Nite Jewel, que passou na terça-feira pela Galeria Zé dos Bois em formato trio, é o projecto synthpop de Ramona Gonzalez, exótica artista norte-americana de origem hispânica que tem desenvolvido um trabalho multidisciplinar repartido por carreiras na música e no audiovisual, área esta na qual já dirigiu alguns videoclipes. Lançado o último álbum em Junho, eram vários os motivos para a querermos ver.

Retrato da pequena ninfa carente

Tendo o projecto um percurso musical interessante mas com horizonte até agora estreito em nome próprio, o público que quase encheu o Aquário da ZDB sabia bem o que esperar da terceira vinda de Nite Jewel a Portugal: uma synthpop musicalmente elaborada – como comprovou o arsenal de teclados e percussão sintetizados com pedais associados -, e liricamente sentimental propícia à dança e também capaz de inspirar ambientes e impressões nos espíritos de quem a escuta. Foi o que aconteceu logo na primeira canção, após o live act da dupla lo-fi portuguesa Migas, com Nite Jewel a abrir a sua actuação com “Nothing But Scenery”, a faixa de abertura do último álbum Liquid Cool que saiu na primavera deste ano.

Naquela letra de desconfiança, receio e fragilidade, cedo foi confirmado que o projecto Nite Jewel se confundem com Ramona Gonzalez e a sua música. Por um lado, porque é fácil supor na pequena Ramona, apesar da curvilínea sensualidade dela, um passado (talvez ainda presente) de insegurança, pela comparação do seu corpo não obeso mas compacto como ginasta – que ela movia austeramente -, com o longilíneo padrão de beleza quase irrealista da América do Norte. Mas ainda mais porque a música de Nite Jewel, ao contrário, por exemplo, do iluminismo solar de Grimes, tem uma disposição efectivamente nocturnal, reflexiva e sonhadora mesmo que dançável: tanto “Over The Weekend” como o onirismo carente que suplicou por “One Second Of Love” (nome do álbum de 2012) são ambas canções que retratam as maiores necessidades emocionais do afectuoso género feminino, reforçando o carisma da Nite Jewel, a quem apeteceu dar um consolador abraço.

E depois há a voz de Ramona – o seu timbre ainda juvenil, limpo e aveludado, alado no beat minimal do recente single “Boo Hoo” que ela assumiu ser a canção preferida de Liquid Cool. É um beat que evoca cenas de jovens circulando velozmente em avenidas urbanas durante a noite, para dançarem num clube até altas horas da madrugada e perderem a cabeça à beira da aurora. Imagens confirmadas pelas muitas pessoas que já dançavam no salão ao cabo de 15 minutos de concerto. E há a terna simpatia de Ramona, que antes de “Boo Hoo” agradeceu ter podido voltar, com o elogio “Vir a Lisboa é sempre a melhor parte da digressão europeia”.

Num alinhamento que destacava canções mais recentes, “Nowhere To Go” instalou irreversivelmente a dança no salão. Este tema robusto – cuja inclusão no famoso jogo Grand Theft Auto 5 permitiu financiar o último álbum de Nite Jewel -, apoderou-se dos espíritos (e assim também dos corpos) na plateia com a força estimulante dos seus cadenciados acordes de sintetizador vintage, eficazmente sucedidos pela temperamental “Kiss The Screen”, ainda de Liquid Cool. Tudo estava agradável, desde a confortável pop do trio à macia voz de Nite Jewel, aumentando a harmonia emocional do recinto. E Ramona sentia isso quando anunciou: “Esta noite temos um set especial para Lisboa, que inclui algo mesmo especial, e estes malucos têm tocado comigo no último mês e agora é o aniversário do Gabe!” que mereceu um coro de parabéns “american way” como ela pediu.

Novas canções e desejados souvenirs

Mais havia para anunciar: “Além de todo aquele espalhafato, vamos tocar canções nunca ouvidas que estão no meu disco, enquanto estamos em Lisboa, e uma delas é esta”. Outro tema dançável, que pareceu ainda inacabado, mas já com estrutura suficiente para ter agitado muitas almas antes de um dos melhores instantes do concerto com “Weak For Me”. O single de Nite Jewel, do já distante Good Evening lançado em 2009, foi uma das canções mais aplaudidas da noite: além de ter exposto todo o lirismo da voz doce de Ramona, fez as delícias de duas gerações – a que amadureceu nos anos 80, dos quais “Weak For Me” é digna herdeira, e a mais jovem que tem feito o revivalismo daquela década do século passado.

“Não tenho mais anúncios” foi a involuntária deixa de Ramona para alguém comprovou que a bisbilhotice dos latinos não é só fama quando perguntou a idade de Gabe. E a resposta “Tem só 23! Não é fixe?” tornou irónico o oportunismo da canção seguinte, a recente “Running Out Of Time”, balada cuja progressão terá feito muitas almas ‘triparem’ por Lisboa e arredores à boleia da sua progressão escapista e do sonhador interlúdio em spoken word que fizeram da ZdB um oásis de fantasia durante aqueles minutos. Sem se dar por isso, a uniformidade estilística de Nite Jewel envolveu o público numa bolha romanesca sem espaço mas com tempo urgente, pelo intenso desejo de romance presente na música de Ramona Gonzalez.

Para não furar aquela bolha emocional, foi em silêncio que o trio iniciou a interpretação de “What Did He Say”, outro dos primeiros sucessos de Nite Jewel, de 2009. Naquele funk revivalista dos anos 80, sentiu-se a sala espiritualmente mais para ‘o lado de lá’, alienada do mundo material à boleia do hipnótico baixo que ondulava quase mecanicamente os corpos. Se a intenção era esquecer economias e horários, “What Did He Say” foi o desejado (anti-)clímax do espectáculo, a melhor chance dos pares ignorarem os olhares alheios. Anestesiado, o público nem protestou quando Ramona alertou que restavam só duas canções, “new song number 2 and old song 1025”, piada que despertou alguns risos.

A recta final do espectáculo começou bem embalada pela house suave do novo tema, prolepse de madrugada emocionalmente evasiva num qualquer Lux frágil como a Nite Jewel. Por isso o “Anúncio 1 a) Esta é a última canção”, após menos que uma hora de concerto, gerou gritos de protesto “no!!” sucedidos por palmas só quando Ramona completou “1 b) Vou fazer DJing já a seguir, podem ficar mais tempo cá”. E sim, quase todos ficaram. A fantasiosa “Another Horizon”, de 2010, ano da estreia de Grimes, é um luminoso convite a desfrutar novos horizontes, também afectivos, de dia e de noite! Não foi um concerto memorável, mas receber a música de Nite Jewel é sempre tão bom.

Nite Jewel @ Galeria Zé Dos Bois

Nite Jewel @ Galeria Zé Dos Bois