É já hoje que Moullinex viaja até ao CCB, em Lisboa, para apresentação do single “Love Magnetic”. Entre Portugal e Munique, Luís Clara Gomes criou e produziu uma carreira internacional. Falou-nos do trabalho que sairá este ano pela sua editora, Discotexas e de muitas outras coisas entre o sonho de ter Stevie Nicks a cantar uma música sua, até ao seu isolamento total que inspirou o novo trabalho. Na apresentação no CCB, podemos contar com o single “In The Shade” que levará ao palco os Best Youth, com quem colaborou.

Como é que entraste na cena electrónica em Portugal? Na época em que começaste ainda não era um estilo de música em voga e respeitado.

Em voga não era de certeza! Havia muita gente a produzir música electrónica mas foram um bocadinho ignorados pela opinião pública e pelos media. A imprensa de música sempre ignorou.

Ainda havia algum descredito pela electrónica.

Ainda há.

Hoje em dia já vês muita música electrónica como cabeças de cartaz de festivais. Isso dá alguma esperança?

Já é mais comum, sim. Mas por outro lado,há muitos músicos que são cabeças de cartaz de festivais que acabam por ajudar ao estigma que a música electrónica é muito fácil de fazer porque, de facto, só tocam com um portátil.

Estás a falar de quem por exemplo?

David Guetta.

Essa EDM é irritante, a teu ver?

É. É muito. Porque descredibiliza toda uma cena que tem muito mais valor. Feita por pessoas que estão a trabalhar há muitos anos. No outro dia notei um fenómeno: o meu primo com 12 anos, quer ser DJ quando for grande. É a ideia de super estrela hoje em dia. Quando, para nós, era ser o guitarrista de AC/DC.

Se calhar porque figuras públicas que ele conhece também são DJs.

Sim. É como se fosse mais um lifestyle do que, propriamente, uma vocação. Mas eu não quero ser negativo acerca disto. É muito importante que haja atenção sobre a música electrónica. É preferível haver muita gente a fazer, pois no meio do lixo aparecerão mais coisas boas.

Está a crescer a crítica feita à nova EDM, principalmente as feitas para publicidade e festivais.

Exactamente. Quando falei do DJ enquanto lifestyle foi para sublinhar o fenómeno: tu vestes-te de certa maneira e cortas o cabelo de certa maneira, tal como ouves certa música para adornar esse teu lifestyle. Quando a música se torna papel de parede, não tem valor nenhum.

Editaste o teu primeiro álbum, Flora, já há algum tempo. 

Em 2012.

Quais são as diferenças que encontras agora em relação ao álbum que vai sair no final do ano?

Se cumprir calendário, sim. Depende de mim, depende da editora… Talvez vá editar na minha editora, Discotexas. O álbum passado, Flora, foi editado pela Gomma Records. O primeiro álbum não foi uma manta de retalhos mas tive um tempo infinito para o fazer. Há lá musicas que compus quatro anos antes dele sair. Muita coisa já estava pronta para o álbum. O novo trabalho é muito mais espontâneo e imediato. Muita música calminha mas vou manter muitas faixas para a pista, no entanto, será tudo muito mais orgânico, mais honesto. A parte da composição foi toda feita em quase reclusão numa casa da minha família na aldeia, onde nem sequer tinha rede de telefone. E passei uma semana como um ermita. Não contactei com um único ser humano durante essa semana.

Muito Hemingway.

Hemingway puro! A base ficou muito acústica e muito introspectiva. O resultado de eu já estar a passar alguma solidão.

A tua saída da Gomma e entrada na Discotexas, é uma quebra com a tua internacionalização?

Não. Basta ver os números da Discotexas e percebe-se que somos muito mais internacionais que portugueses. Felizmente temos seguidores em todo o lado e é bom saber que qualquer coisa que saia, nossa, tem atenção em todo o mundo. Depois de ter passado vários anos com mais pessoas a desenvolver uma editora nossa, faz sentido editar a minha música na minha editora. É uma coisa que eu sempre quis fazer.

Como a Third Man Records.

Exactamente. É um bom exemplo. Muitas vezes me perguntaram “Estás a convidar-me para a tua editora mas, tu não editas lá.”, eu não tenho justificação. Estou preso a outra.

Já fizeste remisturas para muitos artistas, a última para Royksopp & Robyn com o tema “Do It Again”. Li numa entrevista de há alguns anos que os contactos com os artistas para quem fizeste estes trabalhos aconteceram através do Myspace. Isso agora não acontece, como é que se processa hoje em dia?

Se eu começasse agora, não saberia como fazer. Na altura era muito fácil. Criámos uma editora baseada num Top Friends do Myspace. Blogs pediam-me música, faziam posts, a partir desses posts managers contactavam-nos e pediam-nos remisturas. Era super orgânico e isso já não existe. Foi criada uma nova indústria à volta das redes sociais. Antes, a distância entre artistas e público era quase nula. Era como estar a ver um concerto de uma banda onde o palco tinha zero centímetros de altura e tu podias saltar para perto dos artistas em qualquer altura. Isso era o Myspace. De repente surge o Facebook onde há um distanciamento. Ter uma página de artista é muito diferente de ter uma página pessoal. Institucionalizou-se tudo, de novo.

Esta foi uma forma da Indústria reaver o controlo perdido?

Claro. Controlo sobre algo que estava totalmente perdido, era o Wild West. Foi um bom momento para a música. A certa altura, as entidades que tinham mais poder, eram alguns blogs. Como, hoje em dia, alguns canais de Youtube como o Magestic Casual, têm contratos discográficos e funcionam como editoras. Apesar de parecer que continuam independentes, por trás há Majors a apoiar esses canais. Mas têm uma identidade que as editoras tinham há 10 anos.

Outros elementos da Discotexas são a base da tua banda ao vivo. O Bruno Cardoso (ex-Vicious Five, hoje em dia com o projecto Xinobi) e o Miguel Vilhena (projecto Savannah). Porque é que sentes a necessidade de te apresentares com uma banda ao vivo? O que achas que acrescenta ao teu espectáculo?

Um live, uma apresentação ao vivo, sozinho, não fazia sentido. Apesar do esqueleto da minha música partir sempre de elementos de electrónica, tem linhas de baixo, tem teclados, tem voz e não estaria a ser honesto se não a estivesse a tocar com outras pessoas.

É a materialização da música? A forma mais fiel do que produziste e queres passar ao público?

O facto de termos tocado muito enquanto banda influenciou muito o álbum que estou a fazer agora. E estou ansioso para as poder tocar ao vivo. Porque sei que ainda vão ficar melhores por as tocar ao vivo. É um feedback fixe. Depois de ficar cinco meses a tocar, duas vezes por fim de semana, apanhar oito voos por mês, sozinho, pensei “Se calhar era fixe partilhar isto com alguém.”

Fizeste uma parceria com os Best Youth, com quem produziste o tema “In The Shade”; fizeste uma participação no concerto deles no NOS Em Palco e eles vão fazer uma participação no teu concerto no CCB dia 27 de Junho. Como está a ser essa experiência, com uma banda que tem um tipo de som tão diferente?

Tem e não tem. Eu não conhecia os Best Youth, nem pessoalmente. Só conhecia os singles. O David Valentim disse-me directamente “Sugiro que trabalhes com os Best Youth.” E eu achei um desafio muito fixe. Curto imenso a voz da Kate (Catarina Salinas) e do tipo de composição deles que, apesar de ser música calminha e baladas bonitas, há muita sensibilidade pop que, se meteres um beat house por cima não está tão longe assim do que eu faço. O resultado surgiu saiu tão facilmente que eu até disse “Nós já devíamos ter trabalhado antes.”

Houve uma convergência artística.

Total.

Com que artistas internacionais gostarias de trabalhar?

Com o Stevie Wonder ou a Stevie Nicks. Estou a tentar que a Stevie Nicks cante uma música do meu próximo álbum. Estou no patamar dos sonhos, mas há que começar sempre no impossível.

Os concerto que deste dia 21 de Junho na Casa da Músca no Porto e o que vais dar dia 27 no CCB em Lisboa não são lançamento de álbum. Aparecem em que contexto?

Vêm no contexto do single “Love Magnetic” que é um single de pista sem pretensões a pertencer a um álbum. Tenho saudades de músicas que não têm de ter um contexto.