A vida encarrega-se de nos lançar desafios e obrigar a fazer opções difíceis e eis que chegou aquela hora regra geral dramática nos calendários festivaleiros de se fazerem sublinhados quanto aos artistas do cardápio que o NOS Primavera Sound nos apresentou na sua colheita para 2017. Apelando cada vez mais a um público abrangente e diversificado – uma transfiguração ligeira mas notória que tem desaguado progressivamente numa plateia também ela de sensibilidades sonoras desiguais e na qual os over-35 têm vindo gradualmente a perder alguma da presença hegemónica das primeiras edições no Porto e de quase toda a história da sua congénere catalã (exceptuando talvez os anos mais recentes) -, o cartaz da 6ª edição do festival plantado em plano Parque da Cidade do Porto assenta arraiais já esta quinta-feira e com ele traz vários dilemas que para muitos se transformam em verdadeira angústia.

Por essa razão, a Tracker elaborou três roteiros distintos para cada dia de forma a abarcar várias chavetas não só etárias como sonoras numa tentativa de desembaraçar um pouco o imbróglio: ao roteiro mais convencional em que flutuam os maiores nomes do cartaz e, porventura os que concentram a maior atenção mediática, junta-se um roteiro mais alternativo e independente que vai buscar os nomes clássicos aos quais se somam algumas descobertas ou nomes mais obscuros. E porque a Tracker baloiça algures no meio, trazemos um terceiro itinerário que baralha tudo e entrega no mesmo saco. Fácil não se pode dizer que tenha sido, e ao facto de não haver nenhuma bíblia escrita sobre preferências e gostos, soma-se a dificuldade de haver nomes que tiveram, por uma razão ou outra, que ficar de fora com algum travo de injustiça na boca. Importante importante, quaisquer que sejam as escolhas, é tirar o máximo proveito dos nomes que o cartaz oferece para uma experiência que, no final do dia – ou dos três -, se quer próxima do completo. Se já têm o bilhete ou o passe geral na mão, certamente saberão já o que salta para a lista de concertos a não perder, mas para quem ainda não se decidiu, aqui estão os três itinerários da Tracker tendo em conta os horários das actuações.

Dia 9: Roteiro ‘Como coleccionar os imperdíveis’

Os nomes maiores da presente edição do NOS Primavera Sound são os que atraem potencialmente maior afluência. Sem contemplações, o cartaz de dia 9 possibilita uma viagem pelos nomes imperdíveis tendo em conta o mediatismo e a tendência geral.  Sem capacidades activas de teletransporte, é provável que se tenham que descartar alguns minutos do final de um concerto para se apanhar outro… mas escolhas.

Os First Breath After Coma (Super Bock, 17:00) fazem as honras de abertura da panóplia de tons primaveris do dia 9 com a primeira actuação do dia. Uma banda já incontornável no panorama musical nacional, e não só: os leirienses ganharam prémios internacionais e não faltam razões para os ver, numa escala inversamente proporcional e na mesma medida em que já faltam adjectivos para os qualificar. A boa notícia é que não têm que sair do Palco NOS para se assistiram a pelo menos três dos grandes nomes do cartaz deste ano: Pond (17:55) que repetem a dose de 2014 no mesmo festival e continuam a manter-se em exclusivo em datas a norte do Mondego, Angel Olsen (19:50) que regressa a Portugal dois anos depois de nos ter contemplado logo com três concertos e acrescenta as canções de My Woman de 2016 às setlists anteriores, e Bon Iver (22:15) que com 22, A Million, o disco novo a estrear nos palcos nacionais vem compensar a ausência de cinco anos frente a um público lusitano.

O dia não fica completo sem os Whitney (Super Bock, 18:50) que trazem os ventos de Chicago em Light Upon The Lake, o seu único registo de estúdio, depois de passagem no ano passado pelo Vodafone Paredes de Coura e o Vodafone Mexefest, Hamilton Leithauser (Palco Pitchfork, 00:00), o señor The Walkmen que já actuou na edição de estreia em 2012 com a sua casa-mãe e que regressa agora em nome individual com mais um álbum na bagagem – I Had A Dream That You Were Mine de 2016 composto em parceria com Rostam ex-Vampire Weekend -, isto já depois de em 2014 ter feito um pit stop pelo meio em Coura. As electrónicas experimentais de Nicolas Jaar fecham a noite dos nomes maiores do festival e promete a maior concentração de beats per capita do dia como aquecimento para os DJs que se seguem.

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Dia 9: Roteiro ‘Jornada de um verdadeiro indie’

Fazer check nesta lista implica assistir a algumas das bandas que fazem a história da música numa dimensão temporal mais alargada e que entram por isso na categoria dos clássicos, como outras mais recentes que entram para o rol de revelações a assinalar.

As primeiras sonoridades a surgir após Abandoned Apartments de 2014, o seu último registo tecido com uma estética sonora primariamente nocturna e obscura espraiam-se em “Demons”, o novo single de avanço para a mais recente colecção de temas que 2017 há-de ainda revelar para Jeremy Jay (Palco., 17:45) numa carreira que já nos deu cinco álbuns em quase dez anos. Mostra-se como uma alternativa menos óbvia e um pouco mais negra que a psicadelia dos Pond que tocam sensivelmente à mesma hora no Palco NOS.

Os Sleaford Mods (Palco., 20:30) trazem um pouco da sua Inglaterra mais in your face, de língua afiada, poucos filtros e pendor sonoramente mais hooligan no sabor indomável e rebelde nas English Tapas que nos puseram na mesa em março passado, uma iguaria que se poderá degustar durante alguns uns minutos de passagem os eternamente jovens Teenage Fanclub (Super Bock, 21:00), esse enclave indie tradicional elevado a instituição mundial que chega directamente da Escócia com nada menos que onze enciclopédias rock que desde 1990 endoutrinam almas de qualquer esfera etária. A não perder se se quiser uma experiência mais transversal. Ainda na categoria dos nomes historicamente relevantes, englobam-se os Royal Trux (Palco., 19:00) de Neil Hagerty e Jennifer Herrema, a menina que não quer crescer nunca, regressados que estão desde 2015 após catorze anos em que mergulharam o seu noise rock num silêncio profundo.

Uma das grandes revelações de 2016 com uma entrega da folk mais doce, Julien Baker (Palco Pitchfork, 22h30) protagoniza talvez a escolha menos óbvia num horário nobre em que os outros estrados do recinto acolhem as actuações de Bon Iver (Palco NOS, 22:15) e Swans (Palco., 22:00), constando como um nome difícil de descartar, particularmente se temos em conta as paisagens sonoras de campos infinitos torrados pelo sol. A cantautora traz apenas o seu disco de estreia – Sprained Ankle do final de 2015 -, que reuniu à sua volta uma voz unânime da crítica quanto à sua qualidade. Skepta (Super Bock 23:55) e os Cymbals Eat Guitars (Palco Pitchfork, 01:20) encontram-se ainda na categoria de ilustres mais ou menos desconhecidos, embora a carreira do britânico representante do grime no NOS Primavera Sound seja já consideravelmente longa, enquanto a dos nova-iorquinos com o seu indie-shoegaze e mais qualquer coisa de punk musculado e cheio roça já os dez anos. Demasiado tempo e demasiado bons para se manterem nas esferas mais desbotadas das antenas mais alternativas por muito mais tempo.

Dia 9: Roteiro ‘Tracker’

Apesar de toda a ambiência sedutora de Julien Baker e o indiscutível poder de atracção de Bon Iver, a escolha da Tracker recai, com algumas reticências é certo, para o concerto dos Swans de Michael Gira, que se apresenta no NOS Primavera Sound com uma formação que não verá mais – nestas coisas é sempre preferível dar o benefício da dúvida e dizer “até ver” -, os palcos enquanto tal. Incontornáveis e obrigatórios em qualquer catálogo nem que seja ligeiramente alternativo, os Swans (Palco., 22:00) regressados em 2010 após Gira ter posto um ponto final na continuidade da banda para se dedicar a outros projectos -, chegam ao Porto com um percurso discográfico experimental invejável e recheado de clássicos num terreno criativo imensamente fértil. Uma escolha até para nós difícil, tendo em conta os momentos oferecidos em outros palcos, mas assertiva. Nicolas Jaar, a actuar à mesma hora que os King Gizzard & The Wizard Lizard (Palco., 01:00) representa porventura um dos maiores dilemas do dia 9, até porque é para nós um dos nomes maiores da electrónica experimental, dono que é um dos nossos álbuns favoritos de sempre (Space Is Only Noise) de 2011. Ainda assim, os cinco álbuns que os australianos têm previstos para este ano ajudam a justificar a escolha, que será certamente confirmada com um concerto que, com grande grau de fiabilidade, ficará na memória de todos, muito à conta da presença carismática da banda em palco com as suas apresentações ao vivo particularmente vibrantes de duas baterias a disparar psicadelia por toda a parte.

O NOS Primavera Sound decorre entre os dias 8 e 10 de junho no Parque da Cidade, no Porto. Consulta aqui o cartaz completo do festival e alguns dos concertos a não perder fora de quaisquer roteiros. Os itinerários de dia 10 encontram-se aqui.