Mutual Benefit - Love's Crushing Diamond
90%Overall Score

Esvazia a mente, vais entrar num rio meditacional. Ouve os espanta-espíritos, sente a libélula a pousar no teu rosto, os violinos tocam(-te) entre os abraços de um banjo ou de um beijo. Esvazia a mente. É disto que a paz é feita. Por todo o disco existe este sentimento pacífico de um entardecer. Dando nomes concretos, podíamos chamar a Love’s Crushing Diamond um manual de esperança, calor humano, conforto e reconforto, de uma placidez terminal em que já nada abala o curso do riacho amarelo lá na terra dos nossos pais onde apanhávamos lagartixas quando éramos pequenos. De alguma forma, há um fantasma que se passeia por aqui à beira deste rio. Se de um lado, sem dúvida, ressoa o eco já distante dos trabalhos de Devendra Banhart para a Young God de Michael Gira dos Swans, onde a baixa fidelidade era realmente fiel à crueza das canções folk do americano, por outro lado há também um quase tributo ao gigantismo épico do dream-pop/folk psicadélico dos Mercury Rev de Deserter’s Song. E no meio? No meio o fantasma, o passeio do fantasma que olha para um lado e para outro sem perceber bem onde está. Mark Linkous e Good Morning Spider parecem passear-se por todo o disco entre trilhos e caminhos que tanto levam ao pop como a frágeis peças acústicas de um folk não linear mas ao mesmo tempo confortável.

“Strong River” abre o que “Strong Swimmer” termina. Um curso líquido de quem finalmente encontrou a serenidade de saber que o hoje é o tudo que realmente importa. “I clear my mind of joy and sorrow / River doesn’t know tomorrow?” e uma brisa oriental sopra junto ao um rio na China enquanto Sujfan Stevens discorre sobre as cordas de um pôr-do-sol no nordeste americano. Jordan Lee consegue em Love’s Crushing Diamond – que de certa forma é o primeiro registo de Mutual Benefit, já que todos as anteriores edições foram apenas digitais – um disco de canções de amor para guardar no baú das melhores recordações de sempre. Dentro de 10 anos vamos ouvir este disco exactamente da mesma forma maravilhada e deliciosa que o ouvimos em 2014. E só essa intemporalidade já faria dele um disco a ouvir incontornavelmente.