Aos 37 anos, a violinista e vocalista Sarah Neufeld tem feito um percurso altamente rico e variado pelos mais extensos espectros da música. Desde os moldes mais clássicos, passando pela arte sonora e música contemporânea, até às linguagens do post-rock e música para encher estádio, a canadiana, que aos 18 anos se mudou de Vancouver Este para o Québec onde iniciou a sua carreira música, chega à nossa companhia em suporte do seu mais recente disco. The Ridge sai este ano e surge após o seu primeiro Hero Brother e uma aventura colaborativa com Colin Stetson. O Musicbox encontra, então, a artista a explorar mais profundamente não só as possibilidades que os seus vigorosos dedos conseguem germinar junto do violino, mas também um namoro ainda mais intenso com a sua voz que, junto do incrível brio técnico, expandiu-se poderosa e cheia pelas quatro paredes que guardaram um concerto de um rigor cândido e belo.

O espectáculo em si não foi, contudo, um poço de palavreado. Neufeld move-se sobretudo pelos meandros da representação, ainda que abstracta e altamente paisagística. Mantendo-se em silêncio na maior parte do primeiro troço da actuação, reparamos rapidamente que as palavras não são propriamente o campo da violinista que se introduziu a solo com uma alongada peça de abertura, altiva e serena, dançando à volta de um kit de bateria que, vazio, já nos fazia tentar adivinhar o que breve aconteceria. Poderosa, profissional e majestosa, Sarah Neufeld fundiu-se com o seu instrumento com o qual cantou com emocionado empenho à medida que as encostas verdes da Irlanda ou as rebentações do mar revolto em calhaus distantes se ergueram na nossa frente, regelando a mente mas aquecendo o corpo com o portentoso som que se foi criando.

A sua música corre, muitas vezes, pela sensação de nos colocar à beira de um precipício infinito ou numa escalada colossal até ao mais elevados dos cumes. A elevada força dos seus motivos e a expansividade de cada acorde ou melodia, que entram rasgados e ferozes à medida que o arco do violino sobe e desce para criar fantasiosas harmonias, foram fazendo um espectáculo de impingir respeito e admiração mas, igualmente, um de nos pôr a imaginar e a viajar. Outras vezes, são outros tempos que Sarah Neufeld nos dá, outras viagens, umas que já não podemos fazer de avião e que aqui se erguem no mais complexo espectro de cores. Particularmente no início e depois novamente na recta final, Sarah lançou-se a nós no seu modo solista mais puro, trazendo uma linguagem altamente clássica e técnica alicerçada no desempenho e na performance, vivendo conjuntamente com outros harmoniosos mundos como é o caso dos crescendos épicos de uma escola post-rock canadiana ou os orelhudos e emocionantes refrões que foram colorindo a sua estadia.

É, então, com a entrada do franzino e sorridente Stefan Schneider que Sarah desanuvia para se vocalizar e dar a conhecer ainda mais, aproveitando para referir como se sente bem em Lisboa e revelar que uma das fotos presente no seu vinil é, na verdade, em Portugal. A entrada do homem do kit significou, também, uma nova vibração para o espectáculo que se musculou assertivamente através de uma pesada bateria e progressiva inclusão de outros recursos sintéticos a permitir a exploração de caminhos mais electrónicos. Foi nesta fase que descobrimos o quão bem está temperado este projecto de Sarah Neufeld, entre os regimes mais clássicos e os outlets mais experimentais. A descoberta rega de água fértil à direcção mais focada e especializada da sua música, traz à plateia uma oportunidade para se perder nas suas possibilidades, ao mesmo tempo que é convidada a um mágico mundo erguido pela instrumentista.

Outro instrumento foi precisamente a voz que raramente se demonstrou em palavras. Com prolongadas notas onomatopaicas, Neufeld foi criando carregadas mantas de som para deitar suavemente a dureza mais áspera e estridente naturalmente dotada ao violino. Foi também daqui que surgiu a parte mais visualmente performativa do espectáculo, com uma Sarah que cantava firme e gloriosa numa linguagem corporal mágica e deambulante, cheia de serenidade e leio, estendida também à forma como se curvava e andava de violino ao ombro. Quase como caminhando ao sabor das suas notas, foi sentido a música numa relação indissociável como um corpo único a guiar-se pelos poderosos ritmos modernos e os escarpes criados pelas corda, que viveram fortes e mais focados graças à elevação proporcionada pela bateria.

Numa das poucas músicas que incluíram um diálogo mais lírico, encontrámos um dos momentos mais inesquecíveis quando o arco descansou, brevemente, a favor da fricção das cordas para criar saltitonas melodias em delay, conjuntamente com originais e igualmente traquinas apontamentos de percussão com materiais vários, bem como um incrível grand finale onde o violino foi-se processando em tempo real através da pedaleira para criar um mar revolto de notas e nuvens sónicas de escala épica. A performance rítmica, essa, que se manteve essencialmente moderna caminhando ora pelos meandros do rock e explorando muito os motivos da música electrónica e da música orientada para a dança ao mesmo tempo que também colaborou com a teatralidade e a sonoplastia, com mãos, shakers e outros utensílios e retirar das mais às mais exuberantes texturas. A relação do violino com a bateria viveu, assim, de democracia, com ambos os instrumentos a soarem alto e definidos como bases nucleares no seio de canções que em estúdio viveram nas mãos de Jeremy Gara (dos Arcade Fire, tal como a própria).

Toda em sorrisos e placidez, chega-nos perto do fim para nos mostrar a faixa-título. “The Ridge” anuncia-nos a entrada para uma parte final que volta a trazer as paisagens colossais e infinitas da intimidante e poderosa mãe natureza, lá está, sob o mote das alturas. Foi de novo numa tempestade quase silenciosa mas nunca concreta, cheia de drama e sonho, que Sarah Neufeld se despede pensando no regresso que viria mais cedo do que se pensaria quando regressa ao palco para nos perguntar se “queríamos mais notas”. Claro que quisemos e claro que tivemos. Um gigante e extenso cabo nebuloso feito de milenar rochedo começou a aparecer na nossa frente à medida que Sarah nos brindou com uma última e épica composição feita de tanto rigor e profissionalismo como paixão e compromisso. Como é bom existirem artistas que nos ajudam a sonhar logo à noite.

Sarah Neufeld @ Musicbox

Sarah Neufeld @ Musicbox