A Felicidade é um saldo que não exclui frustrações, felizmente superadas e didácticas, e por isso exige logicamente as alegrias que tornam o saldo da vida positivo, Feliz. Uma dessas alegrias é viajar, aquilo que o escritor Mário Quintana ensinou que é algo que muda a roupa da alma e por isso é um dos poucos consumos que nos enriquece, muitas vezes (quase) sem custar dinheiro, gastando só tempo e alguma energia. E foi viajando, em Marrocos, que o (contra)baixista norte-americano Joshua Abrams pôs as mãos num magrebino guimbri e se apaixonou pelo timbre daquele exótico instrumento rústico que inspirou a reunião da Natural Information Society que veio à Galeria Zé dos Bois na última segunda-feira, para fazer viajar quem se atreveu a experimentar o seu experimentalismo.

Lobo anfitrião de um cruzeiro atlântico

O cenário estava austero mas explicitamente composto por um enorme pano magrebino contemporâneo desfraldado no fundo do palco. Mesmo assim, apesar de o guimbri ser uma das atracções da noite, foi com um contrabaixo que Joshua Abrams entrou no palco, acompanhado pelo português Norberto Lobo, anfitrião artístico que é um guitarrista cada vez mais respeitado fora e dentro de Portugal. E foi espiritualmente no Mediterrâneo de Lobo e do guimbri que Abrams começou por dedilhar frases de notas arabescas, alternadas com murmúrios do arco que Norberto acompanhou dedilhando a inseparável guitarra, mas também com mãos para umas castanholas que levaram o navio transatlântico de Abrams e Lobo a aportar em Espanha. Num dado instante, daquela trip instrumental, ambos pareceram esforçadamente abrir um pesado portão – o da transcendência? -, que acedeu a um muito experimental trecho cacofónico que Joshua fez transitar para uma flutuante mescla de jazz com música erudita, harmonicamente secundado por Lobo.

Joshua Adams

O final do dueto foi de uma delicadeza bucólica, tendo os dois músicos pairado como besouros antes de pousarem numa pradaria de estepe que tanto poderia ser do Alentejo do Portugal de Norberto como do interior da América de Joshua – o primeiro usando o muito country dedal metálico, o segundo dedilhando o contrabaixo (instrumento tão genético do country moderno como do jazz), até tocar as desvanecentes notas finais para um público que, após reverente silêncio, expeliu a sua satisfação através de um longo e ruidoso aplauso. Num momento que se quis inclusivo, fez todo o sentido o intervalo do espectáculo ter sido totalmente recheado com música popular brasileira, do Atlântico Sul não navegado por músicos que também admiram a música daquele hemisfério.

A bordo do guimbri, de Marrocos à América

E navegadas águas mais ou menos calmas, toda a Natural Information Society entrou no palco com Norberto a reforçar o ensemble. Joshua Abrams já trazia o guimbri, mas foi com todos os cinco músicos tocando pequenos instrumentos de percussão que aquele concerto começou, quase hipnoticamente, pontuado por sons bucólicos – Natural Information… -, similares aos de esotéricos espanta-espíritos, propensos para meditação. Foi sucessivamente que cada instrumentista deitou mãos às habituais ferramentas: primeiro a senhora, Lisa Alvarado ao temperamental harmónio, e depois Ben Boye à auto-harpa, Mikel Avery à bateria, Norberto à guitarra e finalmente Joshua ao longilíneo guimbri, que ao vivo parece ainda mais elegante.

A partir daquele momento, é difícil descrever o que aconteceu porque a música era desprovida de palavras, mas principalmente porque Joshua e a Society conduziram cada pessoa na plateia a um labirinto introspectivo onde cada pessoa terá percorrido o seu próprio pathos meditativo. Sabemos que fomos deixados num imaterial lugar culturalmente a Leste de onde estávamos e, logicamente, ainda mais da América dos forasteiros em palco. Um lugar idílico, onírico mas consciente, no qual o guimbri ofereceu sempre a melodia mas onde, por exemplo, nem sempre a bateria só impôs ritmos, várias vezes escovados na guitarra, por Norberto.

Joshua Adams

Após cerca de meia hora, Joshua já expressava transe e parecia ser Lisa orientando com o harmónio o ensemble, amparada pela tranquilidade da harpa de Ben e pelos tempos de Avery e Lobo (que continuava a escovar o ritmo a que a harpa era dedilhada). De facto, após um curto período para afinar o som no salão, a plateia esteve quase uma hora não à deriva, mas solta de amarras para cada pessoa se imaginar onde desejasse, caminhando livremente pelo trilho escolhido por si. Só no final foi revelado que a caminhada foi afinal flutuada e os trilhos eram uma corrente oceânica, quando a Society atracou na América do Norte, a um andamento explicitamente funky – que a bateria evidenciou -, para o qual Ben trocou a harpa pelo tão burlesco piano vertical dos cabarets sulistas e Norberto voltou a dedilhar a guitarra, num fraseado muito típico do smooth jazz. O protagonismo de Joshua estava há muito diluído harmoniosamente naquela música urbanamente xamânica – um paradoxo genialmente realizado!

Quando terminaram, já o público estava despertado pelo animado andamento final e foram todos conscientemente satisfeitos que se uniram naquela efusiva ovação de agradecimento por tão transcendente momento. E uma evidência de que transcendência e superação são conceitos que combinam bem com a Natural Information Society foi o próprio encore do espectáculo, “The Ladder” (o ascendente escadote), última canção do álbum Magnetoception, oito minutos de luminescente recapitulação, durante os quais Norberto Lobo ainda ofereceu o bónus de se recriar com os loops, produzindo in situ todo um horizonte de sons atmosféricos. Tudo ancorado ao terapêutico guimbri de Joshua Abrams.

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