Polly Jean Harvey foi esperada no Coliseu dos Recreios como os amantes esperam pela noite, diria Patti Smith. Havia quem tivesse dificuldade em controlar as emoções e a ansiedade de ver a artista britânica que chegou ao Coliseu para apresentar, principalmente, The Hope Six Demolition Project, o seu último registo discográfico. Um álbum que retrata a podridão humana mas que, em última instância, deposita esperança na humanidade. O disco é também um projecto que representa, através dos seus temas carregados de drama, sangue, morte e doenças venenosas à guerra, o mundo que os tempos hodiernos atravessam. A escuridão é arrancada pela voz vibrante dos saxofones que maculam os corpos da Santíssima Trindade. O inferno é, então, a terra carregada de pecadores enjaulados numa teia de aranha. Este é o ritual fúnebre: o cemitério deleita-se com a real queda da humanidade. Os partidos de extrema-direita começam a ganhar a sua voz e a serem estrelas mediáticas nos órgãos de comunicação social. Os refugiados são, antes de o serem, náufragos de um oceano banhado por mortos que nos assombrarão para toda a história. O Estado Islâmico é, aos olhos de muitos, o rosto de uma religião assassina e bárbara que chegou para aniquilar o mundo. O nacionalismo exacerbado exerce o resto: actos xenófobos, racismo e ódio. Talvez seja este o perfume do capitalismo a espalhar a sua fragrância pelo mundo. Mas, tal como Leonard Cohen diz, “there is a crack on everything that’s how the light gets in”: e eis que, na escuridão de Harvey, existe uma luz. Uma luz que necessita de ser procurada e encontrada e que precisa de morrer e renascer. O concerto de PJ Harvey no Coliseu emoldurou estas temáticas e o público sentiu-o de uma forma indelével. Se Harvey era um anjo negro, a audiência seriam os demónios que a alimentavam, e disso restava apenas uma coisa: a catarse dos que ainda podem ser salvos.

A catarse dos que ainda podem ser salvos.

O Coliseu apresentou-se à plateia com a sua belíssima moldura. O público preenchia os espaços até que ninguém coubesse mais nesta tão emblemática arena. O palco encontrava-se munido com os instrumentos musicais que, no contexto que vieram trazer a Lisboa, se assemelhavam a armas de guerra. Porém, conversava-se e debicava-se cerveja de rostos a expressarem o paraíso. Mas não tardaria que o inferno de Harvey (ou o nosso?) chegasse para arrombar todas estas almas. Era muito o calor, e entre o suor e o bafo que impossibilitava a tranquilidade do espírito, captavam-se e registavam-se para memória futura todos os momentos, na alma e nas câmaras. Todos os que se encontravam na zona dos camarotes esperavam ansiosamente de pé. Eis que as batidas dão o mote para a entrada de PJ Harvey e a banda no palco, cheios de teatralidade arrepiante numa visão que se assemelhava a um ritual místico de uma tribo indígena. Os tambores iniciam a marcha fúnebre e “Chain Of Keys” foi o tema escolhido para abrir as hostilidades. A frieza vinda da voz de PJ congelava o calor até chegar aos ossos, entre a película dos olhos que derramavam algumas lágrimas entre a plateia. Este misticismo traduz o novo rock de PJ Harvey: cheio de pesadelo e com as guitarras a acompanharem o expoente máximo do jazz vindo dos saxofones tão obscuros como o corvo de Edgar Allen Poe.

Exalta-se a voz de Harvey, uma voz de deusa tempestuosa a criar furacões nos corpos de todos os ouvintes. O palco presenciou uma das performances mais reaccionárias de sempre: o silêncio inerte do público transformou-se em aplausos e gritos de êxtase, que abriram a passagem para uma participação mais activa por parte do público. Os corpos moviam-se na plateia, sentia-se a música entranhar-se na pele e mergulhava-se numa espécie de procura identitária. Esta é corrente de energia que traz a poesia de Harvey demonstrado, principalmente, neste seu último álbum. “The Ministry Of Defense”  é apresentado com um coro que emerge das trevas da realidade. As guitarras perturbam a mente como se de trovões no céu escuro da noite se tratasse, acompanhados com chuva e muito vento vindo dos saxofones e das batidas vindas da precursão. A catarse começa a partir de “The Comunity Of Hope”, onde PJ retrata a sua viagem de forma mais clara, que viajou na companhia do fotojornalista Seamus Murphy – há habituado à convivência com vários cenários de guerra como o Afeganistão e o Kosovo, e também por Washington DC, o que até levou à criação de um livro de poesia e fotografias que dá pelo nome de The Hollow Of The Hand. Assim se iniciava uma nova viagem no Coliseu com o público a sentir e a ver a sua visão através da voz de uma PJ que se manteve sempre numa postura compreensivelmente bastante fria. O diálogo com a plateia revelou-se escaso, mas tanto nos disse, tanto nos sussurrou, tanto nos magoou e, por sua vez, a plateia fazia a sua incrível ovação enquanto louvava a performance de PJ e da banda. Estávamos perante uma performance fundamentalmente ideológica.

“Let England Shake” viu-se acompanhada do bater do pé no chão do Coliseu, fazendo-o estremecer. Mas o clímax foi proporcinado com “Dollar Dollar”: vozes de falam árabe em pano defundo trespassaram a imaginação de cada um. Um filme no meio do pó. Carros e pessoas movimentam-se sob um sol escaldante. “Dollar Dollar” conta a história de uma criança que pede dinheiro na rua. Normalmente, os pedintes só necessitam de aprender uma palavra: dólar. “He’s saying dollar dollar” com um coro que traz uma dramatização imensa à música. Fez-se uma espécie de retrospectiva momentânea. O seu belíssimo solo falou connosco sob uma espécie de blues criado fora da sociedade ocidental. Esta era uma conversa sobre a realidade de pessoas que não têm nada a perder, a não ser a vida. Talvez nos tenha feito lembrar de Bob Dylan: “How does it feel / To be without a home / Like a complete unknown / like a rolling stone?”. Explodíamos, então, com “The Wheel” e PJ Harvey desfilava com o seu saxofone quando se espera uma Harvey de guitarra ao punho. No entanto, foi ainda melhor vê-la com este instrumento, dando-lhe o peso de uma nuvem a meio voo. O tema fez o público escutar mais uma vez com o coração, a profecia de PJ Harvey.

Passada uma hora e meia de concerto, a artista britânica apresentou os excepcionais músicos que a acompanhavam: foi esta a única vez que se dirigiu ao público. “To Bring You My Love” seguiu-se, deixando a plateia em euforia com o seu blues electrificante e contagiante. PJ chegou para nos mostrar que a música é uma forma de educar e estimular as multidões a formar uma resistência de forma melhorar (resgatar?) a humanidade, mas será que consegue mesmo produzir esse efeito? Todos ouviam o que nos tinha para dizer e os rostos desenhavam fúria e a revolta. Após a apresentação daquele que seria o último tema da noite, “River Anacostia”, um blues emaranhado sobre Washington DC, não havia quem quisesse reconhecer que esta imensa viagem estava a chegar ao fim e desfiava-se PJ para voltar para o palco. O chão tremia até que Harvey voltasse a subir ao palco. E ela voltou, agradecendo o público que a conseguiu comover. Houve tempo ainda para ouvir “Guilty” e “The Last Living Rose”, o tema que encerrou o concerto.

A catarse chegaria ao fim e de que forma! A hora da despedida fez-se abordando-se o tema do nacionalismo exacerbado. Ouvir esta música foi como ver a felicidade e a tristeza a caminharem em simultâneo em direcção a um abismo. PJ aconselhou-nos a plantar rosas no meio do mal. Aconselhou-nos a ter esperança. Afinal, a luz e a escuridão podem viver juntas.

PJ Harvey @ Coliseu dos Recreios

PJ Harvey @ Coliseu dos Recreios