Não é um homem. É algo maior e melhor que um homem. E finalmente, Lisboa teve-o só para si. Talvez uma hora e meia não tenha saciado tantos anos de espera. Mas soube pela vida.

“Seremos dos únicos que, abaixo, não falaremos do suposto cancro d’O Homem. Aproveitem!” Poderia ser uma frase à Morrissey. Não é. É muito nossa. E é sinal que o concerto do passado dia 6 de Outubro nos inspirou!

Pouco passava das 19h e já longa ia a fila nas Portas de Santo Antão, ora para cima, visível da Avenida, ora para baixo, quase em frente à Casa do Alentejo. Esperava-se a abertura das portas para aquela correria aos lugares da frente que caracteriza os concertos mais ansiados (ou fãs mais ansiosos?). Houve um tempo em que era assim. Mais ou menos o tempo em que Lisboa à noite era feita destas caras que ali estavam. Aquela Lisboa que já não volta. Só hoje. Teenagers outra vez. Não há como fazer deste “um concerto qualquer”. Para além dos sósias, alguns ainda com os óculos de massa dos early days, outros com menos cabelo para fazer a poupa, uns quilos a mais (como O Homem), também há olhares displicentes, daqueles que talvez tenham descoberto os The Smiths ou o Morrissey tardiamente, o que porém nunca pode ser feito com poucas ganas de tentar recuperar o tempo perdido. Há, inegavelmente, lá pelo meio da primeira chuva que cai, nostalgia. E longa foi a espera por esta noite. Seja!

Às 21h, hora anunciada para o início do espectáculo, o Coliseu estava cheio de gente dada à pontualidade britânica, eixo horário de Manchester, claro. Que se depararam com algo que, infelizmente, já não é habitual. As projecções no ecrã durante os 30 minutos que antecedem a entrada em palco fazem também parte do espectáculo e não da promotora, como nos (mal) habituaram nos últimos anos. É uma bela forma de oferecer ao público que ainda não tenha lido a autobiografia um pouco do universo d’O Homem, da música, literatura, cinema e até TV que o influenciaram desde a infância àquilo que espelha o que defende de forma tão contundente (e para a qual a psicologia moderna certamente terá uma definição). A saber (será importante para quem quer saber um pouco mais sobre Moz), entre tantos retalhos: um vídeo do primeiro single da Nico (sem Velvet Underground) “I’m Not Sayin”; Shelagh Delaney, autora do Taste Of Honey, fala sobre a sua (e de Moz) Salford, cinzento subúrbio de Manchester; os New York Dolls of 1973, banda preferida d’O Homem, contagiam de Puro Glam Rock toda a Alemanha num programa televisivo; os mais-que-pop Sparks cantam “Never Turn Your Back On Mother Earth”; Dick Gregory, o comediante-lutador-pelos-direitos-dos-afro-americanos diz das suas; há Charles Aznavour, Brigitte Bardot, cartazes onde se lê “Iron Lady Rust In Peace” ou “Margaret Thatcher Dead LOL” (regozijam as hostes) e muitas, muitas imagens de touradas (algumas demasiado chocantes, outras ainda mais porque são filmadas em Portugal) ao som do tema “The Bulfighter Dies” (como se não a fôssemos ouvir adiante)… Abre-olhos? Seja!

Às 21h28 minutos (seriam provavelmente 21h30 nos cronógrafos mais precisos) Mr. Steven (Patrick Morrissey) entra, de calças e camisa brancas, a banda enverga t-shirts vermelhas com um enorme FUCK HARVEST em Impact Bold ou pior. Não havendo nada que indicie que Moz tenha algo contra as “colheitas” no geral, certamente terá contra a Harvest (Capitol Records), editora com quem cortou relações no passado dia 9 de Agosto. Vénia ao público, declara “Vivemos num mundo de uma violência sem precedentes” e, às 21h30 em ponto, toda a gente como que comunga ao som de “The Queen Is Dead”, presente em papel de embrulho fluorescente para quem veio aqui à espera de ouvir The Smiths. Moz continua a incutir naquelas palavras (“a sua muita Baixeza com a cabeça numa fisga, peço imensa desculpa – soa-me a algo maravilhoso”), a mesma energia de sempre… Mas o público ainda está só morninho. Faz umas quase-acrobacias com o fio do micro, estende a mão para tocar os mais impetuosos, concede um pouco de si, mas incorre no primeiro grande erro da noite. Termina com um “Gracias”. É, obviamente, vaiado. Parece não perceber. Mas sabe-se lá se não quis apenas provocar. É mesmo Morrissey que está ali, certo? Ainda não acreditamos!

Segue-se “Speedway” e as suas paragens melancólicas, “Certain People I Know”, as tais que ele “would hate to be like”, claro e, depois de ter refeito o mal com um “Obrigado”, como quem declara “sei muito bem que vocês não são espanhóis”, dá-nos “The Bullfighter Dies”, que segue a linha do “Girfriend In A Coma” ou do “Please, Please, Please, Let Me Get What I Want” no que toca a hinos-demasiado-curtos-para-o-bom-que-são. Seja!

Aos primeiros acordes de “Kiss Me A Lot” espera-se que este público, supostamente famoso pelo calor que tem e com o qual costuma contagiar as bandas em palco (desconfio que também isso seja característica de tempos idos), siga o que se tornou quase uma tradição desde o primeiro espectáculo de promoção de World Peace Is None Of Your Business, invasão de palco com gente a tentar “Kiss Him A Lot”, O Homem a dar ordens aos seguranças para não intervirem porque foi isto que ele idealizou, quer e será. Nada. Morninho ainda, este Coliseu. Não Mr. Steven, que prossegue a sua cruzada de aproximação ao público (a esta hora, já limpa as mãos às calças antes de alcançar mãos alheias), e volteia enquanto oferece “I’m Throwing My Arms Around Paris” e mais o tema que dá o nome ao último disco (palmas a dar o ritmo, aplausos à mistura, acompanhar, pelo que se supõe que a maioria já percebeu a mensagem “each time you vote you suport the process”, assim esperamos, classe política portuguesa – sim, Moz contagiou-nos de luta), a belíssima “Istambul”, a voz que ainda tem, no seu máximo potencial para cantar “Neal Cassady Drops Dead” e, depois de apresentar a banda, omitindo o seu próprio nome, é debaixo de uma claque que grita “MO-RRI-SSEY” que se ouvem os primeiros acordes de “Earth Is The Loneliest Planet”, que traz os primeiros versos entoados pelo público, ao que O Homem responde com uma entrega mais explícita. Seja!

Já vamos satisfeitos de guitarradas em distorção, secção de metais com saxo e clarinete, samples de coros femininos, flores entregues em mão mas, ainda assim, ainda a santinha vai no altar (ou o caixão da rainha ainda agora vai no adro da St. Paul’s Cathedral, para que nos possamos situar), mas ainda temos barriguinha para “Trouble Loves Me”, seguindo-se-lhe “Kick The Bride Down The Aisle”, “One Of Our Own” e ainda “I’m Not A Man”; a coisa aqueceu, repetem-se as projecções de ecrã com a família real, destaque para os middle fingers (os dois) de Isabel II e, para coroar quem mais precisa, O Homem declara “And now, because we must” para oferecer o clássico dos The Smiths “Hand In Glove”… Não que o clássico seguinte não avassale o público. Sabemos, pela mensagem que o precede, o que aí vem: “Comprem latas de spray de tinta branca e pintem em todas as publicidades da McDonald’s espalhadas por este bela cidade: SHIT, SHIT, SHIT”… Mas com tanta matança, agressão gratuita e violência explícita (sangue, muito sangue) para com animais que é projectada no ecrã durante “Meat Is Murder”, metade do Coliseu virou a cara. Morrissey não! Encara tudo aquilo de frente, ao lado da bateria, mãos atrás da cabeça. Sabe muito bem que cumpriu, com estes excertos documentais da indústria da carne, um dos grandes objectivos de sensibilização para a causa que defende. Seria curioso fazer, daqui a uns anos, uma sondagem no universo “Pessoas Que Foram Ver O Concerto do Morissey no Dia 6 de Outubro de 2014”, a fim de saber quantos deles se tornaram, desde aí , vegetarianos. “One Day Goodbye Will Be Farwell”, que se segue, não é inocente. Em linha, a banda faz a sua vénia e deixa-nos. Seja! Desde que só por uns instantes.

O encore traz os dois momentos mais emotivos da noite. “Asleep” está longe de ser o tema mais aclamado dos The Smiths. Mas até aí O Homem consegue surpreender tudo e todos. O piano surge em fade in e são poucos os que acreditam. Foi um acto inteligentíssimo, este, pensado nos fãs mais autênticos, que se sentem uns privilegiados com aquela oferta, esses que sabem que o tema é sobre suicídio, mas que teimam a celebrar a vida de cada vez que o ouvem. É belíssimo e é executado com a mestria que nos transporta para outro tempo. Nostalgia, lembram-se? Depois, surpresa maior ainda… Ninguém estava à espera que o tema mais festejado da noite fosse “The First Of The Gang To Die”, do disco You Are The Quarry. Mas é. Moz poderia nem cantá-lo, deixando-o a cargo do coro do público que enche esta belíssima sala lisboeta, agora iluminada de tudo. Não o fez. Ficou até ao fim, celebrou, tirou a camisa e ofereceu-a o público, como desde que pisa palcos. Tudo isto durou exactamente 1h30. Pouco. Mas soube pela vida. E enquanto houver Morrissey, o embirrante, presunçoso, arrogante, pedante e soberbo, O Grande, O Homem que colheu as flores Pop da revolta Punk, o Grande Responsável pela Brit Pop dos 90, a vida é algo para ser celebrado à grande. Assim seja!