de Mira, un Lobo! aborda os temas da crise financeira que Portugal atravessa, mas a genialidade por detrás desta electrónica permite ao ouvinte atribuir os seus próprios significados àquilo que Luís Sousa nos quer pregar. Não há nada melhor do que associar o momento X à música Y, e em Heart Beats Slow, há dez elegantes canções para tal. Isto, meus senhores, é arte. Isto, minhas senhoras, é do melhor que se faz no nosso país.