Esqueçam tudo o que aprenderam sobre Moses Sumney. Ou, pelo menos, esqueçam a suavidade soul, a sensualidade embalante, as guitarras dedilhadas de forma lânguida, titubeante e dreamy. Esqueçam também a substância etérea, as harpas celestiais, os pequenos embrulhos retro que por aqui e por ali se intrometiam numa pop com tanto de tudo e na qual se eleva a macieza harmónica de letras melancólicas e filigranas sonoras delicadas.

Com dois EPs editados – Mid-City Island, de 2014 e Lamentations, de 2016 -, Moses Sumney chega à sua colecção de canções em formato longa-duração que rapidamente colocou o californiano no topo da discografia colhida ao longo de 2017. Aromanticism, elevou uma pop barroca carregada de influências negras mescladas com electrónicas suaves, algum psych, toques de jazz e uma impressionável paleta de géneros a um estatuto de monumento sonoro que constitui já uma peça indissociável do conjunto de obras editadas no século XXI.

Mas 2017 vai-de longificando e Moses chega a 2018 transfigurando a sua timidez quase paralisante numa nova vertente que não vem destilada apenas em produtos artísticos vaporosos, graciosos e nostálgicos. O demónio tomou-lhe conta da alma sensível e desviou-o para um trilho onde coabitam a política, a crítica, a análise social, e a arte enquanto veículo de consciencialização e arma política.

“Rank & File”, o novo tema de Moses Sumney, não materializa apenas uma mudança na sua estética sonora – ou, pelo menos, aquela que lhe conhecíamos até agora. Junta-se, também, a um ainda crescente movimento artístico tornado cancioneiro global que a eleição de Donald Trump enquanto Presidente dos Estados Unidos ajudou a nascer.

Puppets, erect
With batteries set
They charge for a while
And fall right into rank and file

Com uma lírica bélica a dar os contornos de uma mensagem que também se faz nas electrónicas graves, nos sintetizadores marciais e nos coros militaristas que denunciam uma musicalidade mais agreste e prenunciam a perdição das almas, “Rank & File” coloca Moses Sumney num novo patamar de criatividade, menos aconchegada às roupagens orgânicas de Aromanticism, e frente a frente a uma porta que se entreabre para uma nova abordagem e uma veia mais terrena na sua construção sonora.

“Rank & File” fará parte do próximo EP Black In Deep Red 2014 , composto por três temas e que sairá para as ruas a 10 de Agosto pela Jagjaguwar.