Depois da escuridão, a luz. Os dois volumes que compõem Occult Architecture já viram o nascer do dia e, para comemorar a sua imensidão junto aos instantes joviais que se podem proporcionar em plena primavera, os Moon Duo conseguem reafirmar o seu potencial com esta sua faceta conceptual. A obra, formada por dois discos que se complementam nas suas diferenças, foi produzida com base na ideia do yin e yang e viu o seu primeiro lado descoberto em fevereiro deste ano. Tentando fugir ao previsível, Occult Architecture Vol. 1 é um transportador para o mundo mais sinistro da dupla composta pela guitarra de Ripley Johnson e os teclados de Sanae Yamada.

“The Death Set” é precisamente a porta para esse lugar obscuro e que, de perigoso parecer, instiga a nela entrar. Os riffs pausados e a ambiência stoner intensa munem de adrenalina todos os poros, fazendo-nos submergir no submundo que a banda cria para os seus ouvintes. Depois de um cativante solo, surge um “there is a sound in my head” que serve de aviso para a expansão do que será partilhado ao longo das sete faixas do álbum. “Cold Fear” chega de rompante e muda o ar que compunha a atmosfera onde nos situávamos. Agora, com um ambiente em que Yamada se apresenta mais assertiva, a electrónica envolve-se numa dança íntima com a guitarra de Johnson. Como uma queda num abismo, a música engole-nos e mescla-se com a respiração ao longo do seu desenrolar. “Creepin” é o novo fôlego que retira o álbum da escuridão total para o qual se dirigia. Existe um contrabalançar de energias com a electrónica dentro do próprio álbum, e isso volta a acontecer com o surgimento de “Cross-Town Fade”.

O território mais gótico é pisado em “Cult Of Moloch” e “Will Of The Devil”. A dualidade na guitarra é trabalhada eximiamente em loops e drags que prolongam um certo chamamento para os recônditos do misticismo. O nevoeiro que persiste em acompanhar o álbum desvanece-se com “White Rose”, a viagem longa em synth que percorre o seu caminho e se deixa misturar com o horizonte lá bem ao fundo, escapando do mundo para viver na sua própria utopia hipnótica.

O segundo rosto do álbum surge neste mês de maio pela Sacred Bones Records, e é composto por cinco faixas esperançosas que andam a passos largos no caminho mais extasiante do puro psicadelismo. A abrir, “New Dawn” é, de facto, um novo amanhecer que começa com a possibilidade de desvendar esta misteriosa dualidade que surge em Occult Architecture Vol. 2. Poderíamos não lhe chamar um segundo disco, já que ele é a antítese perfeita e complementar da frigidez da primeira lição pesada de ocultismo dos Moon Duo. Esta faixa anuncia um começo triunfal em que os primeiros sinais sonoros capturam-nos a medo em que choques cada vez mais complexos de sintetizadores tímidos vão se desfiando.

Nesta desconstrução de uma realidade que foi deixada para trás, o início de “New Dawn” tenta representar o afastamento do quadro que fora pintado pela frieza umbrosa do primeiro fascículo e a transformação gradual em temas mais floreais e descomprometidos. Assim que a bateria faz a sua apresentação formal, a música explode no habitual e ritmado som característico da banda. Descomplicada, a música expressa a vontade de atravessar para a luminosidade e tornar-se o yang para o ying do Volume 1. O solo entra em erupção sem receios e com uma onda avassaladora leviana e extremamente submersível.

moon duo occult architecture

O instrumental “Mirros’s Edge” fala num código ainda mais espectral. É um casamento da musicalidade que encontra as mãos da percussão e da guitarra dadas em harmonia. Para se ouvir vezes sem conta, é um autêntico transportador de emoções para a coerência espiritual. Contrastando com o volume primordial – que não apresentava nenhum instrumental -, a sua existência pode advir da alegria de expressar algo que transcende as palavras e reside no limbo da sonoridade que acompanha qualquer estado de espírito. “Sevens” e “Lost in Light”, que já conhecíamos, são as faixas que se seguem neste descobrimento pelos floreados do grupo de Portland. Já não se sentem os invernos góticos e o caloroso verão entra em destaque em ambas. “Lost In Light”, a oposição de “Cold Fear” em Occult Architechure Vol. 1, é uma composição audaz. A sensação de um dreampop escondido na psicadelia de sempre dá uma nova brisa e uma imposição na criação de um som mais sólido da banda.

O culminar do álbum expõe as influências mais electrónicas e synth que ambientavam “Cold Fear” e existiam em “Cross-Town Fade” do primeiro disco. As quebras de sintetizadores em “The Crystal World”, o segundo instrumental, permitem um adormecimento físico e uma entrada espiral no abismo sorridente. Curto e consistente, Occult Architecture Vol. 2 desperta o autoconhecimento no “yang” espiritual e fecha o ciclo de uma viagem pelos recônditos da mente humana e do dualismo do que nos torna o frio e o quente, a luz e a noite de nós próprios.

Os álbuns não são uma surpresa, certamente, ou uma mudança arriscada em composições, mas não desiludem os que acompanham o trabalho da dupla de Portland. A simplicidade é chave para os Moon Duo, e o facto de nunca soarem abatidos ou numa perpétua espiral de banalidade provam que o seu segredo não tão secreto os mantém num pedestal a observar de perto.