Primavera. Desde há largos anos que a palavra é mais do que apenas sinónimo de andorinhas, dias mais quentes, dias que começam a crescer ou da subida do nível de pólen no ar. A primavera é agora também representativa de uma revolução em dialectos árabes e de uma cidade dedicada desde 2001 a desenvolver linguagens alternativas. A mesma cidade que é rosto de uma região que clama independência a Espanha, uma região de cultura própria, língua própria e uma forma de estar e respirar em tantas vertentes tão distinta da sua, por agora, madre-España.

Sem desenhar tendências políticas de qualquer espécie, a nós interessa-nos a independência, a palavra independência, o conceito de independência. E isso Barcelona tem para dar, vender e inspirar. Coisa que vem desde há 8 anos a fazer e a transparecer para a edição portuguesa do NOS Primavera Sound na cidade do Porto. A dois dias da divulgação do alinhamento luso, colocamos na mesa os nomes do cartaz catalão que gostaríamos de ver passear pelo Parque da Cidade. A inspiração vem novamente de Barcelona e do cartaz da 18ª edição do festival original.

Como de nomes grandes estão os festivais de Verão já cheios e boa parte dos cabeças de cartaz estão já divididos por uma série de outros festivais portugueses, avançamos com uma dream team de nomes que são, por uma outra razão, essenciais para trazer um pouco da distinção e da real indiependência da Catalunha até ao Douro. Porque o ser independente é uma postura, uma atitude e não uma pose; é uma arma e uma maneira de estar, pensar e abordar a música. Estes são os nomes que gostaríamos que a Primavera colocasse no porão do avião em direcção à Invicta.

Jlin

Jerrilynn Patton é Jlin, dona e senhora maior do footwork de Chicago – género nascido da reconstrução da sua cultura house e do reaproveitamento de estruturas do tecno de Detroit. Patton começou em 2008 a montar uma sonoridade absolutamente sua que lhe valeu até agora dois discos perfeitamente únicos, que mesmo nascendo de doutrinas de som dançantes, se fazem valer essencialmente de predicados experimentalistas e de fusão profunda.

Dark Energy de 2015 e Black Origami do ano passado, que colecionou lugares nas listas de disco do ano em catadupa – 16º na NPR; 10º para a Pitchfork ou 4º para a The Wire, só para referir algumas das dezenas – , são discos que não se confundem no escuro dos clubes mas que se iluminam ao lado de obras maiores de gente como Aphex Twin ou Autechre no que toca a quebrar formas estabelecidas de usar a electrónica para quebra formas.

Sim, Jlin é uma espécie de inception de carácter muito particular e um dos nomes mais estimulantes para definir independência. Aqui há Africa, há metrópoles industriais, há Médio Oriente, há raves narcóticas em bairros abandonados das cidades ocidentalizadas e há um batalhão de ideias a derrubar as barragens que contraem a criatividade. Uma inundação de inteligência musical.

Arca

O venezuelano Alejandro Ghersi tornou-se, em relativamente pouco tempo, um dos nomes incontornáveis no panorama musical de primeira linha. Produtor por excelência de nomes como Kelela, FKA Twigs e Björk, com quem trabalhou no seu último álbum, Utopia, Arca constrói teias electro-experimentais expansivas e profundamente emocionais que orbitam entre cenários caóticos e apocalípticos com uma sensibilidade perfurante e rara.

A produção musical de Arca é intricada e complexa, com fios electrónicos em curto circuito constante com construções oblíquas, muitas vezes desconfortáveis, com disparos de beats que são verdadeiras armas de arremesso em forma de música. O seu álbum homónimo, editado no ano passado e o terceiro longa-duração da sua carreira, chega como um murro no estômago de cada vez que roda. Um privilégio que seria tê-lo por cá.

Ibeyi

Feiticeiras de uma mescla enigmática e cerimonial fruto de uma soul de instinto tribalista e um electro-r&b experimental com laivos de jazz e tambores yurobá nas veias, atirados para um caldeirão de cobre em chamas em zonas do mundo ainda por mapear, as irmãs franco-cubanas Lisa-Kaindé Diaz and Naomi Diaz conjuraram já dois registos de estúdio – Ibeyi de 2015 e Ash de 2017 -, que se tornaram verdadeiros compêndios de magia, enraizados nas terras mais férteis do globo em tradição.

Por entre a tropicalidade de florestas húmidas e a secura das savanas, as Ibeyi entregam duas entradas meditativas, quase xamânicas, que permitem a passagem para um universo entalado algures entre a realidade palpável e o além. Certamente que Lisa e Naomi fariam poções mágicas memoráveis com os pólens primaveris do Porto.

Tyler The Creator

Tyler Gregory Okonma esteve com encontro marcado para Lisboa no ano passado como parte do cartaz do Super Bock Super Rock naquela que seria a sua estreia por terras nacionais, algo que acabou por não acontecer. Com Flower Boy a brotar de uma fusão entre um rap adornado com samples e nuances jazzísticas – que lembra um Nas dos tempos modernos por alturas do seu álbum de estreia de 1994, Illmatic -, Tyler, The Creator nunca se deixou acomodar a um género tantas vezes oferecido de forma estanque, previsível e repetitiva, desafiando em quatro registos de estúdio normas e convenções instituídas com a incorporação de elementos inesperados nas suas composições.

A oscilar entre um hip hop delicado assente em sintetizadores atmosféricos e um jazz de fusão com laivos de soul e letras tão sinceras como pungentes, Tyler vai quebrando barreiras com um sentido magistral de melodia e uma atitude vanguardista na forma como aborda as sonoridades de carácter mais urbano, que entrelaça com tonalidades reconhecidas como mais eruditas. Uma conjugação perfeita com o ambiente relaxado do Parque da Cidade. Cá o esperamos.

Oneohtrix Point Never

Este é território proibido para quem procura melodia, tranquilidade ou música de fundo para um entardecer no parque. Aliás, Daniel Lopatin, o cérebro por detrás do instrumento de tortura chamado Oneohtrix Point Never, escreve música para a antítese desses conceitos. Mais. Lopatin escreve música para ser anti. Uma inspiração para rebeliões, uma inspiração para regressões ao estado mais primário do ser humano, uma inspiração para sonorizações de apocalipses, para relações proto-amorosas entre bestas selvagens e mutantes.

É preciso mais razões para o que querermos pelo Porto? Pronto, o homem parece omnipresente. Oneohtrix Point Never tornou-se em poucos anos uma máquina de compor. Escreveu para Anohni, colaborou com Tim Hecker e FKA Twigs, remixou os Nine Inch Nails, envolveu-se na banda sonora para  The Bling Ring, de Sofia Copolla, e uma das últimas vezes que nos encontramos com eles tinha recrutado Iggy Pop para dar voz a um dos temas da banda sonora para Good Time, totalmente sonorizada pela sua maquinaria pesada, arrastando Val Kilmer para dentro de um dos seus vídeos. .

Fever Ray

Karin Dreijer parece ter esfaqueado de vez os The Knife mas, se o caminho é esta tendinha de horrores electro em que a sueca assentou morada enquanto Fever Ray, felizes são os corajosos que não temem monstros kinky. Plunge, o disco do ano passado que só verá uma edição física a 23 deste mês, afastou Karin dos caminhos mais delicados que tacteava em 2009 no disco de estreia, e criou um electro-conto de terror coadjuvado com uma colecção de vídeos macabros de explícitas conotações sexuais mas sempre com um selo de surrealismo que empola de sobremaneira o universo sonoro sufocante e estranho com que carregou o seu imaginário.

Karin tornou-se há muito uma figura preponderante na criação de novos caminhos no que toca ao panorama alternativo, seja enquanto Fever Ray ou ao lado do seu irmão, Olof Dreijer, nos The Knife. E como os raios de febre da nórdica nunca torraram ao sol português… anda, Primavera, traz lá um Fever Ray.

Spiritualized (with Orchestra & Choir)

Jason Pierce pode ser um cromo repetido por cá, mas não é dos mais frequentes, apesar de já ter pisado o palco do NOS Primavera Sound, tanto em 2012 como em 2015. O que faz com que os Spiritualized tenham um lugar nos dez indispensáveis na edição deste ano da primavera invicta?

Não bastassem os sete discos de estúdio absolutamente perfeitos, não bastasse Jason ser um dos pais de tudo o que tenha a ver com spacerock/shoegaze/neo-psychedelia/dream’n’roll ou lá o que lhe quiserem chamar, não bastasse ser o culpado absoluto de ter inventado tanto os Spiritualized como os Spaceman 3, não bastasse p opus magnificus Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space ter soprado as vinte velas no ano passado e vai não vai até tem alguma primazia no alinhamento do concerto que podem dar cá, ainda por cima vem acompanhado de um coro e uma orquestra.

Pois é… senhoras e senhoras, seria sem qualquer dúvida, para flutuar pelo Parque da Cidade afora, que é como quem diz, no espaço.

Jóhann Johannsson

Numa era pré-Dennis Villenueve, Jóhann Johannsson era apenas um génio mais ou menos escondido que tinha já uma obra imensa de pautas escritas para filmes, peças de teatro, espectáculos de dança, televisão e discos a solo, e que tinha como amigos e colaboradores pontuais pessoas como Stephen O’Malley, dos Sunn O))), Tim Hecker e Hildur Guðnadóttir, ou ainda Barry Adamson – um ex-Bad Seeds e, tal como o islandês, um profícuo escritor de música para a 7ª Arte. Na época pré-Villenueve e pré-Arrival, Johannsson é um dos mais prestigiados compositores clássicos (neo ou não), minimalistas e/ou experimentalistas com várias nomeações para prémios de cinema e, acima de tudo, com uma estética e uma linguagem perfeitamente reconhecível como sua.

Entre farrapos de glitch despontam paredes de violinos, por entre a densidade característica dos músicos islandeses vislumbram-se cúpulas de drone e carrega-se tanto frágeis delicadezas de expansão sonoro como pesadíssimos véus de imagens. Como será que Jóhann Johannsson faz a sua música viver num palco de um festival? Esse é um dos motivos para ele fazer parte dos FabTen. A outra seria estar perante aquele que é provavelmente um dos maiores compositores vivos.

Anna Von Hausswolff

Os conceitos de claridade passaram completamente ao lado de Anna Von Hausswolff. Uma obra ainda curta em álbuns – Singing From the Grave em 2010, Ceremony em 2013 e The Miraculous dois anos depois – definiram-na já como maga do rock experimental… ou será de feitiçarias goth-folk… ou de dark gospel? Seja qual for a forma que a compositora sueca use para conjurar encantos, o resultado final é invariavelmente perturbante, místico e imersivo sem nunca deixar de ser também profundamente catártico tanto para ela como para quem vive deste lado de cá do espelho de neve e canções (sim, apesar de tudo são canções).

Anna Von Hausswolff passou pelo Porto em 2016 como parte do cartaz do Amplifest desse ano e prepara-se para lançar em Março Dead Magic, o seu quarto longa-duração para o qual já deixou o arrepiante vídeo de “The Mysterious Vanishing of Electra”.

The War On Drugs

Quando se põe um disco de The War On Drugs a tocar, corre-se o risco de entrar numa experiência pessoal e hermética como poucas. The Deeper Understanding, o quarto longa-duração da banda de Adam Granduciel, editado em Agosto, permite o desenrolar de um universo paralelo, feito de tapeçarias estendidas por campos de algodão, deitadas sob horizontes intermináveis, que têm a mira apontada de forma perfeitamente alinhada com o coração da América e com as zonas interiores mais insulares do Estados Unidos.

Com o cheiro a feno, dançando em brisas vespertinas em tardes de sol quente a acompanhar qualquer trajecto feito na parte de trás de uma pick-up, quase quase sempre rumo a um copo de whiskey no bar de beira de estrada mais próximo, a viagem feita de imagens é pejada de cenários do midwest, enquanto a viagem sonora se vai preenchendo de momentos verdadeiramente tocantes e de uma autenticidade inabalável e tantas vezes de uma honestidade cortante.

O NOS Primavera Sound decorre este ano entre os dias 7 e 9 de Junho no Parque da Cidade no Porto.