No derradeiro concerto de uma série de nove espectáculos nos Jardins de Inverno do São Luiz, foi a vez da Tracker Magazine. Quem sorri por último, sorri mais.

Isto é uma história de uma noite de estórias. Porque quem viu o tímido David Santos, a cara de miúdo a ajudar à imagem de aventureiro no planeta dos xilofones, vibrafones e melódicas, e quem vê este Noiserv, exímio executante de uma música inconfundível e incontornável no panorama nacional, explicando as razões de cada tema, situando-as num espaço muito próprio e cada vez mais apaixonante, sabe que nasceu mais um contador de estórias. Daqueles de que precisávamos. Tanto. Nota-se. Somos oito dezenas de crescidinhos e cinco ou seis crianças, num pequeno anfiteatro improvisado numa das mais belas salas de Lisboa, sobre um tapete daqueles que costumamos ver em salas-de-estar sobre o qual está montado o Mundo Onde Se Move Noiserv: uma guitarra, muitos teclados e tantos aparelhómetros e gadgets quase indefiníveis. E sentamo-nos, queixo sobre as mãos, sorrisos, muitos sorrisos, alguns troncos balançam, embalando filhos de colo, num Domingo à noite, três dias antes da véspera de Natal. Não deveríamos estar no Inferno do Shopping, a ultimar preparativos? Não. É manter uma tradição muito antiga, a d’O Concerto de Natal. Porque cada um assiste à Ópera, Ballet ou Vienices que bem entende. Este espectáculo é feito à nossa medida. Intimista por opção, a audiência que encheria um Coliseu dos Recreios num só espectáculo dividiu-se por nove eventos (sim, cada um deles um acontecimento) de Terça a Domingo com duas sessões por dia no fim-de-semana. Todos esgotaram. É obra. Porque é da obra de Noiserv que se trata. Sim, já tem uma. Sorte a nossa.

Entra pelo lado esquerdo do público (por onde entrámos todos, lembremo-nos, para que continuemos situados, da sala onde estamos) e acena. Diz, “Boa noite, obrigado por terem vindo”. Entra “Mr. Carousel”. Ou seja, entra órgão e fica em loop. Entra vibrafone e fica em loop. Entra guitarra para quatro ou cinco acordes, providenciais, sem loop. Entra megafone e a reverbação da voz que produz, em loop. Entra órgão dreamy, sem loop. Entra guitarra com efeito de secção de cordas, sem loop. Mais efeito, menos efeito, mais xilofone, menos vibrafone, mais harmónica, guitarra, caixa de ritmos e aquela voz, tão estranhamente comum quando fala mas, cantada, inconfundível, afinada até que o trinar nos separe deste mundo, um concerto de Noiserv dispensa grandes detalhes descritivos. Sucintamente, e para quem conhece minimamente a sonoridade, fica a ideia de uma execução irrepreensível. Não é fácil. São demasiados instrumentos e seus efeitos, ritmos e seus tempos para um one man show tão perfeito. E por favor, deixem-se de comparações tristes de lugar-comum, o “Yann Tiersen Português” que David Santos nunca foi tem um espaço muito próprio onde se move com um à-vontade incomum.

Segue-se “This Is Maybe The Place Where Trains Are Going To Sleep At Night” e de como trata sobre “Como os comboios andam o dia todo em carris que os outros fizeram e só à noite, quando recolhem ao lugar onde dormem, é que tudo se passa. Talvez fosse bom se deixássemos os carris feitos por outros e seguirmos o nosso próprio caminho”, para depois seguirmos nós por essa sequência de loops que termina em absoluta apoteose de sobreposição de coros. “Bullets on Parade”, do disco One Hundred Miles From Thoughtlessness de 2008 (com uma simpática reedição de 2011), é um dos temas mais antigos a entrar no alinhamento deste espectáculo e “uma das que toquei mais vezes”, confessa.

Entretanto, David enveredou por um caminho mais minimalista. Mas neste tema, a quantidade de instrumentos e samplers usados é tecnicamente exigente. A execução é exímia. Mas o primeiro hit é mesmo este “Today Is The Same As Yesterday, But Yesterday Is Not Today”, que não surge sem a mais longa história e que define, julgamos, este Noiserv de hoje: “Há uns anos, um amigo convidou-me para ir à Escócia dar uns concertos com ele. Quando lhe perguntei onde seriam ele respondeu-me “Someone’s Appartment” e eu pensava que era alguma sala de espectáculos com esse nome. Afinal era mesmo o apartamento de alguém, uma sala de alguém com um tapete no centro, muito parecido com este. E foi tudo lindo. Quando agora o São Luiz me convidou para fazer esta série de espectáculos, eu achei que esta seria a forma mais interessante de fazê-lo. Por isso a minha mãe comprou este tapete no OLX e aqui estou eu”, encantador, não é? Segue-se “The Sad Story Of A Little Town”, que conta a história de uma cidade que tinha um rei muito maior que toda a gente. De cada vez que tentava caminhar pelas ruas, destruía tudo: “Se as pessoas têm todas mais ou menos o mesmo tamanho, porque é que há algumas que se julgam maiores?”, são considerações que, à primeira vista, poderão ser consideradas pueris, mas que deveriam ocupar mais tempo aos crescidos, como, afinal, a música de Noiserv. “It’s Easy To Be A Marathoner Even If You Are A Carpenter” fala das nossas vontades, e como conseguimos se quisermos verdadeiramente algo. Depois, puxa pelo sentimento de todos nós com o icónico tema “Palco do Tempo”, do filme José e Pilar, um acordeão a mostrar-nos que “Há quem viva demais, há quem o faça demenos. Mas mesmo quem está no meio deverá sempre mudar alguma coisa. Importante é não ficarmos na mesma”. Saramago, o próprio, teria algo a dizer sobre isto, por certo. E dedicá-lo-ia a Pilar.

Segue-se outro tema que podemos considerar um hit, pela forma como é recebido (comedidamente, claro, somos só 80), “I Was Trying to Sleep When Everyone Woke Up”. David explica: “É sobre aquela altura em que estamos emocionalmente adormecidos e vale a pena acordar para chorar por outra coisa qualquer”. Depois, anuncia o derradeiro tema, inevitavelmente, um dos mais belos títulos “Don’t Say Hi If You Don’t Have Time For A Nice Goodbye”, cujas razões não ficam por saber: “Os princípios são tão importantes como os fins. Se os princípios não forem bons, os fins não valem nada”. Fica um loop de ritmo de electrónica e ele sai, agradecendo. Mas volta. Explica que este não é só o nono concerto nesta sala, é o 50.º num ano e, por isso mesmo, não se pode queixar de 2014. E deixa-nos com o tema “Bontempi”: “Que não tem uma explicação como as outras, é só a marca do teclado onde toco…”

Avisámos. Isto seria, mais que um relato técnico e pormenorizado, uma história sobre as histórias que Noiserv, ou o David, aprendeu a contar. É, para nós, quase tão bom como uma entrevista. Para os espectadores, foi quase tão bom como estar naquela sala na Escócia. Mas melhor. Muito melhor. E algo me diz que vai melhorar.

About The Author

Related Posts