Até pode parecer estranho dizer que os Chick Quest têm berço na imperial Viena de Áustria, mas a verdade é que o vocalista Ryan White, um expat norte-americano, teve a iniciativa de juntar um grupo e criar algo que não se ouve todos os dias na terra dos Alpes e o resultado é uma mistura de post-punk com uma boa dose de banda sonora dos clássicos spaghetti western dos anos 60, com uma ambiência absolutamente dançável. Aqueles que poderiam muito bem ser sobreviventes e reminiscentes do Velho Oeste, lançam agora o seu segundo álbum que se chamará Model View Controller e leva selo da Triangular Sounds.

Em 2014, White convenceu a sua amiga Iris Rauh a aprender a tocar bateria e a juntar-se a ele num projecto, que na altura ainda dava pelo nome Lee Van Cleef (actor de famosos westerns, como O Bom, o Mau e o Vilão que todos conhecemos, pelo menos de nome). É com mais de metade das músicas do longa-duração de estreia escritas que ambos convidam Magdalena Kraev para o sagrado e impetuoso baixo dos temas e para o instrumento que de forma clara se torna o ex libris da banda – o trompete – foi chamado Marcus Racz, missão a que junta o comando das teclas.

Aquando do lançamento do disco de estreia, Vs. Galore em 2015, a banda decide mudar de nome e assim nascem os Chick Quest, um jogo de palavras com a expressão a girl on a quest, ao invés de guys on a quest for girls. O brilhante álbum de estreia, apesar de não ter visto o reconhecimento devido, reúne qualidades incríveis das mais diversas pegadas da música. Uma bateria simples mas explosiva embebida num elixir post-punk, uma guitarra ora severa e sombria – como na ciumenta faixa “I’m Tired of Pretty Girls” -, ora calorosa e gaudiosa como em “Monkey No Dance For No One”. E por fim, o trompete roubado às pautas de Ennio Morricone, o único instrumento a quem é permitido solar – e que maravilhoso solo em “Schatzi” -, dá uma pitada de western spaghetti ao LP. Afirmar que Model View Controller poderia bem ser usado como banda sonora para um filme de Quentin Tarantino não choca ninguém de certeza.

Para o novo longa duração, os Chick Quest mergulharam num oceano mais negro, manifestando pouco interesse em grandes hinos, solos de guitarra ou canções de amor. A poeira do asfalto western mantém-se, ainda que de maneira menos evidente, e dá lugar a uma maior complexidade de arranjos e texturas, com as suas características repetições melódicas. No primeiro single lançado, “Savant Grade”, destacam-se um baixo ditatorial e uma batida redundante que acabam por servir de alicerce para um trompete glorioso que serve a voz de White que, bramosa, prefere não pensar em nada:

How many major chords? Don’t need to think about it
Rows in my database? Don’t need to think about it
What’s in a masterpiece? Don’t need to think about it
I’ll square the circle! Don’t need to think about it.

 

Ao som da hipnotizante e alucinante “Down In A Crypt”, é retratada a vida do vocalista, numa altura em que vivia em Belgrado. O videoclip apresenta-nos momentos íntimos e festivos na cidade Sérvia, e tanto este como a letra transmitem uma sensação de desorientação, aventura e boémia:

Down in a crypt my life depicts
All the gloom and macabre in a Karloff flick.

 

O terceiro single do quarteto foi o último tema do disco a ser escrito e reza a lenda que viu a luz do dia em apenas 1h. A lírica non-sense de White une-se a uma parte instrumental que se esvai almas a fora livremente. “Afterlife”, quarto tema a ser revelado para Model View Controller, que é, juntamente com “Down In A Crypt”, provavelmente a menos western do álbum, não deixa de ser um garage rock intenso com uma incrível prestação de White tanto na letra como na voz, que rappa ironicamente sobre a melodia agressiva e um tanto alienígena.

Model View Controller são 40 minutos de profundidade num oceano que não se consegue conhecer todo de um só mergulho. E esperemos mergulhar muitas mais vezes neste oceano post-punk tingido de spaghetti. Curiosos? Segue em baixo o disco.