Apesar do protagonismo que o histórico Lloyd Cole assumiu na última quinta-feira em Lisboa, os Mondo Generator são demasiado bons e relevantes para que a Tracker não reportasse o concerto dos norte-americanos no Stairway Club, promotor de uma agenda credível e eclética em Cascais que naquela noite incluiu os portugueses também stoners Her Name Was Fire e Miss Lava, que tocaram com o clube já cheio, o que provou a sua relevância e a pertinência do espectáculo. Ora, falar dos Mondo Generator é recordar quem é Nick Oliveri, baixista e vocalista e um dos ‘cromos’ mais icónicos do rock n’roll, com o estatuto de fundador dos Queens Of The Stone Age (QOTSA) – com os quais gravou os memoráveis Rated R e Songs For The Deaf -, e de membro dos Kyuss, também com os quais criou há 25 anos a malha “Mondo Generator”.

Marcado por um passado polémico que inclui actos de violência doméstica, incompatíveis que são com o mediatismo crescente dos QOTSA – que o excluíram em 2004 apesar de ser membro fundador como o amigo Josh Homme -, Oliveri tem dado prioridade aos Mondo Generator, banda mais pesada que formou em 1997 também com Homme e na qual já participaram, entre outros, Brant Bjork (dos Kyuss), Troy Van Leeuwen (que o substituiu nos QOTSA vindo dos A Perfect Circle) e Dave Catchings (dos Eagles Of Death Metal, que haviam tocado em Lisboa poucos dias antes). Após quatro álbuns e cinco EPs, e um tratamento de gestão de fúria…, os Mondo Generator celebram os 25 anos do tema “Mondo Generator” numa digressão que durará até à celebração dos 20 anos da banda, já em 2017, quando será lançado um Best Of com contributos também dos amigos Dave Grohl e Mark Lanegan.

Malhar com sorrisos

Na passada quinta-feira, Nick Oliveri liderou os Mondo Generator em formato power trio com o baterista Jeff Bowman e o guitarrista Mike Pygmie numa actuação perante uma casa cheia de fãs da banda e do stoner punk, e melómanos que não esquecem a obra e o carisma do próprio Nick Oliveri cuja raiva os QOTSA nunca recuperaram totalmente após a sua saída. E os Mondo Generator bateram como o público queria! Enquanto ligavam os instrumentos e faziam o último ensaio de som, Oliveri já se mostrava conversador e bem disposto (por motivos que revelou mais tarde), mas apresentados o guitarrista e o baterista à plateia logo no instrumental “Molten Universe” dos Kyuss com o qual abriram o concerto, expeliram todo o poder que têm para êxtase de um público ansioso por se (pacificamente) amotinar.

Depois, ignorando o som pouco nítido que dificultou a percepção das letras rudes berradas por Nick Oliveri, todo o concerto foi demolidor. Se a versão de “13th Floor” que abre o álbum Cocaine Rodeo de 2000 já era mais pesada que a gravada nos QOTSA, o que os Mondo Generator martelaram a alta velocidade no Stairway foi literalmente a música das ganas do líder, felizmente sem obrigação de a controlar. Um stoner rock com tanto punk hardcore! E como se não bastasse, foi ainda dramatizado pelas esbugalhadas caretas de Nick que instigaram ainda mais o jovem público a iniciar muito cedo um motim na plateia, merecendo que o trio interrompesse a canção por uns segundos só para que banda e público se ovacionarem mutuamente. E foi um Oliveri muito contente que anunciou a irónica (e irada) “Love Has Passed Me By” dos Kyuss, um bónus precoce que alguém do público lhe retribuiu com um shot de whisky (prontamente bebido e agradecido), antes de trocar de baixo e apresentar “The Last Train”, faixa gravada com Josh Homme para o álbum Hell Comes To Your Heart de 2012 e gravado nos estúdios Pink Duck do próprio Homme.

A prensa não abrandava nem aligeirava com picos de intensidade punk mais trashy que stoner, caso de “All Systems Go”, a malha mais tresmalhada do concerto. Foi coerente, por isso, Oliveri ter apresentado (em inglês)  como “dedicado às forças policiais em todo o mundo” o rude punk “F. Y. I’m Free” de onde transitaram para “Gonna Leave You” que Nick cantava nos QOTSA, muito aplaudida por uma plateia eufórica por desfrutar interpretações já de três das suas bandas favoritas. O público parecia entreter também Oliveri que, continuando espirituoso, detalhou que “Invisible Like The Sky” é do disco Hell Comes To Your Heart, sobre o qual gracejou “Se não o têm, conheçam-no. Comprem um, roubem um, mas conheçam-no!”, outra malha acelerada que foi, afinal, um aquecimento para a desvairada “Stuck In The Void”, sempre com Nick em demoníacas caretas suficientes para uma galeria de retratos.

Entre canções, Olivery saudou a plateia com um “Fuck yeah, people! You kick so much ass we love you!”, iniciando um engraçado diálogo no qual respondeu quase rindo a uma ‘boca’ sobre cocaína com a piada “Não bebo Coca-cola em palco, mas aceito tequila!” que soltou ainda mais as línguas na plateia, ao ponto de o próprio ter que dizer que não podia falar demais porque estavam ali para tocar. Foi naquela boa disposição que anunciou “Shawnette Jackson” de Cocaine Rodeo, “o nosso primeiro álbum destes 20 anos”, como um tema “sobre apreciação”. E nem o hardcore daquele clássico dos Generator tirou a vontade de fazer piadas ao público, a quem Oliveri perguntou “You guys like to party?” Voltou a apresentar o guitarrista Mike e o baterista Jeff e, “da minha desert band favorita, que eram os melhores”, o clássico “Green Machine” dos Kyuss que introduziu com o raivoso berro “So fucking move around and fuck shit up! Come on, fucking do it! Let’s go, mother fuckers! Let’s get fucked up! Come on, do it!” que carismaticamente devolveu o motim à plateia para acompanhar aquele desvario musical.

Mondo Generator

Mondo Generator por Jorge Gambóias

Fera pacificada ou só alegre?

Entre tanto rock n’roll esmagador, foi surpreendente ver um Nick Oliveri tão bem disposto e conversador, que liderou ainda melhor o público – a quem voltou a agradecer -, além da própria banda. Perguntou “Querem ouvir uma mais velha ou algo mais recente? Temos “Allen’s Wrench” ou “Ode To Clarissa” e vamos tocar ambas de qualquer forma, mas qual querem ouvir já?”. E quando alguém gritou “Allen’s Wrench!”, desculpou-se com “Culpem aquele matulão! Se não gostarem, batam-lhe.” Substituiu o sorriso pelas caretas iradas para malharem ainda mais aquele hino stoner dos Kyuss, deixando a de QOTSA para lhe seguir. Duas bandas de referência e enorme carisma em palco; é essa a relevância do temperamental Nick Oliveri que, bem disposto, conseguia alegrar com afecto toda a fúria do alinhamento de canções.

Antes de “Ode To Clarissa”, Oliveri ainda contou que estiveram na praia e nadaram no Atlântico, o que foi “a fucking great thing!”, justificando que a praia estava limpa, ao contrário de “Venice Beach, cheia de agulhas e cigarros e latas de cerveja”. Estava explicado porque chegou Nick tão bem disposto ao ponto de parecer uma pessoa renovada. O cúmulo foi mesmo a empatia que revelou à “pretty girl” fotógrafa na fila da frente, a quem avisou “100 hundred guys to one girl, trouble…” Tanto sentimentalismo levou a um tributo: após perguntar “Querem ouvir uma canção dos Ramones?”, confessou que foi com Dee Dee Ramone que aprendeu a tocar baixo e guitarra, gracejando “É por isso que não sou muito bom…” – e concluiu gritando “os Ramones e os Motörhead são as melhores bandas do mundo”, aos quais dedicou a interpretação de “Mental Hell” dos primeiros. Mas Oliveri ainda é Oliveri, berrando subitamente “Fuck you! We’re a punk band from the desert, so stop being a pussy bitch, and do it!” para introduzir o clássico dos Ramones cujo refrão o público mostrou saber de cor cantando com eles. Sem parar, o último tributo foi  “I Never Sleep” dos River City Rapists que acelerou aquela deriva punk-rock e semeou mais alguns mosh’s.

O final sentiu-se quando, já após uma hora de concerto e ainda sob os aplausos às versões punk, o regresso às canções originais foi anunciado com “Dead Silence” de Hell Comes To Your Heart que permitiu ao trio um repouso activo, apesar de gritada também pelos fãs na plateia. Como última malha, Oliveri apresentou “You Think I Ain’t Worth A Dollar, But I Feel Like a Millionaire” dos QOTSA, junto com um francamente satisfeito “Obrigado, malta! A sério. Poucas vezes temos um público assim, é um facto. Muito obrigado por ‘desbundarem’ tanto! Portugal é bestial, amamo-vos e havemos de voltar! Estamos mesmo felizes. Por favor, partam isto tudo!” Mas como poderia ser o final, após terem incendiado ainda mais a plateia com uma canção que foi pedida desde o início e nem sequer é dos Mondo Generator?! Com o público gritando como louco e possuído, voltaram ao palco onde Oliveri exclamou mais um “Muito obrigado!”, e desafiou perguntando se estavam prontos, dando o mote para a apresentação de “Simple Exploding Man”.

E aquele ortodoxo stoner rock cheio de doom deveria ter sido a última malha; só que após quatro crowd surfs naquela canção, foi preciso algo mais para satisfazer um público extasiado que não parava de gritar e aplaudir. Nick exclamou “Badass! Thank you so much! Kick ass, let’s do it together!” e atirou-se ele próprio para os braços dos fãs, sobre os quais tocou deitado uma desvairada jam session com Mike e Jeff. Oliveri voltou ao palco só mesmo para acabar de tocar e exultar “You guys are fucking great, thanks so much! Fuck yeah, let’s drink together!”. Foi evidente que Cascais fez bem a Nick Oliveri e que os Mondo Generator triunfaram no Stairway interpretando malhas de cinco bandas! Que voltem rápido para que mais pessoas desfrutem da relevância de Oliveri nas últimas três décadas de rock n’roll. Ele pareceu merecer!