Se há fim-de-semana em que o arsenal visual para momentos de doom & gloom vai ter uso será este com certeza. Lisboa e Porto recebem os britânicos O. Children, os suecos Agent Side Grinder e o americano Luis Vasquez a.k.a. The Soft Moon vai andar também entre nós. Mas aqui fala-se das duas noites em que os O. Children e os Agent Side Grinder vão partilhar. Na sexta-feira dia 11 o palco do Hard Club é a catedral do negro e no sábado a Caixa Económica Operária recebe o mesmo line-up em mais um das carismáticas Another Night At The Box que já vai na vigésima sexta-edição. Um dos segredos mais bem escondidos da capital.

O. Children: Os filhos bastardos do Indie

Comparados demasiadas vezes a cenários góticos, os O. Children do nigeriano – apenas no papel – Tobias O’Kandi, Gauthier Ajarrista, Harry James e Andi Sleath são daquelas gemas que se movem nos caminhos escusos das sombras e que orgulhosamente – acreditando que é propositado – se mantêm afastados das grandes luzes da ribalta, passando pelos pingos da chuva das indústrias e conservando a sua independência a todo o custo.

Nascidos e baptizados segundo o tema “O. Children” que Nick Cave gravou para Abattoir Blues/The Lyre of Orpheus, o quarteto londrino leva apenas dois discos de originais contabilizados e a compilação de remixes feitas para alguns dos temas do disco de estreia homónimo lançado em Abril de 2009 pela Deadly People e um verdadeiro manual de como bem escrever canções escuras e banhadas com a mesma mística com que se pintavam os hinos underground da década de oitenta. Só que tudo revisto e aumentado por mais vinte e tal anos de evolução do post-punk e géneros paralelos, impedindo que os O. Children pudessem cair no alçapão perigoso da clonagem… aqui soava tudo a verdade e consequência de genuíno amor ás canções de outrora mas sem nunca parar no tempo. “Dead Disco Dancer”, “Malo”, “Heels”, “Faultline”, “Ezekiel’s Son” ou “Ruins” eram mais Echo & The Bunnymen e Nick Cave do que Sisters Of Mercy ou Southern Death Cult, eram mais Marquee Club do numero 90 da Wardour Street do que o Batcave Club na Meard Street do Soho londrino. Em 2012 os O. Children regressam aos discos com Apnea. A evolução pouco esperada para as mesmas linhas com que os The Horrors se andavam a desenhar. O shoegaze e o psicadelismo tímido ganham lugar no som da banda mas com a perspicácia de não abandonar o post-punk, a verdadeira espinha dorsal que sustenta as composições de Sleath, O’Kandi, Ajarrista e James.

Ainda sem previsões de disco novo mas com o single novo revelado não faz nem um mês, espera-se novidades e segredos anunciados já nos próximos dias em Lisboa e Porto. Esta é a “Science”, o novo tema tão pop e tão iluminado e relembramos a canção que nos fez apaixonar inicialmente pelos O. Children, “Dead Disco Dancer”.

Agent Side Grinder: A sintéctica crueza dos deuses do espaço

Sem margens para grandes duvidas os Agent Side Grinder são um dos expoentes máximos da New Wave sintéctica e electrónica. Podiam ter sido inventados num laboratório de máquinas orgânicas algures num armazém abandonado em Estocolmo, a cidade natal da banda, por um robot em fuga de um disco dos Kraftwerk e refugiado neste submundo de equipamentos motorizados e conservados em absinto e formol desde idos tempos antigos por um deus gigante vindo do espaço. Podiam mas não foram. Foram criados na mente e nas mãos – quem sabe biónicas ou vindas do espaço – de Kristoffer Grip (voz), Johan Lange (sintetizadores), Henrik Sunbring (sintetizadores), Peter Fristedt (sintetizadores modulares e tape-loops) e Thobias Eidevald (baixo) que substituiu Aleksander Blomqvist em 2011. Quatro discos de originais, Agent Side Grinder (2008), Irish Recording Tape (2009), The Transatlantic Tape Project (2009), Hardware (2012)e Alkimia (2015), SFTWR (remixes) de 2013 e o registo ao vivo de Hardware Comes Alive!  de 2012 são peças essenciais em qualquer boa discografia de minimal wave, EBM e post-punk de fuselagens mais industriais.

 

Tanto os O. Children como os Agent Side Grinder estrearam-se por terras camonianas no Festival Entremuralhas. O ano de 2014 foi o ano que as muralhas do castelo de Leiria receberam a banda inglesa enquanto os suecos invadiram o mesmo festival na edição do ano passado. A noite do Porto conta ainda com a presença dos Sexy and Color que estão ainda a promover o segundo disco, START/STOP, lançado em 2014.

O. Children e Agent Side Grinder em Lisboa e Porto, Caixa Económica Operária e Hard Club, sábado e sexta… um fim de semana, duas noites de intensidade negra. Que girem as rodas dentadas do coração. Nós lá estaremos!

A foto de Agent Side Grider foi gentilmente cedida por Kalle Christiansson. Mais aqui: http://www.popfotografi.se/portfolio/portfolio-2012/agent-side-grinder/