Criado em 2005, sempre mesclando artistas consagrados com bandas novas, o festival chegou ao formato que sempre desejou. Entre os dias 1º a 11 de Setembro, o evento fomentou a produção musical independente brasiliense por meio de extensa programação.

Empoderamento é o verbo da vez. Para felicidade geral das nações sem preconceitos e desespero dos conservadores. As manifestações sociais que visam ‘dar poder’ as minorias estão em evidência e pouco a pouco vão conquistando o lugar que já deveriam possuir na sociedade contemporânea. Conviver, respeitar e promover a diversidade é fundamental para que todos tenham igualdade de oportunidades, além de combater o preconceito e a discriminação em relação à cor, género, deficiência, orientação sexual, crença ou idade.

Pensando nisto, o último fim de semana da 17ª edição do Festival Móveis Convida, (realizado no complexo cultural Dulcina De Moraes, em Brasília/Brasil) ocorreu nos dias 9, 10 e 11 de Setembro, e em seu primeiro dia uniu-se a festa “Afete-se“, ícone do empoderamento das minorias e da diversidade. O resultado foi uma noite linda de muito glitter, música boa e gente livre, que se aceita sem julgamentos.

A noite começou com Kelton, destaque na cena indie brasiliense, que apresentou um pouco do lirismo poético presente nos seus dois EPs, Manhã (2013) e Todo Amor Do Mundo (2014) e no disco ‘Distraído Concentrado’ (2015), que contou com participação especial de Salma Jô, vocalista da banda Carne Doce na canção “Nessa Vida” e do flautista Beto Mejía, membro dos hosts da noite, os Móveis Coloniais de Acajú, em “Descalço”.

Lee Ranaldo, intimista e politizado

Sala lotada, luzes apagadas, todos ansiosos por Lee Ranaldo, que era o próximo a se apresentar no teatro, após Kelton.  O ex-guitarrista dos Sonic Youth pisava novamente no Brasil para uma mini tour realizada pela ‘Desmonta Discos‘, que passaria também por São Paulo, Curitiba, Rio e Salvador.

O músico já subiu ao palco ovacionado pelo público. Além de cantar e compor, Ranaldo também é fotógrafo, artista visual e escritor (inclusive lançou nessa tour seu livro de fotografias, ‘Lee Ranaldo – Largo da Batata’, feito em parceria com o designer Acauã Novais, que o registou junto com sua banda, The Dust, na última passagem por São Paulo há um ano, no festival MCI.

O formato era acústico, sem banda, somente voz e violão, o que acabou evidenciando Ranaldo como cantor e intérprete. Guitarrista inovador, há trinta anos faz história no rock experimental. Foram vários discos com o Sonic Youth e mais de dez álbuns a solo e com o The Dust. Um mito vivo.

A apresentação teve músicas dos discos mais recentes de sua carreira, Last Night On Earth (2013) e Between The Times & The Tides (2012), além de novos sons, que estarão no disco Electric Trim, que já foi finalizado e conta com participações especialíssimas de  Nels Cline, Sharon Van Etten, Kid Millions, além de sua banda, The Dust, claro.

O experimentalismo foi o nome da gig. O músico intercalava diferentes violões com timbres muito distintos e efeitos marcantes. O ponto alto veio quando um dos violões ficou reverberando o som que ele fez usando um arco de violino. Nem vou comentar o quanto todos nós ficamos alucinados.

Informado sobre o golpe político que o Brasil enfrenta, Ranaldo fez questão de parar o show e falar sobre o assunto:

Eu sei o que vocês estão passando politicamente com esse presidente. Nos EUA estamos num caminho truculento também. Eu e um amigo compomos uma canção, um hino da revolução, caso Donald Trump seja eleito“.

E começou a tocar “Thrown Over The Wall”, que logo se uniu a gritos de “Fora Temer“, com direito a coro ensaiado do público. Falando do público, um ponto negativo do show veio justamente de parte deles, que não paravam quietos, atrapalhando os outros espectadores. Dica para a produção do evento: Fechar as portas do teatro quando se iniciar o espetáculo para não ter burburinho de entra e sai o tempo todo.

De toda forma, o desrespeito dessa parte do público não prejudicou em nada o concerto impecável de Lee Ranaldo, que foi muito aplaudido, muito amado, voltou pro Bis, nos emocionou, e muito!

#ForaTemer #NeverTrump

Carne Doce e a política do “meu corpo, minhas regras”!

Terminou Lee Ranaldo dentro do teatro e começou o Carne Doce lá fora. O Festival Móveis Convida aproveitou muito bem o gigantesco Complexo Cultural Dulcina de Moraes, reduto da arte e boémia brasiliense. Todos os espaços foram preenchidos no enorme labirinto de graffittis que ligam a faculdade de artes Dulcina De Moraes ao Teatro Conchita. Os murais que decoram o ambiente são assinados por artistas visuais de Brasília, entre eles Pomb, Brixx e Omik. São espaços subterrâneos que foram muito bem aproveitados com djs, karaoke, bar, palco de pocket shows e exposição de fotografia. Tinha ainda a sala ‘drag-se’ (com adereços para quem quisesse tornar-se Drag Queen). No palco principal, Salma Jô, vocalista da banda Carne Doce, já reverberava sua voz afinada e encorpada, apresentando músicas do disco novo “Princesa”, recém-saído do forno. O quinteto mesclou também algumas canções do seu disco de estreia, homónimo.

A questão dos espaços simultâneos prejudicou muito a gig deles, porque vazava o som dos outros ambientes, principalmente vindo da pista de dança ao lado. A banda precisou interromper o show e pedir que a produção se encarregasse de resolver o impasse, que só foi solucionado no show seguinte, do Thiago Pethit.

A carreira do Carne Doce é nova. São dois anos de vida, dois discos lançados e um futuro brilhante pela frente, como a maioria das bandas made in Goiânia, capital do estado de Goiás – Brasil – que são geniais.

Vocais femininos despertam muita empatia, até porque o rock e a MPB (música popular brasileira), reduto da sonoridade do Carne Doce, ainda é um métier um tanto masculino.

A banda surgiu fruto do relacionamento de longa data da vocal Salma Jô e do guitarrista Macloys Aquino, que sobrevivem muito bem à crise dos sete anos e continuarão juntos fazendo música boa, para a nossa sorte. Salma é a principal letrista e Mac compõe os arranjos. Ricardo Machado (bateria), Aderson Maia (baixo) e João Victor Santana (produtor do disco, e que também toca guitarra na banda e domina os sintetizadores) completam o team.

Antes do show, Salma contou-nos um pouco da experiência pessoal que está por trás de uma das canções do disco novo. “Artemísia” foi escrita depois dela passar pela experiência de aborto:

Quatro anos atrás engravidei do Mac. Descobri bem no início, com quatro semanas. Decidi interromper a gestação em comum acordo com ele, que apoiou minha decisão. Fui atrás de informações na internet de como abortar, tomei remédios caseiros, tentei o chá de Artemísia, considerado abortivo, (que deu nome à música) e nada. Até que descobri a ONG Woman on Web, que ajuda mulheres de países onde o aborto não é legalizado (o caso do Brasil) a interromperem a gravidez. Eles me colocaram em contato com um médico, que fez a consulta on-line e mandaram o remédio em seguida.

No Brasil, o aborto é crime e sujeito à pena de até três anos se praticado pela própria gestante ou com consentimento da mesma. A legislação só aprova a interrupção da gravidez no caso de risco de morte para a mulher, se a gestação for fruto de violência sexual (estupro) ou se o feto for anencefálico. Não há políticas públicas que defendam nós mulheres e a falta de informação e despreparo emocional para lidar com esse tipo de situação acaba por levar milhares de mulheres à óbito em clínicas ilegais, estas que geralmente encontram-se em situação precária e não têm médicos ou outros profissionais de saúde habilitados a tal prática. Um verdadeiro feminicídio.

Não vai nascer porque eu não quero, e basta eu não querer“, trecho de “Artemísia” é o apelo feminista vindo da poesia e experiência de Salma, que reflecte o ideal feminino da mulher ter pleno domínio de seu corpo.

“É um peso ser mulher, sangrar todo mês, alojar um bebê, carregar o sentimento de culpa por interromper uma gravidez. Na época eu não contei pra quase ninguém. Depois que a música saiu é que minha família ficou sabendo. Nunca conversei abertamente sobre isso com minha mãe, mas acredito que hoje ela entenderia”, completa Salma Jô, que é a favor do aborto em todos os casos e a qualquer momento, mesmo que a mulher esteja grávida de nove meses.

O álbum tem outras canções-denúncia, que tratam de temas que deveriam ser pautas políticas, tais como o machismo, evidenciada na excelente “Falo”, favorita do disco e na óptima “Cetapensâno”. A música “O pai” é sobre tirania familiar e veio da “Carta ao pai”, do escritor checo Franz Kafka, uma publicação da carta que o autor escreveu para seu pai e que nunca foi enviada. A faixa título “Princesa”, que foi feita despretensiosamente, retrata um pouco da vulgaridade das cantadas de rua de forma irônica e romantizada.

Thiago Pethit, Tássia Reis e Daniel Peixoto – prevaleceu o amor <3

O show continuou até de manhã e o público continuava disposto. O paulista Thiago Pethit  subiu ao palco com seu rock dançante e cheio de amor pra dar. Apresentou principalmente músicas do disco ‘Rock’n’roll sugar Darling’ de 2014 e tocou duas vezes o hit “Romeo”, para delírio do público. Em seguida veio a também paulista Tássia Reis, rapper, dançarina de street dance, que emponderou ainda mais o evento com seu hip hop feminino lançando seu álbum debut “Outra Esfera”. Para fechar a noite, ou melhor, começar o dia, pisou ao palco o cearense Daniel Peixoto, figura cativa dos libertários sexuais, mais conhecido pelo seu trabalho no Montage, duo de eletropunk.

Festa de música independente brasileira

O 17° Festival Móveis convida continuou na noite de sábado, dia 10/9, com outras dezoito atracções divididas em três palcos: O palco intitulado “Moab” (in memoriam ao produtor cultural brasiliense Moab Cavalcante), que ficava no labirinto subterrâneo, em meio aos graffittis; o palco “Vai tomar no Cover” (projecto homónimo que valoriza bandas autorais de Brasília) e palco “Praça”, onde os artistas consagrados do cenário indie tocaram.

Os destaques da noite foram os já famosos Marcelo Jeneci (SP) e Móveis Coloniais de Acajú (DF), com seus hits cantados em uníssono e a banda mexicana-paulista Francisco el Hombre, que fez o show da noite, com suas canções latino-suingadas cheias de experiências de vida.

A banda surgiu da união dos irmãos mexicanos Sebastián e Mateo Piracés-Ugarte, que vieram para o Brasil ainda crianças e foram morar em Campinas, interior do estado de São Paulo. Eles se juntaram a dois amigos e uma amiga (brasileiros), dispostos a se desenvencilhar de todas as coisas que a sociedade capitalista político-econômica-vigente nos impõe como propósito de vida: faculdade, emprego, família, carro do ano; para sair em uma road trip pelo Chile e tocar, em troca de trocados, o suficiente para bancar as contas da estrada. Tal experiência rendeu o disco de estreia da banda, Soltasbruxa recém lançado. Esse disco conta com várias participações especiais: Liniker e os Caramelows, em “Bolso Nada”, as cantoras Helenamaria, Renata Éssis, Larissa Baq e Salma Jô (Carne Doce) na canção feminíssima “Triste, Louca ou Má” e ainda o músico Zé Nigro e a banda Apanhador Só em “Tá com Dólar, Tá com Deus”, música genial que reflete a recorrente situação económica vivida pela América Latina, que vive em função da moeda norte-americana. “O Dólar Vale Mais que Eu, eita, fudeu”…   A bem verdade.

Mood, Faces & Crowd @ Festival Móveis Convida 2016

Mood, Faces & Crowd @ Festival Móveis Convida 2016

Todas as imagens de Leonardo Hladczuk & Nay Mesquita sobre a grande festa do Festival Móveis Convida de 2016 para ver em baixo.

Festival Móveis Convida 2016, Brasília

Mood, Faces & Crowd @ Festival Móveis Convida 2016