Chama-se Luís de Sousa e ficou conhecido como sendo o vocalista dos MAU, banda electrónica portuguesa. Agora, em 2016, atira-se aos discos, de forma individual, com o projecto Mira, un Lobo. Lançado em Maio último, quem já teve o prazer de ouvir Heart Beats Slow sabe que é um dos fortes candidatos a levar para casa a estatueta de “melhor álbum nacional 2016”, mas o que será que se esconde por detrás deste lobo e sua adorada cria? Para entender melhor toda esta misticidade encantadora, sentámo-nos à conversa com o Luís numa calorosa tarde de Julho, para perceber melhor como é que, parafraseando Fernando Pessoa, Deus quis, o Homem sonhou e a obra nasceu.

Porquê Mira, un Lobo? Há alguma história engraçada escondida no nome do teu projecto?

Não há nenhuma justificação brilhante para o nome… Basicamente, apareceu-me; gosto da língua (o castelhano) e achei que havia ali uma mensagem interessante, no sentido de apontarmos o dedo aos nossos medos, que são normalmente fruto da nossa cabeça. O lobo é habitualmente visto como uma ameaça, tem esse simbolismo, mas na verdade, o bicho terá muito mais medo de nós… Achei que seria interessante, principalmente num tempo em que se vive permanentemente com medo – seja em relação ao terrorismo ou aos refugiados –, onde as pessoas canalizam todas as suas frustrações, ignorância e desconhecimento, no medo e, consequentemente, no ódio. Achei pertinente pegar nesse conceito e adaptá-lo.

Heart Beats Slow é o nome do teu primeiro disco, onde a crise económica dá o mote principal. Em que medida é que este tema está presente?

Não sei se é o mote, mas era esse o meu estado de espírito naquela altura, fruto dessa crise, desse meu despedimento que, obrigatoriamente, influenciou toda a composição e gravação do disco. Não creio, contudo, que chegue a ser a temática, pois não falo objectivamente da “crise” nas músicas. Agora, foi graças à crise que me pude dedicar a full-time a Mira, un Lobo! e foi como uma espécie de reacção a esse período conturbado que acabei por despejar para o álbum todas as minhas frustrações e tristezas.

Recentemente, nasceu o teu segundo filho. Como é que o seu nascimento pesou na criação do disco?

Sendo sincero, o meu primeiro filho teve uma maior influência na concepção do disco, porque quando comecei a compor este álbum estava longe de pensar num segundo. É um sufoco muito grande quando já não és só tu e passas a ter uma família, um filho, alguém que está a teu cargo e que precisa de ti, precisa que trabalhes, que leves dinheiro para casa. Nesse sentido acabou por ser um aumento e um acrescento para essa aflição que se sente no disco, através de um estado latente de depressão. Mas depois também tem o seu lado muito bom de cura: é ao amor por um filho que te agarras para ultrapassares todos os obstáculos, para vires à tona, para conseguires respirar fundo e reunir forças para lutar contra as adversidades. Portanto, neste sentido, o meu filho teve essa importância absoluta e indissociável da concepção do disco, daí eu querer que ele participasse no mesmo. Como sabes, utilizei a voz dele, de quando ainda era bebé, no tema “Heart Beats Slow”, como se de um foco de luz se tratasse no meio do escuro.

A tua sonoridade, que deambula entre o chill e a dreamwave, sente-se como única por Portugal. Quais os artistas que te influenciaram e quais as tuas referências?

Eu ouço muita música, de todos os géneros e feitios; sou um melómano assumido, um consumidor compulsivo de música que ainda compra muitos CDs e que recentemente passou a comprar vinil. Inevitavelmente, somos todos esponjas: absorvemos tudo e retemos as coisas que nos marcam e das quais mais gostamos. Eu acho que as influências mais óbvias e que se percebem na minha música – e isto eu fui percebendo com o retorno que ia tendo por parte da imprensa em relação às minhas músicas –, são nomes como M83, Fever Ray, … Não foi deliberado, mas percebo a associação, até porque, tal como de muitas outras, gosto muito dessas bandas.

Trentemøller?

Não é que eu não goste, mas não é um artista que eu ouça ou que compre. Não o considero uma referência ou que tenha ido buscar alguma coisa ali. Claro que podemos ter as mesmas referências e aí acabamos por nos encontrar no tipo de som que fazemos.

Agora ando a ouvir muito Phoria, por exemplo… as influências são demasiadas para conseguir dizê-las todas.

Com os contornos que os temas de Heart Beats Slow tomam, é possível ao ouvinte atribuir uma mensagem específica e individual a cada um deles. Pessoalmente, atribuí uma mensagem de esperança. Qual a tua opinião sobre isto? Incomoda-te saber que a tua mensagem passou um pouco ao lado ou ficas feliz por tocar na alma das pessoas de diferentes maneiras?

Eu faço questão de não ter letras fechadas, não gosto de escrever de uma forma literal. Gosto que a temática seja aberta a diferentes interpretações. Claro que cada uma delas acaba por ter um significado específico para mim, mas agrada-me que, tal como na poesia, se possa ter diferentes interpretações. Adoro que as pessoas também as tenham em relação às minhas canções.

As músicas não andam muito longe daquilo que referiste, a esperança. Elas acabaram por se tornar numa espécie de “psicólogo” particular, cujas consultas faziam (e fazem) com que eu me sentisse sempre melhor. Ao fim ao cabo, alimentavam a tal esperança de que as coisas iriam correr melhor, porque, apesar das músicas virem de um estado algo depressivo, eu nunca senti que elas fossem assumidamente tristes; acho que têm espaço para essa luz, para essa esperança.

Todo este feedback positivo que Heart Beats Slow tem estado a receber… como tem sido digeri-lo?

Tem sido incrível… não sei se está toda a gente a adorá-lo, mas pelo menos o feedback mais óbvio, as críticas e as notícias sobre o disco que vão saindo têm sido francamente positivas e isso surpreende-me. Por mais que acredites num álbum, nunca estás à espera que as coisas corram assim tão bem. Aliás, é igualmente incrível quando não é só em casa que és bem recebido: lá fora, as pessoas a quem chega o disco, também gostam e tratam-no muito bem.

O atual desenvolvimento que o panorama musical português atravessa, achas que podes ser um dos próximos “grandes” na cena alternativa portuguesa?

Bom, eu já ando nisto há demasiados anos para ter grandes ilusões em relação à indústria musical, quer a portuguesa quer a internacional. Obviamente que temos sempre uma esperança muito ténue que a coisa exploda, mas não tenho falsas expectativas em relação a isso. Faço música porque preciso. É o meu equilíbrio. Independentemente daquilo que eu faça a nível profissional, necessito de compor e de criar. Mas é óptimo quando as pessoas reagem bem àquilo que tu crias. É claro que eu não faço isto só para mim… se assim fosse, fazia as músicas, guardava-as no meu quarto e não as mostrava a ninguém. Gosto muito desse feedback, gosto que as pessoas se liguem às minhas composições. Mas, repito, não tenho grandes expectativas e acho mesmo que o boom que poderia acontecer em Portugal, por maior que fosse, nunca seria o suficiente para me permitir viver desafogadamente da música.

As tuas músicas já andam a rodar pelas rádios de Espanha. Como é que isto se sucedeu?

Isso partiu, presumo eu, da editora: é alemã e tem algum peso em vários países ao nível da promoção. De alguma forma o disco chegou à Radio 3 (talvez a maior de Espanha) e quem lá trabalha gostou muito e começou a passá-lo com bastante frequência. Isso fez com que muita gente o ouvisse e se interessasse por aquilo que eu estou a fazer. O resultado tem sido de tal ordem que o nosso primeiro concerto marcado é em Bilbao, em Novembro.

Tomando Espanha como exemplo, achas que a tua música tem potencial para ir para além fronteiras? Vês isso como um dos teus objectivos?

Eu não acredito muito em fronteiras; acredito que o mundo seja cada vez mais globalizado. E ainda bem que assim é! O facto de eu cantar em inglês não é inocente, mas também é muito verdadeiro: Todas as minhas influências musicais são anglo-saxónicas, daí que me sinta confortável a cantar na lingua deles, na lingua que o mundo, de certa forma, adoptou como universal. É perfeita para o que quero, e como quero, comunicar. Isto destrói imensas fronteiras porque, se souberes escrever e falar razoavelmente bem em inglês, à partida consegues chegar mais facilmente lá fora. Eu tenho recebido esse feedback mais por parte da imprensa internacional – Inglaterra, Estados Unidos –, com críticas muito favoráveis que, para além de me surpreenderem, dão-me algum conforto. Não é que elogiem o meu inglês…é mais o facto de não o apontarem como um factor negativo. Gostam da música e o meu inglês não lhes causa qualquer incomodo. Portanto, sim, a vontade é essa, é a de tentar chegar ao maior número de pessoas possível e pouco me interessa se são de Almada ou de Berlim.

Por enquanto, quais as tuas perspectivas para o futuro como Mira, un Lobo?

Não tenho qualquer tipo de perspectiva. Nunca tenho… Aliás, talvez no início tivesse, quando comecei com os MAU, mas hoje em dia não há nenhuma. Nada disto foi planeado e está a ser óptimo ser surpreendido todos os dias. Estou a saborear tudo aquilo que me vai chegando. Espero que as coisas continuem assim, desta forma tão positiva.

Se tivesses que sugerir Heart Beats Slow para alguém o ouvir, o que é que dirias?

Acho que, em vez de explicar, mostrava um ou dois temas. É-me muito difícil explicá-lo, defini-lo ou até mesmo vendê-lo; essa parte deixo para a editora. Eu vejo a minha música como uma espécie de opiáceo saudável, em forma de som, e que atenuou os meus problemas, as minhas dores e que me ajudou a sair de um buraco no qual eu me encontrava. Gosto de ver a minha música dessa forma, mas gosto que cada um seja livre de a sentir como quiser.

Mira, un Lobo! – Heart Beats Slow