Pois que a vida é muitas vezes injusta e ninguém deveria ter que fazer escolhas, essa condição tão própria da idade adulta, e muito menos do calibre Nicolas Jaar/King Gizzard & The Wizard Lizard ou Swans/Bon Iver/Julien Baker com que o segundo dia de NOS Primavera Sound nos confrontou. Se para alguns estas são fórmulas de fácil descodificação, para outros representam verdadeiros quebra-cabeças, com a tentação de se tentar apanhar concertos por metade – decisão que regra geral resulta também em metade do gozo e em experiências que acabam por se viver de forma bastante flat -, ou fazer concessões de forma firme com os ganhos e perdas que isso implica. A Tracker tentou aligeirar um pouco dessa custosa sina com os roteiros para dia 9 de junho, mas com o amanhecer de dia 10 outros desafios se levantam – porque fica sempre bem parafrasear Camões e os seus Lusíadas dada a importância da data do terceiro e último dia de Primavera no calendário lusitano.

Para o dia 10, a Tracker elaborou também, e à semelhança do dia anterior, três roteiros distintos para cada dia de forma a abarcar várias chavetas, não só etárias como sonoras, numa tentativa de desembaraçar um pouco o imbróglio: ao roteiro porventura mais consensual em que flutuam os maiores nomes do cartaz e, os que concentram a maior atenção mediática, junta-se um roteiro mais alternativo e independente que vai buscar os nomes clássicos aos quais se somam algumas descobertas ou nomes mais obscuros. E porque a Tracker baloiça algures no meio, trazemos um terceiro itinerário que baralha tudo e entrega no mesmo saco. Fácil não se pode dizer que tenha sido, e ao facto de não haver nenhuma bíblia escrita sobre preferências e gostos, soma-se a dificuldade de haver nomes que tiveram, por uma razão ou outra, que ficar de fora com algum travo de injustiça na boca. Importante importante, quaisquer que sejam as escolhas, é tirar o máximo proveito dos nomes que o cartaz oferece para uma experiência que, no final do dia – ou dos três -, se quer próxima do completo. Se já têm o bilhete ou o passe geral na mão, certamente saberão já o que salta para a lista de concertos a não perder, mas para quem ainda não se decidiu, aqui estão os três itinerários da Tracker tendo em conta os horários das actuações.

Dia 10: Roteiro ‘Um pouco menos convencional, mas ainda intemporal’

Há nomes que saltam logo à vista de qualquer olho treinado em cartazes de grandes eventos musicais, e os Metronomy (Palco., 22:10) fazem certamente parte dessa lista. O electro-soul dos britânicos é já presença sobejamente conhecida dos holofotes que iluminam os maiores estrados festivaleiros, mas ainda lhes faltava coleccionar o ‘cromo’ NOS Primavera Sound da sua caderneta de festivais portugueses, coisa que o ano de 2017 vai tratar de resolver. A banda de Joseph Mount e Anna Prior já passou por Coura (2011), pelo então Optimus! Alive (2012), pelo Super Bock Super Rock (2014) e pelo NOS Alive (2015), e como a ausência do ano passado já se estranha, é aproveitar para apanhar as boas vibrações quase new wave que virão certamente dos lados de Devon. Que é coisa que ainda mais pertinente se torna se ainda não tiveram oportunidade de alguma vez o fazer. Quem já conseguiu colar a etiqueta Metronomy no inventário de experiências, saibam que o último álbum Summer 08 de 2016 ainda não foi estreado ao vivo em Portugal e por isso, the time is now. Os Japandroids (Super Bock, 23:20) tão pouco são estreantes nestas lides dos festivais lusitanos e costumam ter por hábito deitar a tenda abaixo com um noise e um punk totalmente submersos em guitarras, facto que desagua quase inevitavelmente nessa coisa tão 90s chamada mösh. A dupla canadiana tem um fresquíssimo catálogo de canções (Near To The Wild Heart of Life, já deste ano) e prometem não deixar pedra por revirar, por isso podem deixar os sumos detox em casa que não irão precisar.

Quem também costuma oferecer rock como se não houvesse amanhã são os The Black Angels (Palco., 01:00) que, oscilando entre o garage e o rock psicadélico, fazem da distorção a bitola com que se medem todas as coisas Angels. As suas canções costumam resultar muitíssimo bem em palco, pelo que se torna uma escolha evidente seguir viagem na nave movida a combustível psicadélico dos texanos no contexto deste itinerário, uma das melhores bandas do momento no género que são, ainda para mais quando têm uma cria discográfica – Death Song -, que ainda nem dois meses de rotação completou. O surf rock dos californianos The Growlers (Palco NOS, 19:50) calha especialmente bem com as atmosferas do Primavera e, para além dos excelentes discos embrulhados numa sonoridade incomparável e leve, prometem elevar numa bolhinha de hidrogénio qualquer plateia que se deixe desaparecer num sonho, especialmente a uma hora que assiste já ao virar do dia. Sampha (Super Bock, 21:00) é talvez a carta fora do baralho quanto à linha deste roteiro, mas o trajecto histórico dos Shellac, que actuam meia hora mais cedo no Palco., atiram-no sem pensar para este menu. Aparte disso, Sampha surge neste rol por responsabilidade própria, sendo um dos nomes pelos quais mais ansiamos ver no Primavera muito por culpa do seu belíssimo debutante Process que mescla a soul com o r&b e o trip hop com nuances experimentais pelo meio. Talvez se pudesse dizer que Mitski (Palco Pitchfork, 21:00), de quem também gostamos especialmente, teria direito a ser candidata ao lugar, mas confrontando a popularidade e a sonoridade de ambos, acabou por ser (infelizmente) preterida. Elza Soares (Super Bock, 18:30) entra no vagão com um bilhete intemporal, e quem não se encontrou com o seu MPB nem no Mexefest, nem na Casa da Música no Porto, nem já este mês no Coliseu de Lisboa, tem aqui uma ocasião a não desaproveitar. Por fim, Tycho (Palco Pitchfork, 02:45) toma o palco talvez numa hora bastante injusta para a sua chillwave, mas vem com a vantagem de vir rodar os botões dos seus sintetizadores a uma altura do “dia” que não oferece resistência nem contestação – e que, por essa razão, irá ser omnipresente em todos os itinerários.

Dia 10: Roteiro ‘Over-35’

Este é aquele roteiro para os corpos mais antigos, as mentes mais nervosas e esfomeadas e que se coloca na encruzilhada da novidade absoluta, da história a acontecer em directo e das evidências de futuro às quais já não se pode fugir. Senão ora vejamos…

De perto vem a Núria Graham (Palco Super Bock, 17:00) que desce numa diagonal subtil com mais de 1.000kms de Vic, na Catalunha, até ao Parque da Cidade da Invicta. 21 anos de uma maturidade musical imprópria para uma presença num corpo terrestre tão curta e apenas um álbum de originais em 2015, Bird Eyes, não são assim tão comuns como isso. Voz e uma guitarra, painéis de paisagens electrónicas em tons de pastel preenchem os espaços vazios que ficam para trás dos movimentos quase sempre suaves e perto dos campos de folk e pop que lhe parecem tingir os acordes. Graham tinha já passado por Coura em 2015, e agora conquista mais uns palmos de território português . Sereno começa o dia, mas de serenidade está o inferno cheio e só a madrugada vai ver a velocidade ser reduzida novamente. De Graham avançamos ainda serenamente e vamos ter com os Wand (Palco.,19.00). Agite-se a varinha de condão do rock e do noise e está criada a primeira muralha de som do dia. Rock bruto e sujo escrito segundo a escola do garage mas abrindo a porta da garagem para deixar entrar o psych e o punk necessário a um som bastante particular que não se aglomera especificamente em torno de nenhum autocolante feito em série. Lançaram três discos de rajada entre 2014 e 2015 e só no ano passado os californianos descansaram os suportes editoriais. Não temam, a inspiração não se esgotou, os rapazes estão só a dar lustro à criatividade nas sombras. Ainda com aquele zumbido bom nos ouvidos? Sim? Então, vai continuar.

Os Shellac (Palco., 20:30) podem ser o David Guetta do Primavera Sound do Porto com presenças em todas as edições da edição mas nem por isso cada aparição deixa de ser um acontecimento incontornável. Não só porque Steve Albini é um dos produtores mais activos das últimas décadas e responsável por discos de nomes como PJ Harvey, Godspeed You! Black EmperorJoanna Newsom, Low, Mogwai, Neurosis, Nirvana (já percebemos a ideia), mas também porque são um dos ponteiros da bússola que norteia o rock alternativo e o post-hardcore das últimas duas décadas com apenas a cinco discos. Se os ouvidos continuarem a zumbir é bom sinal. Melhor remédio para isso continuar a descarga de decibéis com os Death Grips (Palco., 22:00). Dos fracos não reza a história e para os fortes poucas palavras fazem jus ao que se devia dizer por isso dizemos só o que todos já sabem: os Death Grips rebentaram com as fronteiras do compreensível no que toca ao mundo do hip-hop experimental tornando-se numa banda de culto, mas de um culto daqueles bem estranho que arrastam multidões. Já acabaram momentaneamente, já voltaram sem dar cavaco a ninguém, juntam o rap e o punk e o industrial e o que mais for para dar contornos à sua esquizofrenia  mirabolante. O que importa é levantar o pó do chão e das mentes e abrir um fosso para a expansão do corpo e das mentes.

Muito tempo antes de Nova Iorque ter trazido de volta aos grandes palcos o post-punk e as bandas de fato e gravata impecável, existiam os The Make-Up (Palco., 23:30). Nascidos em Washington em 1995 por Ian Svenonius, Michelle Mae, James Canty e Steve Gamboa, os The Make-Up rapidamente se fizeram notar. Eram ferozes, interventivos, agressivos, super cool, politizados e declaradamente comunistas numa América desde sempre avessa ao termo. Quatro discos entre 1996 e 1999 e um até já ao mundo que só voltou a colocar a maquilhagem soul, punk e gospel da banda americana em 2012, quando voltam para uns concertos e… agora, em 2017, para mais uma ronda pelos palcos dos dois Primavera. Tanto quanto são  cool são também perigosos, e um pedaço da história moderna a acontecer em directo. Como não saímos do Palco. desde as 19:00, vamos agora esticar o pernil até ao Palco Pitchfork para mais uma dose punk rock e encontrar Laura Jane Grace e os seus Against Me! (01:20). Grace é a figura de proa da banda americana e o único elemento original da formação que se juntou em Gainesville em 1997. Sete discos essenciais do punk moderno vivem par a par com o papel essencial de Laura Jane na luta pela igualdade de direitos de género e sexual e com a apropriação de elementos folk acelerados e politizados… como qualquer bom punk rock deve ser. Para acabar ficamos mesmo ali, onde Tycho reduz os batimentos cardíacos e a velocidade do som.

Dia 10: Roteiro ‘Tracker’

Porque no meio é que está a virtude, as escolhas da Tracker recaem sobre dois nomes que ainda não se falaram em nenhum dos itinerários anteriores mas que consideramos, em cada uma das suas esferas muito próprias, essenciais. Os Songhoy Blues (Palco.,17:45) descoberto aquando das audições feitas para o projecto Africa Express de Damon Albarn, trazem o punk do deserto do Mali e as noites tórridas de África a partir da capital Bamako à lusitânia pela terceira vez, depois de se terem estreado na melhor incubadora para o seu desfile de paisagens sonoras quentes e multicolores em 2015 no Festival Músicas do Mundo de Sines e reforçado a dose de cheiros e emoções enraizados em elementos orgânicos no Teatro da Trindade Inatel no ano passado. Nada impede – e até se recomenda -, passagem pelo Super Bock um pouco antes se a noite anterior foi bondosa para o corpo o suficiente para as viagens folk serenas de Núria Graham (17:00) até porque o combo Death GripsJapandroidsAphex Twin estende-se numa overdose de euforia e beats antes da descida para um plano zen com Tycho já madrugada adentro.

Foi longa, muito longa a ausência de Aphex Twin, com 13 anos anos arredados dos discos originais. O britânico visitou Portugal numa única ocasião no longínquo ano de 2000 com um concerto em Lisboa e, génio que é da electrónica e um dos nomes maiores de um género que tornou intemporal, facilmente se tornou num nome envolto num culto muito próprio. O próprio Thom Yorke citou Aphex Twin como a grande influência para Kid A, o álbum dos Radiohead precisamente de 2000. O seu último disco, Syro de 2014, pôs fim a um tapete imenso de silêncio que durava já desde 2001 com o lançamento de Drukqs. Sem saber muito bem como, depois de ter feito um vídeo em plenos anos 90, Aphex Twin acabou por se tornar num dos grandes responsáveis por trazer a electrónica dos meios mais underground para as grandes massas, sendo um nome um pouco outsider no que respeita aos nomes que orbitavam na altura em redor do género (The Prodigy, The Chemical Brothers, Underworld). Obrigatório.

O NOS Primavera Sound decorre entre os dias 8 e 10 de junho no Parque da Cidade, no Porto. Consulta aqui o cartaz completo do festival e alguns dos concertos a não perder fora de quaisquer roteiros.