Will Varley tem álbum novo: charmar-se-á Kingsdown Sundown e chega já a 4 de Novembro. Temos a dizer que a velocidade de criação está no máximo desde a parceria com a editora Xtra Mile Recordings, mantendo-o absolutamente imparável. A quarta obra sucede a Postcards From Ursa Minor, lançado há um ano, e Varley manifesta os espíritos, sempre a cru, com a primeira faixa “To Build A Wall” em sintomas que, de todas as maneiras, conseguem afastar Trump e os seus derivados. E ainda bem.

O vídeo é marcado por imagens de água de uma lagoa, em inteira serenidade, sobrepostas a sombras humanas em estilo stencil com o contorno de figuras que se assemelham a viajantes em busca de melhores ninhos. Daí a importância da água como meio que une – ou separa –, dois pontos distintos. O contraste entre a aparente calma da água com os elementos que implicam a mudança de um local para outro, sobretudo se atentarmos que, por vezes, esse êxodo é a única hipótese de sobrevivência, é bastante clara e remete, com nitidez, para a frágil questão dos refugiados, bem como a repulsa que daí advém por parte de vários cidadãos de várias nações. A história internacional é constantemente narrada na letras das músicas. Aqui não encontramos excepção.

Kingsdown Sundown foi gravado num pub em Kent, região de Inglaterra mesmo à beira-mar, criando o ambiente capaz de rapinar às ondas a essência mais pura da natureza por oposição ao Homem. Podem imaginar o cenário. A condição humana recebe aqui um punhado de orações, sem descurar as críticas políticas, intemporais, com os veios sombrios dos tempos em que vivemos. Varley pousa no folclore os seus gritos e os seus manifestos. Em viagens ocorridas o ano passado e sempre em movimento, mental e físico, foi escrevendo em autocarros, comboios, em rabiscos vários e guardando sempre esses pedaços de papel. O registo é inteiramente franco, sem artimanhas, e funciona como um novo terreno criativo para o músico.

O que aqui separa Varley de outros nomes do folk-pop é, talvez, o facto de as suas letras e melodias não assentarem com facilidade em todas as audições. Há uma certa dureza em contar a verdade e uma dureza ainda maior em não a rodear de rosas. Neste sentido, a sua sonoridade não parece aplicar-se inteiramente nas apologias das estações de rádio, por exemplo. Encontra-se protegido pelos seguidores que o ouvem porque o querem, de facto, escutar, e é preciso proteger estas dinâmicas.
A obra está bem firme em território de fantasmas, espectros, memórias, desejos do passado, uns de esperança e outros de desilusão. A alma deixa ferir e curar, em simultâneo, à medida que as melodias se soltam das vozes e das guitarras. Com “We Want Our Planet Back” é inevitável não receber a forte mensagem política, neste caso a nível ecológico, que Varley tenta destacar. Com passadas leves, mas que causam pegadas muito protuberantes no solo, lá deambula entre temas que ardem, mas que são inerentes à existência individual e colectiva. Em “Back To Hell”, recebemos a sua leitura mística, e mítica, em torno de um hipotético submundo.

A guitarra não tem fim, mas tem muita fome. Fiquemos à espera deste novo disco, na certeza de que teremos de nos preparar bem para receber estas questões. Elas fazem falta, sim. Os conceitos mais tristes são também aqueles que alcançam maior dimensão musical. É preciso pressionar as feridas, é preciso fazer chorar as cordas e deixar que o mar, qualquer que ele seja, se entorne à vontade e, assim, possamos todos aprender a nadar. Parece bem que é o que Varley tem feito.

Kingsdown Sundown:
01. To Build A Wall
02. Something Is Breaking
03. When She Wakes Up
04. February Snow
05. Let Your Guard Down
06. We Want Our Planet Back
07. Too Late Too Soon
08. Wild Bird
09. Back To Hell
10. One Last Look At The View
11. We’ll Keep Making Plans