É frequente nas denominadas “conversas de café”, quando se quer descrever a força de um concerto musical a um amigo, utilizar o impacto das expressões “eu FUI a música“, ou “etéreo… foi divino“. Uma das mais comuns é certamente “foi transcendental“. A frequente recorrência ao lado mais religioso e espiritual vem muitas vezes ao de cima, até em pessoas que não se consideram assim tanto donas dessas dimensões. E quem as pode culpar? Talvez um pouco mais que o cinema ou literatura, música surge desde a sua génese com o objectivo e (possivelmente) melhores possibilidades e recursos de levar o ser humano a pontos mais abstractos e gasosos, com muitos artistas ao longo dos tempos a fazer desse percurso a sua missão.

O NOS Primavera Sound 2016 trouxe, na sua noite inaugural, precisamente dois grupos cuja transcendentalidade é uma das mais sonantes características que lhes é apontada. São mundos de diferença que separam os Animal Collective dos Sigur Rós, mas cada um à sua maneira encontra a sua forma de se desprender das barreiras físicas e revelar os admiráveis mundos novos que nascem com a sua música. Actuando primeiro, os segundos tendem a escolher caminhos mais eminentemente longos e altivos, próprios da escala que a sua música carrega e algo que resultou num concerto sereno e revoltado, minimalista e maior que a vida e um turbilhão de sensações e visões que carregaram com eles o cunho de memorável. Algo que é de mérito da própria performance individual, mas carrega também consigo a aura de uma banda que faz questão de ser infinitamente diferente para cada um de nós. Mais do que só um concerto, a Tracker eflecte aqui uma banda.

Os gigantes islandeses apresentaram-se no NOS Primavera Sound 2016 com um desenho de palco especial inserido por si só numa tour diferente que agora conta apenas com os três membros fixos a fazer a música. Apresentaram-se em palco então como a versão mais esquelética possível dos Sigur Rós, encolhida até, pela saída de Kjartan Sveinsson em 2013. Este facto à parte foi arrebatador, e em certa medida surpreendente, uma vez que demonstrou como uma banda que decide despir-se até às suas fundações básicas consegue, ainda assim, soar tão cheia, tão viva e poderosa. Procederam então a dar um espectáculo com alta intensidade, grande produção e emotiva exuberância. Um gutural som que saía das mãos de três músicos e trazia até ao Porto a violência do mar e a fúria dos trovões, mas também o doce som do convívio e o feliz desenleio que a música deles faz à imaginação, permitindo-nos esculpir as mais diferentes paisagens.

A este ponto, os Sigur Rós chegam ao palco NOS com uma relação já mais que construída com a maioria das pessoas que os vieram ver. O seu sucesso não é de agora e o namoro com Portugal já data de anos, como as sucessivas visitas dos islandeses evidenciam. Este facto torna, por isso, o concerto de uma banda que se prepara para entrar no círculo dos veteranos alvo de algumas preciosas nuances. Quando “Saeglópur” é entregue à terceira dose, a mesma vai ser recebida de acordo com o percurso de cada um dos presentes que estão a assistir. Música com (numerosas) histórias individuais que ao vivo brotam uma nova vida. Os Sigur Rós convidam-nos a sonhar e a relembrar, levam-nos até à primeira altura em que lhes encontrámos a música e com quem a partilhámos. É um exercício interior algo universal mas aqui acentuado por um carácter místico que é inerente e próprio à banda, tão hábil a fazer-nos viajar pelas paisagens naturais e exóticas que a eles lhes são pressupostas como até ao fundo das nossas recordações e vivências.

Ainda assim, tal como a melhor música, não são uma banda de implosão, ou contenção. Os Sigur Rós carregam um estalo forte, são feitos para a catarse e para a explosão, são uma banda de partilha e comunidade, reservada agora para espectáculos gigantes e megalómanos, mas sem perderem a vitalidade que é proximidade com as pessoas. Portanto, adequadamente, o concerto no NOS Primavera Sound 2016 não deixou de ser um hino às cores, às luzes e à vibração de dezenas de milhares. Revestido de fantásticos valores de produção, não faltaram momentos dignamente cinemáticos, desde a conjugação de fumo e luzes para simular violentas labaredas ou colossais ondas de maresia até ao silêncio sepulcral que evolveu os solos vocais de Jonsí Birgisson. Chegou até a ser curioso o debate que nossos olhos tiveram de fazer, por lado procurando estar cerrados para criar as suas próprias imagens, por outro não conseguindo resistir às belas e hipnotizantes quimeras que aconteciam em palco.

Desde a melosa cantiga chamada “Vaka”, passando pelo percurso por vezes fracturado de “E-Bow” e assentando na encore “Popplaggio”, os Sigur Rós levaram o Parque da Cidade numa viagem sónica, visual e harmonizante. O que esta banda faz pode ser caracterizado como arte no mais alto patamar do termo: uma conjugação de experiências, sensoriais e emotivas, uma estetização da vida que não tem por base a ficção, mas sensações reais que conseguem ser evocadas e reproduzidas com o peso de uma guitarra tocada por um arco e algumas notas de um canto inventado. Tudo características que trazem ao de cima o poder mais intenso da arte: a capacidade de ser humana e de trazer, assim, a união. De olho aberto ou fechado, foi impossível não ter levitado durante uma hora e meia de uma experiência intensa e absolutamente cristalina. Foi transcendente, e não só de contornos.

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