Mute Swimmer - Second
80%Overall Score

Ainda bem que é Setembro, ainda bem que o calor já se finou ao som dos primeiros segundos da marcha fúnebre que abre Second. Não foi! Foi uma ou umas semanas antes mas não faz mal; vamos fazer de conta que sim. Ainda bem que ali fora chove com a violência emocional de Second. Ainda bem…. Ainda bem que Lisboa está inundada neste preciso momento e que Second toca pela sétima vez consecutiva… repeat, repeat, repeat!!!! Ainda bem que não percebo porque é Setembro e chove como se fosse Bangkok… Ainda bem, porque aqui neste disco onde moro hoje, de manhã à noite, sem sair sequer para beber um café ou um Daiquiri, chove como se estivéssemos em Vladivostok… deve chover muito em Vladivostok, certo? Ainda bem… Ainda bem que não percebo porque chove lá fora como se fosse Bangkok porque me conforta enquanto estou perdido com Guy Dale neste disco, sem já conseguir perceber onde começa e termina de tantas vezes que já tocou. É uma espiral. De tempo talvez; de palavras e sons com toda a certeza. É com toda a certeza um exercício de vontade angustiante de ser tantas coisas ao mesmo tempo. Confunde-me as palavras e os sentidos.

“Olá! Boa noite! O meu nome é evasão! Não me queiras guardar dentro de uma caixa, de um estilo, de uma só voz! Boa noite, ainda agora era isto e agora já sou aquilo! Sou o tempo que não volta a ser, como dizia o poeta.”

Olá! Boa noite! Ainda bem que ainda agora tocava o cavalheirismo alcoólico tão tipicamente inglês no som do trompete de “Some Examples” enquanto chove inexplicavelmente lá fora. Ainda bem… Sinceramente, ainda bem, porque precisava desta pose de cavalheiro inglês para poder respirar enquanto toca “A Word/A Curse”. E as palavras tão alcoolicamente inexplicáveis são do tamanho de uma maldição que pesa no peito enquanto o trompete dilacera até rebentar as fronteiras do corpo. “My body is vessel for this word”.

Os Tindersticks entraram em palco, Mark Sandman anda por lá incorpóreo mas omnipresente, os urros fortuitos de Kim Gordon trocam carícias com as guitarras de DayDream Nation e Stuart Staples chama ao palco os restantes Morphine. “This is the bridge” diz a voz de Dale em “Same” e rompem trompetes em marchas avant-gard com John Zorn a cambalear entre melodias incertas que Tom Waits iria gostar de, alguma forma, dar poesia a. A surpresa é que daqui vamos até ao inferno southern-goth folk. Ali algures, sem nunca se saber muito como ou onde, chega-nos a asfixia dos fantasmas de David Eugene Edwards e do poder do cavalo. O disco já deu a volta e já toca pela 11ª vez e o tempo perde-se em acordes e laços de forca… Falta o ar tantas vezes. Como se observássemos com nostalgia demoníaca aquelas fotografias antigas? Aquelas queimadas pelo tempo! Aquelas que mais doem! Aquelas melodias sem tempo como o podem vir a ser para alguém “A Melody (Strands 1-3)”, “The Ideia Of Zero” ou “Time Song” que canta “Time will not be repeated”. E não o é porque são apenas fotografias antigas, são apenas canções, são apenas aquele momento que não volta por mais que o disco toque pela 12ª vez… repeat, repeat, repeat!!!!

“I Mark Time” e fecha-se o relógio, e o disco não toca mais. O tempo. Em todo o disco, em todas as canções… o tempo… Ainda bem que chovia lá fora como se fosse Bangkok ou Vladisvostok, ou simplesmente Lisboa, e esqueci-me de um dia num disco. “I mark time until I forget that it’s there”.