Tal como já tem sido geralmente reconhecido e como a própria Tracker já teve a oportunidade de verificar nos pontos altos da edição deste ano, a chancela Primavera Sound encontra-se fortemente associada não só ao padrão coerente e sólido dos artistas que lá vão tocar, como também da própria fauna que costuma atrair. O festival não é propriamente um evento de gente jovem, mas também não é de certeza uma convenção de velhadas, apesar do anual apelo que sempre vai fazendo aos registos mais veteranos que trouxeram gentes como The Replacements, Pixies, Echo and The Bunnymen, Patti Smith e, especificamente este ano, por exemplo, Brian Wilson e PJ Harvey (e até certo extento, os próprios AIR). O Primavera assume-se, antes, como um encontro de gerações, onde o novo vem aprender com o velho e o velho vem reviver a juventude e a História e, no limite mais optimista, aprender também com o novo.

Dito isto, há uma atmosfera (devidamente adaptada e condicionada ao espaço onde se passa o evento) que se foca fortemente na música, na vontade de descobrir e na vontade (re)encontrar aquela banda incrível que sempre se quis ver. É, portanto, um festival para quem quer música, para quem vem com um objectivo definido que passa mais pela primeira fila no concerto do que no spot ao pé do bar. Que estas palavras não sejam mal interpretadas; o NOS Primavera Sound 2016 não foi um poço de seriedade nem um evento de elite que não nos permitiu ser quem éramos: as pessoas dançaram alegremente e o headbanging e os moshpits durante os espectáculos de Dinosaur Jr. e Ty Segall evidenciaram, certamente, uma juventude com ganas e raça de se divertir. Ainda assim, a ponderação e a maturidade de um evento devidamente (e louvavelmente) apetrechado para as famílias (foram várias as comoventes amostras de gerações inteiras, reunidas em conjunto para assistir aos três dias de espectáculos), foi o registo que mais fortemente se expressou pelo evento.

Animal Collective @ NOS Primavera Sound

Nada contra isso, é na verdade, fantástico, existir um sítio belo e organizado que permita a qualquer pai poder ter três dias com o filho e partilhar com ele pedaços do seu passado ao mesmo tempo que encontra a novidade das novas gerações, mas é à luz desta dita maturidade que não deixa de ser curiosa como a mesma se vai encontrar com os Animal Collective, eternos “homens-criança”, e se deixa polarizar por ela. Notórios colossos da nova geração, os norte americanos de Baltimore conseguem ser simultaneamente uma das mais amadas e incompreendidas bandas dos dias de hoje, até por quem se diz true fan, e sua idiossincrasia consegue testar os limites, inclusivé das mentes mais abertas. O grupo acabou por não registar uma enchente tão grande quanto se poderia esperar, que em retrospectiva, foi significativamente menor do que grupos como Moderat e PJ Harvey, mas uma fiel base de fãs (mais jovem de que crescida) aconchegou-se junto das primeiras filas, alheia à pequena chuva que se fazia sentir.

Os Animal Collective, assim, vieram trazer na primeira noite do NOS Primavera Sound 2016 uma vibe tanto mais rara como preciosa: o feliz dom da espontaneidade e da criancice . Entende-se, contudo, que se tenha de fazer um certo esforço de adaptação para ver um concerto destes: quando não está a ser extremamente estranho e disconexo, o grupo pode soar maravilhosamente orelhudo, mas ainda assim não funciona como uma banda de hits. Isto no sentido em que raramente as suas setlists se fazem em função das canções em si, mas antes numa espécie de leito que, visto de fora, parece algo aleatoriamente administrado. Dito assim, quem vai pela expectativa de ouvir o seu som, corre o risco de ficar desiludido. Num alinhamento que encontrou duas faixas antigas (“Loch Raven” e “Daily Routine”) entre o desfile do mais recente e algo do polarizado Painting With, a melhor parte de ver os três membros base (mais um talentoso baterista) foi precisamente testemunhar como é que seres humanos conseguem erguer ao vivo um som tão abstracto e transgressor como é o deles.

Os momentos altos foram certamente como a banda trabalhava os seus interlúdios e transições para a música, lentamente transformando a anterior num novo producto. Com recursos tão apelativos como impressionantes – dos quais se destaca a hipnotizante simbiose entre o histerismo bélico de um Avey Tare guerreiro e o tribalismo melodioso do shaman Panda Bear -, a forma como os músicos manejavam a música, tirando e adicionando cores, colando e sobrepondo texturas, foi a mesma que se vê nas crianças quando brincam com plasticina. Com a sua presença algo reminiscente nas coloridas ilustrações presentes no palco, Picasso uma vez disse que levou toda a sua vida a tentar pintar como as crianças, uma premissa que os Animal Collective revelaram ter completado na sua mais recente visita portuguesa. A forma como organizavam os seus ritmos e melodias, a assincronia dos seu gritos estridentes e urgentes lembraram acima de tudo como uma criança entusiasmada poderia estar aleatoriamente a premir os botões das suas complicadas maquinarias, algo que foi tão cândido como inspirador de se testemunhar.

Num festival com uma média de idades à volta dos 30 anos, foi o dever e missão dos Animal Collective reduzir esse número pelo menos no sentido mais espiritual. Uma preciosa lição em espontaneidade, descoberta e negação aos hábitos mais conservadores da mente, bem como uma preocupação maior em sentir a sinestesia do que a própria setlist. Os presentes certamente agraciaram-se com as gotas de juventude que metaforicamente e literalmente caíram no céu, gotas de uma mensagem de interesse e apelo mais que universal: é bom ser pequeno e entusiasmado pela vida. Os próprios, dispostos sobre um palco-toca cheio de luzes (ou tochas), obtiveram até contornos de respeitosos shamans e mentores, conduzindo um profético e revelador ritual tribal, acentuado pelos ruídos dos estridentes dos tambores e os padrões repetitivos dos cânticos. Do lado de fora, os aprendizes que sob a chuva que dançava ao vento, reagiam entusiasmados com danças estranhas e sorrisos rasgados, à porta da caverna da iluminação.

Alegoricamente, estes figurativos homens das cavernas com as suas condutas primitivas, longos anos derivativos de instintos que agora surgem refinados na perfeição da execução mecânica das canções, vieram ao NOS Primavera Sound 2016 partilhar com público português a feliz sabedoria de não se saber assim tanto e de ansiar esperar pelo inesperado. Ao mesmo tempo, souberam ser vibrantes e bem humorados sobre isso, entregando os momentos mais coloridos e descomprometidos do festival, que em certa maioria, não lhes conseguiu resistir. Sempre muito mais musicais pela sensação e rotina do que propriamente pela técnica, os Animal Collective fizeram de um festival eminentemente adulto, uma bela creche, sucesso que merece todo o mérito, dada a importância e dificuldade desta demanda num mundo como este. Por cá, ficamos gratos.