De uma maneira ou outra, e numa era de estilo, formato e conceito, o artista global entendido como aquele cuja arte e voz faz o apelo aos temas universais e une os povos sob uma humanidade que pretende desfazer as barreiras dos interesses e das ideologias, está a desaparecer. Culpe-se talvez o estereótipo (vastamente empolado e até certo ponto injustificado) que paira sob figuras como Bono: é uma direcção, que neste mundo de cibernautas cépticos e ditos niilistas sempre mais pertinentes que os outros, é vista como “foleira”, “irritante” ou “ingénua” e não tem real importância na vastidão indiferente que são os dias de hoje, enclausurados na ocidentalização fechada sob si mesma, na redoma virtual e anónima, onde cada um faz a sua cena.

O cerebral acaba por ser o novo social e é em alturas em que ainda se discute ardentemente se o vaporwave é ou não um estilo digno de referência, que um concerto como aquele que PJ Harvey veio dar ao NOS Primavera Sound 2016 atinge contornos muito pertinentes. Trazendo consigo o seu mais recente The Hope Six Demolition Project, uma extensão geográfica e social de uma demanda humanista iniciada em Let England Shake, Polly Jean não só se está a aprofundar ainda mais como uma consciente artista cidadã (cujo status permite expandir essa consciência a quem a ouve), como está a criar belíssima e poderosa arte com as imagens e experiências que absorve de viver neste mundo, por mais cruel e maltratado que este muitas vezes possa ser.

É, portanto, arte que não vive apenas do génio criativo e interior de um artista, mas que tem também pulmões e coração; arte que respira porque cheira a terra e pólvora, onde se ouve o rebuliço da fila do pão ou o silêncio gélido dos escritórios burocráticos. Para além de ser uma belíssima experiência estética, é mais do que o uso destes mesmo símbolos para o fim de um concerto ou de um disco. É um espectáculo com textura e com relevo, que não funciona como escape, mas que nos coloca a pensar no mundo real que todos nós pisamos. O concerto da musa britânica foi urgente para nos pôr todos em contacto com lado terreno da vida, hoje em dia tantas vezes desprezado e anestesiado, e por fazê-lo em forma de viagem (quase física) cujo veículo de luxo foi a completíssima persona artística de uma mulher tão fascinante e magnética que é PJ Harvey e todo o seu imaginário feral.

Vestida integralmente em preto, num justo e elegante vestido curto de longas mangas e ornada com uma coroa de penas negras, PJ Harvey apresentou-se como uma sensual feiticeira-corvo, balançando-se à volta do palco e enchendo-o com a sua portentosa voz ao lado de uma luxuosa banda de acompanhamento. Juntos, os músicos ergueram em corpo um trabalho artístico que amplia a sua magnitude e sentido num concerto. As histórias que Harvey conta no seu mais recente disco, fruto de viagens a Washington, Afeganistão e Kosovo, foram escritas de forma tão sublime como áspera. Esta ficção muito real é obra prosaica de alta qualidade literária e o seu conteúdo alarmante e revelador cumpre o seu derradeiro objectivo na partilha. Mais do que em disco, estas canções são para ser cantadas e ouvidas na presença de comunidades e multidões. É o tipo de arte que nasce para ser mostrado in loco, com toda a circunstância e lugar, e cuja feliz universalidade e apelo abrangente a coloca tão pertinente numa casa de espectáculos como num ambiente mais disperso como um festival de música.

A experiência sensorial de ter a artista diante nós torna todas estas letras e mensagens mais vívidas; a força de uma singular voz e os arranhos das percursões bélicas furam-nos os ouvidos, como as próprias escavadoras que demolem os velhos bairros que o projecto Hope VI nos Estados Unidos pretende substituir por residências mais caras onde os próprios moradores não conseguem pagar para viver. PJ Harvey usa a força da criatividade e a sua capacidade de reproduzir e de criar fortes experiências estéticas para a pôr ao serviço da consciencialização e da informação, algo que é louvável pela conexão tão física posta ao mundo real e das pessoas. Mais ainda fica quando não é feita em regime de sermão. O concerto não foi uma missa, mas antes um forte espectáculo, encantado, fictício e folclórico, livre o suficiente para a dança e o canto e simultaneamente uma intervenção perene e pertinente. Não há uma missão de insurgência radical na agenda desta cantora. Através de uma consciência global e uma vontade experienciar e buscar a verdade através das suas viagens, a sua revolução faz-se no relato destas histórias, na sua partilha e na cor que lhes deu com o seu talento, que assim irão connosco para casa e lá ficarão para serem pensadas.

É arte realmente a servir a vida e o mundo e encontrar-se com eles de forma tão bela. É uma intervenção que não vive de um papel social ou de uma postura. Não se fala aqui de uma cerimónia solene. PJ Harvey sabe o quanto vale a sua obra – o seu objectivo e que formas ela tem para a fazer viver dentro do pensamento das pessoas através da sua mensagem -, para poder dar um concerto em paz. O conteúdo gráfico e literal das suas mais recentes letras evidenciam uma realidade dura e inóspita, mas o engenho e a coragem que a cantora tem para fazer destas imagens poderosas armas de paz através da canção, é razão suficiente para ter o respeito e admiração que tem. Até porque antes de abanar fundações, é preciso abanar corações. Que continue a fazer tão bem o seu trabalho e que este tipo de dever artístico nunca vá embora, pois é uma das mais valiosas formas de a Humanidade não perder o leio que tem com a Terra.

Numa nota de esperança, pertenceu a PJ a enchente maior que o festival registou. Se alguma coisa, um pequeno e feliz sinal que o Mundo ainda anda atento à sua sonante voz. Continuemos a partir daí.