Moses Sumney derrama corpo, alma e espírito de todas as cores em 'Græ'
84%Overall Score

Um bom homem sabe chorar. Um bom homem, aliás, não se contrai pelas emoções que escorrem pelo corpo e deixa-as, libertas, incorporarem forma e significado. Moses Sumney usa a vulnerabilidade como um escudo, usa a dor como armadura, e segue esta linhagem de cantautores que da voz saem ensinamentos de autoajuda, lições que visam amparar quem tem um coração constantemente a sangrar – como o dele -, e quem vive numa sociedade que faz agir de forma contrária. Moses é alguém timorato, e a carga do que sente por vezes chega a pesar uma montanha. Ao seu segundo (duplo) álbum, oferece uma perspetiva de vida mais rica e sincera: contos de uma humanidade tão grande como a de quem a escreve; figuras que entram e saem em pequenos compassos, mas que deixam marca; uma voz que relata o pior que há numa sociedade consenciente. Græ é escrito sempre na primeira pessoa, mas ainda assim Moses não nos consegue olhar de frente. Não é algo necessário, pois quando fala, fá-lo de uma maneira incomensurável e projeta todas as suas inquietações para quem o ouve. No fim, é preciso contar quem ficou e começar a curar a partir daí.

Este doloroso processo de autoaceitação veio reivindicar a realidade que outrora conhecia. Em 2017, Aromanticism, o disco de estreia, questionava a ideia do romantismo como algo normativo e permanente no ser humano. Mas antes de chegar a uma conclusão, fintava qualquer resposta aparente sobre as suas próprias idealizações: para Moses, o amor não devia ser hierarquizado pelo número de pessoas que nele fazem parte, nem pela intensidade das suas intenções – era, a seus olhos, um processo de aprendizagem, que questionava severamente qualquer descrição heteronormativa. O primeiro disco representava um novelo existencial que atormentava a mente de Moses; em contraste a música em si era plena: R&B adornado por arranjos de cordas, sopros e suaves dedilhados de guitarra. O disco era íntimo e queimava a lume brando pequenas pontas soltas.

O elemento significativo era, no entanto, o silêncio – na música, mas especialmente na sua voz. Momentos como “Don’t Bother Calling” e “Indulge Me” reinavam quando Moses se calava e o instrumental vinha à superfície. Deixava o receptor em pura tensão, à espera atentamente de que o largassem e o aliviassem deste peso que lhes pôs em cima contra a sua vontade.

Græ, na sua obra, não se segue pelo silêncio, mas sim pela falta dele – em vez de se enegrecer na tenebrosidade que há dentro si, deixa-a livre pela primeira vez. Assume forma. Ganha vida. Revolta-se. O segundo disco de Moses retrata-se pelos momentos sublimes e esteticamente tocantes que são agora substituídos por uma voluptuosa manifestação sonora: um pop progressivo que – às asas do que FKA Twigs mostrou em Magdalene – combate fronteiras, aufere terreno para se exibir a 100%. É certo que existe na sua raiva uma melancolia que parece acompanhá-lo muito antes de fazer música, mas desta vez exprime-a através de declarações mais robustas, mais certeiras e experienciadas: a constante mudança de tons e pulsações em “In Bloom” reflete tal incerteza emocional e tenta adequar-se a cada sustentabilidade que o seu interesse amoroso parece não lhe dar: “I hope you’re not another supplement”, confessa. Há um beco sem saída no final, e Moses sabe que tal realidade fará com que ponha os pés no chão. Para quem o amor sempre foi um tema complexo e moribundo, este é exprimido em diversas camadas neste disco – e também por diversas pessoas.

“Virile”, o primeiro single, já é uma declaração de amor difusa, desta vez feita a si mesmo e a tudo aquilo que representa. Moses tenta desconstruir padrões ultrapassados e pejorativos de masculinidade. Usa fogo contra fogo. No vídeo, em tronco nu, bordeja-se de um lado para o outro: entre movimentos instáveis e frenéticos, demanda o seu lugar entre pedaços de carne pendurados no tecto que, mesmo imóveis, vão contra o artista. “Cheers to the patriarchs”, Moses combate uma guerra que começou inicialmente dentro dele e que se projetou cá para fora, ditando ainda hoje uma maneira uniforme para os homens sentirem e se apresentarem.

Já “Polly” é o outro lado da moeda. Num álbum cheio de emoções fortes, Moses vai buscar a trabalhos antigos aquilo que ainda hoje funciona como uma arma carregada: a robustez nas suas nobéis intenções; ou seja, a delicadeza com que aborda as pessoas. O segundo single é uma história complicada. Moses apaixona-se por uma pessoa poliamorosa, alguém que, como ele, tem uma interpretação própria sobre o amor. Para ele seria ideal repartir-se em vários para a fazer ficar, mas tal cenário é impossível. “Am I just your Friday dick?”, lamenta. Ao contrário de “Virile”, o vídeo supera-se na sua simplicidade: tal como em “Cold War”, de Janelle Monáe, Moses está de frente com a câmara, num olhar fixo que só é interrompido quando as lágrimas começam a cair. Como Monaé, também ele domina a arte de misturar o cerebral com o carnal, o intangível com o concreto, de modo a que todas estas sensações sejam fundidas e tocadas em uníssono. Existe uma inigualável dor, mas acima de tudo, existe uma vontade enorme de sair por cima.

As emoções pulsatórias de Græ ficam a meio gás quando se chega à segunda parte do álbum. Aqui, as lamúrias presentes nas restantes oito faixas parecem homogéneas, como se partissem de um só todo. Há pouca distinção, pouco empenho. Moses parece mais cansado e deambula-se pelas histórias perdidas da sua infância em “Two Dogs”, passando ao mesmo tempo pelos exercícios de autovalorização em “Bless Me”. Contudo, a reconstrução das peças partidas alinha-se até ao final do disco e analisa a consideração subjacente do mesmo: para Moses, a mercadoria mais pesada é o espaço que ocupa e aquele que deixa livre para as pessoas que se queiram sentar a seu lado. Não há manha. Ele é um coração aberto, que se visa libertar dos nós atados por um mundo cruel, mundo este que não o deixa amar como quer ser amado, que o larga à beira da estrada como um animal ferido. Moses é forte de corpo e de estrutura, mas como pessoa é tão frágil e cândido como todos nós. Há que tratar bem dele. E da música também – visto que ele trata de nós há bastante tempo.