No Bra - Candy
90%Overall Score

Susanne Oberbeck trata o mundo por tu e fá-lo através da música, despindo-o violentamente e pondo a nú as suas incapacidades motoras através de uma voz pouco sensual mas que faz sentido suportada por trânsito instrumental. Esta artesã de música convida-nos a entrar numa experiência estupidamente actual e arrepiante, porque tudo o que se ouve é intencional. Por esta razão, todos deviam passar por esta expêriencia. Haverá quem ame, outros que nada disso e outros irão lá de vez em quando, nem sempre, não a toda a hora, nem repetidamente porque No Bra em Candy é para quem gosta de sushi (ou bife tártaro), não por estar na moda mas sim por vir em cru (e por várias razões não será desejável comer disto sempre, a não ser que se queira ficar selvagem e ir à caça todas as noites em qualquer uma grande cidade). Aliás, no tema”Candy”, a letra diz expressamente para não passarmos a linha.

O álbum Candy é parte de uma mulher adulta que se apresenta sem soutien (No Bra) e que pinta quadros cantando-os. Esses quadros são tão simbolicamente duros que é preciso estar-se preparado para os ouvir; são quadros que representam uma sociedade sem suporte (sem sustentabilidade, como está na moda dizer-se), pois aqui não se canta futuro, nem nada de romântico. Canta-se um presente duríssimo de roer. É como se entrássemos numa galeria de arte contemporânea em que “Date With The Devil” seria o quadro maior e ocuparia uma parede inteira; “Do The Dog” seria o mais gráfico e “Super Subway Comedian” seria a tela mais longa em que a capa do disco seria o cartaz perfeito para apresentar esta exposição. No Bra emCandy é resultado de observação e vivência (da própria, sem dúvida, e de cada um de nós à sua própria escala e maneira).

Para complementar este sushi (ou bife tártaro), o molho servido é de humor muito, mas muito, negro. Susanne Oberbeck é a mãe, talvez solteira, desta coisa “doce” que nos entra pelos ouvidos dentro quando carregamos no play, e que nos põe curiosos, embora não nos fazendo dançar de todo. Põe-nos curiosos porque de alguma maneira queremos perceber o que se está a passar ou saber o que vem aí e percebemos que não vem coisa “boa”. Este “doce” não nos põe a dançar mas põe-nos atentos porque, e sobretudo se gostarmos do estilo, vamos querer perceber do que se trata cada música, que quadro é cada música, o que é que cada música representa. Mas atenção: pegando na capa, este “doce” pode-nos dar volta à barriga se não o consumirmos com moderação.

Este disco é fruto do medievalismo moderno que nos rodeia a todos e é cantado para o sentirmos tal e qual dessa maneira. Longe de ser um “doce” fora de validade, é um lugar que todos nós conseguimos visualizar e em certos casos sentir, ora porque já passámos por lá, ora porque já lá estivemos, ora porque já vimos ou já alguém nos contou algo parecido. De resto, conseguimos imaginar facilmente o que nos é dado via ouvido e decerto que a maioria das imagens não são fáceis de digerir, diria até, que é mais fácil ouvir que ver (“Minger” é um bom exemplo).

Posto isto importa, então, questionar o seguinte: depois deste álbum o que poderá vir depois? Mudar radicalmente de estilo? Manter a mesma onda? Falar sobre o quê? E como? É que manter a mesma linha pode acabar com o interesse e “curiosidade”, pode dar enjoos e nunca mais querer comer sushi (ou bife tártaro) – nomeadamente para os que gostam deste tipo de pratos – e fica também a dúvida de como poderá ser ao vivo. Como já foi escrito, este som não é de todo dançável mas se for em formato perfomance/teatral (burlesco/grotesco), talvez o “doce” funcione melhor. Contudo só caberá a Susanne Oberbeck responder, sendo ela a artesã que tipo de produto quererá trabalhar e apresentar. Talvez depois de chegar ao mundo nua se queira começar a vestir, e se mantiver a mesma linha de pensamento é bem capaz de um dia produzir algo para as massas, pois por agora são as massas que a inspiram.