Os Capitão Fausto já praticamente não precisam de apresentações. Com o passar dos anos, canções como “Verdade”, “Zécid”, “Maneiras Más”, “Litoral” e a mais recente “Amanhã Tou Melhor” têm feito as delícias da juventude portuguesa. Aliás, até poderíamos afirmar que é graças a bandas como estas que a música portuguesa está a cativar cada vez mais crentes na qualidade dos nossos artistas. Quer seja por falarem para jovens, quer seja por eles próprios o serem ou por entenderem as atribulações nas suas vidas, os ‘alfacinhas’ brindaram a sua considerável legião de fãs com o belíssimo Capitão Fausto Têm Os Dias Contados, naquilo que pode ser considerado uma ode à juventude dos tempos modernos.

Falando sobre o novo disco, da evolução face aos miúdos que lançaram Gazela, dos concertos que estão agendados para o Verão, o iminente quarto disco ou até sobre José Cid e Fernando Pessoa, a Tracker Magazine teve o prazer de se sentar à conversa com Tomás Wallenstein e Domingos Coimbra, vocalista e baixista, respetivamente, para tentar perceber o porquê de eles afirmarem que “têm os dias contados”, mas não vão a lado nenhum.

Sobre o novo disco, Capitão Fausto Têm Os Dias Contados. Há alguma história que se esconda por detrás deste nome?

É, essencialmente, um nome que, à partida, nos soava bem. É um título que, metaforicamente, aborda algumas das questões que são abordadas nas letras do disco, mais propriamente esta mensagem do ‘fim de um ciclo’. Os Dias Contados é algo de fatalista que o representa. – Tomás Wallenstein

 Mas não é para ser levado à letra, é só um nome. – Domingos Coimbra

Nesse caso, qual a mensagem que tentam transmitir através do disco e de quem o ouve?

Não acho que haja uma mensagem específica: falamos de assuntos que passam pelas nossas cabeças, o que torna o disco em algo relativamente pessoal. – TW

Quando em comparação com os vossos discos passados, a parte lírica d’Os Dias Contados é das mais complexas que vocês criaram, permitindo uma interpretação individual de todos os seus temas. Tal como já sucedera de Gazela para Pesar o Sol, registou-se uma tremenda evolução na vossa sonoridade. Como, e por quem, é que se deixaram influenciar para este novo álbum?

Tudo tem influências, mesmo que não nos apercebamos durante o processo de criação, mas acho que a própria escolha do estilo e da sonoridade que acabou por aparecer foi algo que surgiu progressivamente; à medida que íamos fazendo uma música, essa ia ‘contaminando’ as seguintes. É evidente que existem influências, mas não foi a pensar em nada, ou alguém, em específico que moldou o disco. – TW

Capitão Fausto

Capitão Fausto

Os vossos outros projetos – Modernos, BISPO, El Salvador – tiveram algum peso, mesmo de forma indireta, para a produção do novo trabalho de Capitão Fausto?

Acho que não houve nada que começasse nas outras bandas e que acabasse em Capitão Fausto. Quando nos juntamos para trabalhar em Capitão, o processo acaba por ser diferente dos restantes; tanto Modernos, como nos BISPO ou em El Salvador acabam por se tornar em projetos mais livres, seguem uma trajetória distinta. Além disso, também pesa o facto que em Capitão Fausto somos cinco, o que o torna num processo mais longo e com uma atenção redobrada. De qualquer das formas, e não nos tirando o gozo de fazer música nos outros grupos, não houve, que eu me lembre, nenhum momento em que estivéssemos a fazer uma música nas outras bandas e disséssemos “isto podia ir para Capitão Fausto”. – DC

A sua existência terá influenciado de certa forma: qualquer experiência, em qualquer área, acumula-se às que já possuíamos, portanto a existência desses projetos pode ter influenciado de certa forma: o facto de o Domingos tocar bateria e fazer malhas nos BISPO, provavelmente, e de forma inconsciente, deu outra bagagem para quando começámos a trabalhar neste disco. Não podemos dizer que “canção X é assim porque saiu do imaginário dos Modernos”, mas acho que contribuiu de algum modo. Aliás, um dos interesses em ter diversos projetos é uma pessoa alargar o seu nível de experiência e não se concentrar exclusivamente numa linha. – TW

Por falar em experiências, como tem estado a ser esta nova aventura com a Cuca Monga?

De um modo geral, está a correr bem. Temos feito festas no MusicBox que têm corrido bem… – DC

Que até contou com uma participação do José Cid, não foi?

Sim, conseguimos! Essa, então, foi o grande sucesso. – DC

A outra também foi muito fixe. – TW

Exato, pois foi! Acho que nos estamos a dar bem porque conseguimos arranjar este calendário giro com o MusicBox de fazer 4 festas no espaço de um ano, que chega a ser benéfico para nós no sentido em que nos mete a trabalhar, quer seja na editora ou a fazer as compilações – em cada festa, lança-se uma nova compilação com as bandas da Cuca Monga – e o próximo ano será interessante para a editora porque, à partida, vamos lançar o primeiro disco que será o dos Ganso. – DC

Enquanto artistas, vocês são super acessíveis para com os vossos fãs. Consideram isso como uma das chaves para o sucesso que têm entre o público?

Existe um pouco essa ideia de que pessoas dentro do meio musical se consideram superiores e intocáveis, mas eu, pessoalmente, não me sinto uma vedeta e sempre que alguém vem falar comigo, eu não os impeço. – DC

Também depende muito das ocasiões: normalmente vêm falar connosco em sítios onde nos estejamos a divertir, quer seja na rua ou em festivais, e como aí as pessoas estão sempre com um espírito aberto, não temos problemas nenhum em estar ali à conversa. – TW

Por acaso, eu já apanhei uns valentes ‘chatos’ que vieram falar comigo enquanto almoçava, mas tento nunca ser mal-educado. – DC

Capitão Fausto

Capitão Fausto

 

Quando apresentaram o vosso novo disco no Lux, ele tinha acabado de ser lançado e mais de metade da sala já sabia as letras de trás para a frente. Suponho que tenham ficado radiantes, correto?

Eu fiquei satisfeito. Aliás, fiquei mais do que é normal nesse concerto no Lux porque não estava à espera que fosse assim tão efusivo, especialmente tendo em conta algumas das novas músicas um pouco mais ‘calmas’. Gostei imenso de ver a reacção positiva das pessoas, cheguei inclusive a comentar isso entre nós sobre como fiquei surpreendido por ver tanta gente a cantar o refrão da “Dias Contados”. – DC

Algo que é muito frequente nos vossos concertos é a insistência, por parte do público, para que toquem a “Teresa”. O que têm a dizer sobre isto?

Enquanto banda, o nosso papel é organizar um concerto que seja coerente utilizando, para isso, os nossos próprios critérios sobre como é que ele deveria ser. O facto de acharmos que a “Teresa”, muitas das vezes, não se enquadra com o resto das canções que estamos a tocar em determinado concerto, é algo que está no nosso direito. Com isto não quero dizer que a música seja pior ou melhor que as outras; simplesmente não sentimos necessidade de tocá-la. – TW

Na minha opinião, acho que faz sentido tocá-la numa ou outra ocasião, mas, para que isso aconteça, o mais importante é, sem dúvida, saber que estamos a fazer um concerto íntegro, da maneira como queremos, do que estar a tocar uma música só porque sim. Antes de qualquer outra pessoa, a banda tem que estar a gostar e a querer tocar esse tema, porque se o tocássemos só por tocar, não faria muito sentido para nós. Por vezes pode haver aquela ideia que rejeitamos os singles ou as músicas que têm mais sucesso, mas isso não é verdade: com o novo disco, a “Amanhã Tou Melhor” é das músicas que eu mais gosto de tocar. – DC

Também nunca deixámos de tocar a “Maneiras Más”, por exemplo… – TW

De um modo geral, a “Teresa”, como até algumas do Gazela, saem muito ao lado daquilo que andamos a fazer. – DC

Continuando a falar sobre concertos, Paredes de Coura está quase aí. Tocaram por lá em 2012, somente com Gazela na calha. Como vai ser regressar, visto que agora têm mais dois álbuns na bagagem?

Vai ser divertido. Estamos com pica e sem dúvidas que será uma experiência diferente, visto que agora temos mais discos. Ainda não sabemos quanto tempo é que vamos tocar, por isso temos que montar o alinhamento à volta da hora que nos calhar mas, de qualquer das formas, nós costumamos criar uma base para os concertos que vamos dar no Verão porque, normalmente, são todos mais ou menos do mesmo género e com a mesma duração. Ensaiamos previamente no contexto de tocar num festival, no meio de outras bandas, para um público maior, menos tempo, e é no meio de todos estes derivados que criamos uma setlist que depois vamos afinando à medida que vamos dando concertos. Relativamente a Paredes de Coura, e a todos os outros concertos que já demos este Verão em festivais, não há grandes surpresas nem truques: vai ser um concerto que faz parte desta fase e esperemos que gostem. – TW

Se pegarmos nos vossos concertos esgotados, a procura dos vossos discos, as críticas favoráveis e todo o ‘espalha-palavra’ positivo que rodeia os Capitão Fausto, consideram-se como uma das bandas portuguesas com mais sucesso da atualidade?

Não, não. – TW, DC

Há muitas bandas em Portugal que estão a ter a oportunidade de tocar um pouco por todo o lado, e nisso nós temos tido alguma sorte porque vendemos muitos bilhetes mas, no entanto, estamos com perspetivas de continuar a trabalhar ainda mais. Nunca olhei para isto da música como de um campeonato se tratasse: há bandas que não são muito conhecidas mas tocam imenso e bandas famosas que acabam por não tocar nada. – TW

Eu sinto que é um pouco isso. A única coisa que eu posso dizer é que sinto que houve um crescimento, da nossa parte, que se vê nos actuais concertos quando se compara em relação a outras digressões que nós fizemos, ou seja, estamos a atrair cada vez mais gente. Nesse sentido, há cada vez mais pessoas a conhecer Capitão Fausto, mas eu não acho que possa partir daí para dizer que somos daquelas com mais sucesso. – DC

A faixa etária também mudou um pouco, temos tido cada vez mais pessoas mais velhas nas plateias. Anteriormente, o nosso público era maioritariamente ‘pós-adolescente’, mas agora esse espectro está cada vez mais alargado. – TW

Sim, vêem-se mais pessoas adultas nos nossos concertos, o que é algo que eu acho muito interessante. – DC

 

Capitão Fausto

Capitão Fausto

Vocês conhecem-se desde muito cedo – no teu caso, Domingos, já tinhas tido bandas com o Francisco, o Salvador e o Manuel. Será a vossa forte amizade o motivo pela qual os Capitão Fausto soem como algo genuíno e faz transparecer a ideia de que tudo flui com a maior das naturalidades?

Eu acho que pode ajudar sim, mas também arranjámos uma maneira de ir trabalhando de uma forma muito flexível uns com os outros. Acredito que hajam muitos amigos que trabalhem juntos e que não consigam trabalhar em conjunto, mesmo sendo melhores amigos, e isso pode acabar por se tornar algo contraproducente; no nosso caso, nós trabalhamos bem não só porque nos damos todos bem mas também porque sabemos ‘democratizar’ um pouco a coisa, ao deixar os cinco lados puxar para o seu lado e encontrarmo-nos no meio. – TW

Terem os mesmos gostos musicais ajuda nesse processo?

Temos um critério comum, mas no fundo acabamos por ouvir coisas muito diferentes uns dos outros. Só que, de alguma maneira, até as coisas diferentes que não fazem tanto o nosso género conseguimos perceber a maneira como os outros membros gostam; voltamo-nos a encontrar ali no meio de todos esses gostos. Quando escrevemos canções, costumamos dividi-las por etapas: as letras sou sempre eu que as escrevo, a música é sempre feita pelos cinco em conjunto. – TW

Para terminar: depois deste Capitão Fausto Têm Os Dias Contados, quais as perspetivas para o futuro? Os dias estão mesmo contados, ou Alvalade continua a chamar por vocês?

Os nossos dias ainda não acabaram porque neste Verão vamos já começar a trabalhar no nosso próximo disco. – DC

Nós tivemos um período de trabalho bastante intenso, desde os ensaios do álbum que começaram em Novembro, todos os dias, até ao seu lançamento, as entrevistas e os concertos de apresentação. Estivemos, nas últimas semanas, num período de pausa em que demos poucos concertos e aproveitámos para descansar um pouco, e agora estamos a recomeçar a ‘reactivar’: estamos a fazer umas obras no nosso estúdio para depois passarmos logo para os ensaios. Queremos trabalhar em coisas novas, mas sempre devagarinho para que corram bem. Dito isto, Alvalade está com um magnetismo bastante forte, portanto esse é o mote e daí o disco terminar assim. – TW

Pode-se dizer que este disco é um fechar de um ciclo e que Alvalade dará continuidade a uma futura etapa. Nós não pensámos bem nisso quando o gravávamos, mas se depois pensarmos um pouco, até que faz sentido. – DC

É o ‘fechar’ e também o ‘abrir’: é o primeiro disco em Alvalade, é o primeiro fruto na nossa estadia por lá e é o que fecha esta primeira-fase enquanto trabalhadores-estudantes. Muitas das vezes, eu gosto de pensar sobre aquilo que estou a ouvir e procuro coincidências e significados diferentes dentro dos discos e das músicas, mas acredito também que nem tudo o que se encontra é conscientemente planeado, pois quando estudámos análises de poemas de Fernando Pessoa na matéria do 12º ano, eu tenho quase a certeza que tudo aquilo que nós tentávamos interpretar não estava, à partida, planeado por ele para que as pessoas chegassem lá; ele fazia as coisas com tal riqueza e complexidade que, se calhar, aquilo estava implícito sem que ele se tivesse apercebido, ou então deixava muitas hipóteses em aberto e acho que nós, instintivamente, fazemos as coisas um pouco dentro desse género, ou seja, não gostamos de as fechar muito a uma interpretação direta. – TW

É um pouco como aquele vídeo do hippie que foi a casa do John Lennon e dizia que as suas músicas tinham tal significado que tinham mudado a sua vida por completo, ao qual ele respondia que tudo não passavam de letras e que não era aquilo que queria dizer. – DC

E muitas das coisas que nós fazemos, quer seja uma música ou uma letra, pode ter muito mais significado para uma pessoa do que pode ter para nós. E pronto, é aí que reside o deslumbre da música. – TW

E é mesmo. Relembramos-te as nossas palavras sobre o disco Capitão Fausto Têm Os Dias Contados.

Capitão Fausto – Capitão Fausto Têm Os Dias Contados

Todas as fotografias foram tiradas durante o passeio de veleiro organizado pelo Sol da Caparica.