“Esperar por Nina Miranda vai valer a pena”. 50 minutos para lá de sábado, era esta a crença no Titanic Sur Mer antes do tardio concerto dos Kanoa com a cantora dos memoráveis Smoke City. Crença de um público maduro, mas convictamente noctívago, do qual eram mais os cotas que os jovens sub-30. Uns para recuar à juventude de vinte anos atrás, os segundos para descobrir novos sons Em ambos os grupos, a espera valeu mesmo a pena por um concerto que viria a superar as expectativas.

Juventude é enquanto cada pessoa a sentir

De facto, talvez quase todos fossem jovens para descobrir novos sons, já que todos sabiam que a veterana Nina Miranda vinha interpretar composições dos jovens Gonçalo Sarmento e Alex Louza, e a formação do colectivo Kanoa sugeria que também os clássicos dos Smoke City seriam cobertos com originalidade. Outra curiosidade que pairava no ar assentava em qual seria o ‘pulmão’ da brasileira 18 anos após o grande concerto na Expo 98 Lisboa. Uma terceira era quem era a alegre jovem de olhos em bico que subitamente apareceu em cena e esse mistério deixou de o ser prontamente: era Rachel que, vinda de Singapura, fez o teatral papel de compere, apresentando os artistas que iriam actuar.

Os Kanoa subiram finalmente a um palco cheio de instrumentos – kora e percussões além do trio guitarra, bateria e baixo -, e muito a preceito tocaram “Mago do Vento”, a introdução instrumental que rapidamente animou a plateia. Muito groove midtempo que transitou para um samba que prenunciou a vistosa entrada de Nina Miranda em cena, saltando vestida em extravagante estilo new wave. Estavam lançados os dados para um belo momento! Muito sorridente, a brasileira saudou a plateia e as suas primeiras palavras foram sobre o Nordeste e Pedro Álvares Cabral, para recordar a lusofonia que une as margens do Atlântico, num movimentado início mais declamado que cantado, no qual retratou o boiadeiro que monta os “Silken Horses”.

Interpretados dois temas dos virtuosos Kanoa, Nina confirmou a importância das batidas naquele espectáculo apresentando o “mestre Sané” nas percussões e depois Márcio Pinto, que deixou a bateria para uns segundos no indígena berimbau, enquanto Alex passou da kora para o baixo eléctrico. Interactiva, dialogou com o público sobre capoeira (que ela admitiu jogar mal) e deixou a sua melosa voz deambular pelo fluído axé da “Capoeira” dos Kanoa, antes da primeira recordação do Smoke City: “Mr. Gorgeous (and Miss Curvaceous)” em versão bailarico tropical, quando o perfume da sala estava já adequadamente psicotrópico. Nina partilhou o micro com a fila da frente para o público cantar com ela e a seguir improvisou uma spoken word, durante a qual a compere Rachel foi bailar no palco, completando um instante tão party people que pareceu recriação tropicalista da Madchester.

Nina Miranda tinha já evidenciado juventude e simpatia quando decidiu reforçar o charme exibindo bom humor: “O dono deste bar não gosta de brasileiros…”, gracejou enquanto saia do palco. Então, Naty Fred deixou o laptop, foi à frente do palco, pegou na guitarra, anunciou “Acho que ensaiei esta canção toda a minha vida.” e começou a interpretar “Menina Azul”, clássico dos Ena Pá 2000 interrompido pela entrada do anfitrião Manuel João Vieira no palco, logicamente aparatosa. Balbuciou: “Não sei se toco um bolero moçambicano ou português. Ou um fado japonês…”, colhendo imediatas gargalhadas, mas atirou-se a um fado-marcha, “Belchior”, que alegou ser de 1953, talvez para rimar com “japonês”. Nina reentrou para cantar uns muito discretos coros e para cantar com o anfitrião “Norwegian Wood” dos The Beatles, apresentada surrealisticamente por ele e da qual a brasileira troçou dizendo que lhe “dá sono”.

Do clímax esperado ao verdadeiro clímax no fim

Ainda com o anfitrião Manuel João no palco que encarnou o Candidato Vieira para uma breve rábula sobre eleições, ambos declamaram a letra sobre o axé da música. Uma verdadeira performance teatral, na qual simularam uma contabilidade que nunca bate certo como os resultados eleitorais em que sempre vencem os corruptos de que as pessoas dizem estar fartas… E interactiva, porque Nina voltou a incitar o público a cantar com os artistas.

E em medley chegou-se ao instante mais esperado da noite, aquele em que se deu o clássico “Underwater Love” dos Smoke City. Manuel João saiu de cena durante a intro instrumental e Nina perguntou quem tinha calor enquanto distribuia pela plateia borrifadores que se encontravam depositados no palco desde o início do concerto. Foi o tempo para o público ficar debaixo de água e sentir o amor vindo do palco, onde já estava a exótica Rachel a dançar com a diva. Logicamente, todo o salão cantou o clássico e, para a versão se distinguir mais do original, o MC Hael reapareceu para improvisar um rap que fez Nina exclamar “Lisbon is full of talents!”, antes de cantar o final e pôr o público a cantar ao desafio com ela o coro “Ai! Uh!”

Entre canções, Nina Miranda ainda falou em inglês, esquecendo que estava “em casa”, mas entre tanta simpatia, foi ‘castigada’ com risos. Sentou-se no palco embalada pela lenta introdução de “Feminist Man” e acolheu no colo a cabeça do deitado Hael, de quem disse ser “a madrinha musical”. Na plateia, o ambiente estava tão animado que até deu para um homem se declarar de joelhos a uma jovem – insólito digno do burlesco Maxime, cujo espírito o nome Titanic não afundou. A seguir, com a Kanoa nas águas quase paradas da “Shalom Road” onde atestaram as suas boas noções dos tempos, foi mais fácil apreciar a projecção vídeo produzida por Sara Braga, muitas pessoas relaxaram ondulando-se vagarosamente e então a “madrinha’ Nina teve uns minutos para repor o oxigénio que o final do concerto ia exigir. Mas foram curtos os minutos antes da batucada de introdução de “Watching Clouds Relax”, um afrobeat alucinado com um pé no Brasil que Nina pediu a Hael para cantar consigo. Nina apresenta todos os artistas e saí do palco, deixando a Kanoa em jam session transbordando groove acompanhada pelas palmas na plateia.

“Chamem de volta a Nina!” ordenou eufóricamente Gonçalo; e porque a resposta mais assertiva foi a brasileira em tom de troça “Eles não gostaram…”, o guitarrista concluiu “Vocês estão cansados!” Não era verdade, e embora já passasse das 2 da manhã no encore, muita gente acompanhou Nina no canto da versão de “Fly Away” (nome do álbum de sucesso dos Smoke City), um reggae trilingue cantado em inglês, português e no glamo(u)roso francês. E quando Nina improvisou uma ligeira coreografia no final, a plateia gritou e aplaudiu toda a satisfação que sentia. Aquele sim, foi o início do verdadeiro clímax emocional!

Publicado por Titanic Sur Mer em Sábado, 27 de agosto de 2016

 

O público notívago, em êxtase, convenceu os artistas a voltarem para “fazer mais uma” e de onde alguém exclamou “Até às seis da manhã!!”, ao que Nina retorquiu um desafiante “Vamos dançar até às seis da manhã?”. Rachel deve ter entendido a palavra “dançar” porque voltou ao palco para gingar o reggae de “Joga Bossa”, a versão dos Smoke City da famosa “Águas de Março” que os Kanoa gradualmente converteram numa batucada cada vez mais intensa. Nina bem ‘ordenou’ a cada um deles que parasse de tocar, mas a festa era já irreversível e, se não os podes vencer, junta-te a eles: Nina e Rachel adornaram-se de máscaras, desceram do palco, atravessaram a plateia dançando e, ainda cantando, juntaram-se às DJs Lady G Brown e Selecta Alice que, já com os Kanoa também na cabine dos DJs, elevaram o volume e accionaram suavemente a ‘inauguração’ da festa que durou até de manhã.

Música afro-europeia ou afro-americana, foi sem dúvida uma grandiosa noite afro-lusitana!

As imagens de Luís Custódio para ver aqui:

Nina Miranda @ Titanic Sur Mer