Se os contos das 1001 noites fossem traduzidos para uma linguagem experimental, entendida apenas pelos frequentadores assíduos de um submundo sufocante, onde a forma que sempre se entendeu das coisas se apresenta distorcida e onde as fronteiras entre a realidade e o sonho são esbatidas, frequentemente pelas nuvens semi-opacas expelidas por narguiles tão frutados como narcóticos, talvez não estivessem muito longe de descrever uma pequena parcela das paisagens sonoras nebulosas, exóticas e imensamente particulares de Nadah El Shazly.

Repleto de nuances jazzísticas desfocadas, violinos nómadas aconchegados por teclados psicadélicos, num universo hermeticamente fechado por uma aura cambaleante e lânguida que nunca renega a uma pertença geográfica inequívoca, o álbum de estreia de Nadah, Ahwar, apresenta uma densidade quase meditativa debruada a ouds e outros instrumentos tradicionais do Médio Oriente e uma voz hipnótica, curvilínea e insinuante que vagueia por construções minimalistas de horizontes bem largos, deitados num puzzle de várias dimensões que se vai completando – e complementado – com a viragem de cada tema do alinhamento de seis composições.

Ahwar não é um disco fácil. A própria Nadah o reconhece, em entrevista ao The National, uma publicação dos Emirados Árabes Unidos:

You need to spend some time with it. Once you do, you kind of understand where I am trying go with it. But I do sense a bit of buzz happening now and there is a ripple effect with more people picking up the album

Editado em Novembro do ano passado, Ahwar desenrola histórias com um leve travo electrónico, contadas em exclusivamente em árabe, sobre longas e perigosas viagens, trazendo a sua atmosfera atordoadora e a sua natureza enigmática a Lisboa, a 11 de Abril, dia em que Nadah El Shazly, uma das representantes maiores da cena independente do Cairo, o desembrulha das cortinas de fumo envoltas em loops no palco da Galeria Zé dos Bois.

Em baixo, o álbum para viajar numa realidade paralela e uma apresentação ao vivo em Dezembro de 2017, em Utrecht, Holanda.