A palavra de ordem na passada sexta na intimista Caixa Económica Operária foi extravagância. Quer da maneira mais soturna e obscura dos primórdios do projecto a solo de Hante., ex-Minuit Machine, ou na presença hiper singular de Momus, um dos indivíduos mais à margem no mundo das artes (que deu um dos concertos mais à margem que já vimos), esta dita noite na Graça viu-se arrojada e colorida. Roçando entre o halloweenesco e o carnavalesco, a muito variada (e destacada) fauna da CEO teve direito a um baile gótico e um espectáculo burlesco como raramente se consegue encontrar nos espectáculos musicais de Lisboa. Uma noite que foi ganha pelo premeio da diferença e pela singularidade das escolhas feitas para a sua programação, provando como é bom dar a conhecer outros mundos e desafiar tendências.

Sobre um palco agraciado com umas belas cortinas vermelhas que, por entre a madeira, fazem a sala trazer-nos até às paisagens oníricas de Twin Peaks, inaugura a noite, Hante. Já pela terceira vez em Portugal (uma em férias, como nos contou antes do concerto) e duas em trabalho neste mesmo espaço, esta é a primeira vez que Hélène de Thoury se apresenta a solo em Lisboa, data que precede, por um dia, a sua estreia absoluta no norte do país, no Porto.  A jovem francesa já tem um percurso notável, quer em projectos colectivos, quer na produção e trabalho de estúdio, e aterra nesta Caixa Económica já com dois discos a solo editados. As comparações com Twins Peaks feitas ao espaço podem também transitar para este projecto, que seguindo as pisadas do synthwave dos anos 80 e o furor gótico, também se faz de intenso mistério, clausura e frequências espectrais.

Em iguais medidas romântico e sonhador, como gótico e obscuro, o som de Hante. vem encaixar numa crescente cena coldwave liderada por grupos como Cold Cave, Algiers, ou The Soft Moon, mas onde alguns destes grupos prezam a paranóia e a perfuração imperdoável da batida pós punk, de Thoury é toda de melodias e nostalgia. Nostalgia não só lírica mas na própria sonoridade tão adequadamente 80’s que produz. Sozinha com o sintetizador e um sequenciador, foi pintando as agrestes e quadradas batidas com as suas calorosas ondas de melodia que de uma maneira sempre soturna e magnificamente triste, sempre conseguiram instaurar uma espécie de bailado deprimido.

Igualmente gingona e teatral, de longa peruca loira na cabeça, Hante. permitiu-nos também ver a sensualidade imbutida neste seu projecto. Por vários momentos a cantora, de firme e densa voz, abandonou os seus synths para se colocar na frente do palco, cantando e dançando sobre os seus beats e sequências num balanço corporal de hipnotismo e sonho, distraindo a audiência por várias vezes de um muito curioso trabalho de projecção cheio de belas imagens a preto e branco. Entre o nevoeiro das máquinas, de Thoury foi também alternando entre o inglês e o seu nativo francês: sobre este aspecto é importante referir o quão bem a língua da Liberdade fica nas rosas espigadas do vocabulário gótico, tão bem e envolvente que se sugeriria até à própria artista que a utilizasse mais frequentemente nas suas composições.

Hante. chega ao fim do seu set com um tímido sorriso e um ar de satisfação; a casa recebeu-a de bons braços e dançou ao som groove infeccioso. Para além disso, Lisboa descobriu também uma jovem artista confiante e aguerrida, que está a fazer a sua cena. Com uma presença forte e aliciante e um espólio musical colorido e marginal, Hante. tem um caminho para percorrer cuja especificidade do género musical a colocam numa estrutura sustentavelmente fora do mainstream e, de certa forma (embora não haja correlação), afastada das ondas encontradas em Portugal. Contudo, sempre que haja uma concessão, fazer uma visita a esta francesa será sempre uma boa ideia.

E se Hante. em si já se encontra num ambiente muito específico, a pessoa que se seguiria não permite saber se sequer existe um nicho ou buraco onde meter Momus. A nossa aposta é que talvez não haja nenhum. Absolutamente diferente numa miríade de aspectos, Nick Currie é um escocês que se tornou músico independente enquanto não realizava a sua primeira ambição de ser escritor. Actualmente é ambos, já exerceu escrita jornalística, análise social e artística e é, inclusivé e ocasionalmente, art-performer. É assíduo na actividade do blogging e gosta de viajar. A pala que utiliza no olho deve-se a uma infecção ocular que contraiu na Grécia, mas não há dúvida que contribui ainda mais para a sua vincada singularidade.

Actualmente a residir no Japão, Currie encontra-se agora numa tour europeia que decidiu fazer por interrail. Parando em Portugal para dois concertos, Momus (nome emprestado da figura historicamente vista alternativamente como o “Bobo” ou o Deus da brincadeira e da troça) é um autêntico caso de pantominice levada ao extremo. Vestido com uns calções de basket azul bebé uma espécie de alpargatas brancas, o cantor e compositor de 56 anos trouxe consigo para o palco apenas um microfone e um portátil para mostrar os visuais. Quando a música começa a dar nos PA’s, começa também um espectáculo densamente provocador.

Durante cerca de uma hora e meia, o músico procedeu a cantar por cima dos seus instrumentais que se seguiam uns aos outros sem pausa, acompanhando o seguimento sincronizado com os vídeos ilustrativos que se projectavam atrás. O próprio Momus deu o concerto maioritariamente no lado esquerdo do palco para que toda a gente os pudesse ver mas, na verdade o que essa artimanha fez foi antes desviar todos os olhares da parte central do palco. A excentricidade da figura tornou impossível que não se quisesse ver o que este homem iria fazer a seguir. Por vezes passando endiabrado, Momus esperneou-se, saltou, pulou, fez caretas, danças e flexões num espectáculo que pareceu mais um espectáculo burlesco e à boa moda dos bobos medievais.

Autenticamente um espectáculo de variedades, só faltaram truques de magia e dançarinas acompanhantes. O mote para o concerto foi o de apresentar as canções mais recente disco Glyptothek, cujo nome foi tirado de um museu em Munique dedicado exclusivamente à mostra de estátuas da Grécia Antiga. Para além dessas novidades, houve ainda tempo de rever quase trinta anos e dezenas de álbuns, cada um mais diferente do outro e de onde residem as diferentes fases e interesses do autor, desde o seu primordial folk acústico até aos seus devaneios synthpop em competição com as melhores malhas dos Pet Shop Boys. Atrás, um conjunto de grafismos absolutamente absurdos reunidos pelo músico que só ajudaram a ilustrar e a pintar melhor o clima das suas canções sobre taras sexuais, a religião, a morte e correntes filosóficas mais obscuras.

Dançando e cantando ao longo de canções inventivamente provocadoras como “The Homosexual”, “I Want You But I Don’t Need You” e a batida idiossincrática da mais recente “The Art Creep”, Momus entreteve uma plateia fogosa que cantava e dançava ao som do seu carisma e vontade de explorar as fronteiras do aceitável e espectável. Longe de ser um concerto musical convencional de alguma forma, o modus operandi serviu precisamente para desafiar a seriedade e questionar princípios. Aqui não houve banda de apoio, não houve instrumentos nem a imprevisibilidade de um concerto de rock. O facto do disco ter de continuar a tocar não permitiu que Momus pudesse parar de tocar para conhecer a plateia, mas isso não quer dizer que esta presença não tenha ficado nossa amiga e que não houvesse sing along (efectivamente encontravam-se fãs fieis no concerto).

O que houve, contudo, foi muita cantoria, arrojo e teatro. O espectáculo de Currie foi inventivo e intelectualmente desafiante, nem que seja pela densidade do seu lirismo muito prosaico, mas também pelo seu conteúdo, sempre com um alvo e muito atento ao que o rodeia. À medida que ia blasfemando às vezes mais criticamente outras mais de forma mais jocosa, viu-se uma efervescente vontade de ser diferente e sê-lo deveras, com sucesso e notabilidade. Com a sua dramatização, Momus, como o titular bobo, captou e chamou à atenção com o seu charme ridicularizante, fazendo uma brincadeira do conceito de transgressão, cujo balanço domina fortemente. À mente, vem aquilo que os agora defuntos The Knife fizeram (embora com um palco e mediatismo, que ainda específico, foi muito maior do que Momus algum dia poderia imaginar atingir) com a sua tour do Shaking The Habitual: um abanão forte e uma tentativa incisiva de injectar uma muito necessária vitalidade à arte no geral com um desafio que, em certas medidas, é inspirador tanto pela lata de o fazer como pela inventividade desta persona.

A criação de um mundo paralelo, a distorção dos traços e a estetização de uma pessoa para uma pseudo-personagem são coisas que têm acontecido desde (e antes de) Bowie (tão importante para Currie como inspiração) até Mac DeMarco, e o que Momus faz é pegar nessa ficção e colocar-nos a vivenciá-la de uma forma que raramente se vê. No topo disso, em nenhum momento se deixa tornar numa paródia ou se envolve em corriqueirice. A terminar com a letra espigadíssima de “I Was A Maoist Intellectual”, despede-se com uma vénia bastante cerimonial e com um ensinamento: Momus não é só um projecto obscuro que vale a pena apanhar só pela diversão da coisa. É também um exercício de arte, visão e coragem, e um muito vital desafio para os pregadores da postura e da realidade através do absurdo e a ficção. Não é à toa que era o Parvo aquele que dizia as maiores verdades.

As fotografias de Luís Custódio para uma noite única:

Hante. @ Caixa Económica Operária

Momus @ Caixa Económica Operária