Mira, un Lobo! é o one-man project de Luís Sousa. Com um estilo único que vai buscar o melhor do chillwave e do dreamwave, esta nova promessa da música portuguesa está pronta para deixar marca e encantar todos aqueles que ouçam aquilo que tem para mostrar. O álbum de estreia, Hearts Beats Slow, foi lançado na passada sexta-feira e há todo um mundo para ser explorado, sendo “Tramadol” o primeiro single a ser dado a conhecer e um ponto de partida para uma viagem marcante.

O coração de Luís de Sousa pode bombear devagar, mas a sua música não: basta uma audição para causar impacto, para nos deixar sedentos por mais. É de louvar a forma como um mero estreante nestas andanças da música conseguiu cozinhar algo tão saboroso logo na sua primeira tentativa, sendo até surpreendente ao saber-se que foi tudo praticamente feito sozinho; composto, escrito e gravado em sua casa, sem qualquer tipo de horários ou prazos, Luís transformou um diário musical num disco. Depois de concluído o processo criativo do mesmo, houve a ajuda de terceiros – Ricardo Fialho, Carlos Costa e Eli Fernandes – para “limar algumas arestas”, sempre com a presença do senhor Mira, un Lobo! nos bastidores a dar orientações.

Devido ao seu nítido envolvimento pessoal, estamos perante um disco com um elevado cariz íntimo e temos a oportunidade de observar a visão única de um ser humano que está disposto a partilhar as cores com que pinta as suas telas. O quadro principal? Uma crise existencial causada pelos problemas económicos do nosso país. O desenho final? A esperança de um futuro melhor, que está ao nosso alcance caso se mantenha a calma. A tinta? Todo um conjunto de sons emblemáticos e electrizantes, capazes de prender e absorver. Se Luís de Sousa é um lobo, então a sua música é uma selva afrodisíaca, em que cada animal e planta representa uma nota musical distinta. E tal como a fauna desta ambiente é rica, a música de Mira, un Lobo! também o é. Se M83 e Sigur Rós tivessem um encontro amoroso, esta seria a banda sonora.

A imagem de um Portugal afectado pela crise é exposto no primeiro single, “Tramadol”. Um tramadol é um fantoche em formato de meia, possuindo uma imagem querida e adorável mas que, lentamente, possuem a pessoa cuja mão os acolheu, alterando por completo a sua mente (ideia esta retratada no filme O Castor com Mel Gibson). O tramadol torna-se então numa metáfora para com o cenário negro que Portugal se encontra, quando um indivíduo é lobotomizado pelas mil e uma notícias desencorajadoras emitidas pelos media e ganha uma obsessão por objectos ou momentos que o lembrem dos tempos pré-crise. No final do vídeo, o destino do tramadol é um saco do lixo; haverá um futuro melhor, basta deixar de viver no passado e conquistá-lo.

Para ouvir aqui, o primeiro indício de um dos prováveis grandes álbuns portugueses deste ano: