Cantor e compositor de rimas poéticas e de melodias sonhadoras em formato acústico, CAIO, o alter-ego de João Santos, estreou-se em 2016 com o álbum digital Desassossego, bem recebido pela crítica muito à conta do sabor de veludo que empresta à sua guitarra, e lança agora o seu segundo trabalho intitulado Viagens, referência muito apropriada ao que nos propusemos assistir numa noite pacífica no Sabotage Club.

CAIO entra em palco com uma calma e um sorriso amistoso que nos permite antever competência, definindo assim o tom para o concerto a que iríamos assistir. Intimismo, pureza na execução, simplicidade, especialmente na forma como acaricia as cordas da guitarra acústica nos primeiros afinamentos, tudo ainda mais sublinhado com uma certa timidez juvenil apoiada no desejo de desaparecer e se tornar visível exclusivamente para a sua música. “Palavra” dá o mote para que a poesia cândida desta primeira música deixe o ar na plateia mais inebriante e sonhador, continuando para “Dessassossego” em que substitui a guitarra clássica pela eléctrica para emprestar um tom mais sólido à composição.

CAIO transparece de forma bem notória a sua afinidade e admiração por Jose Gonzalez na maneira como equilibra o quase murmúrio da sua voz com o fervilhante e hipnótico movimento dos dedos sobre as cordas da guitarra ou no deslizar acariciador no piano na “Última Carta”. O seu profundo respeito pela poesia – força motriz que o inspirou nestas andanças do palco e dos álbuns -, resume toda a sua obra quando nos deparamos com versos simples ‘tens uma memória de cantar mas falta te a voz para gritar’ mas que ocultam em si uma maturidade literária que irá, certamente, evoluir com o tempo.

CAIO @ Sabotage Club, Lisboa

Para cantar “Animal”, o músico conta com a presença de um baterista e de um baixista, e assim passam da candura de sonhos idílicos à beira-mar para um grito de acordes mais embrutecidos, num pedido de perdão porventura falhado: ‘olha bem para ti, o que queres ter, Se é amor que queres,vens para perder’. No meio deste processo criativo, a música torna-se implacável e determinada como uma obsessão romântica. O ritmo imposto pelos outros instrumentos desconstrói o tom íntimo das histórias sussurradas ao ouvido por CAIO, mas empresta-lhes um corpo menos etéreo na construção da narrativa sem perder a sua candura.

Na alma permanece uma poesia recheada e um sorriso pueril nos lábios alimentado pelo universo delicado e juvenil de quem tem em si todos os sonhos do mundo. Porque, no final de contas, todo o mise en scène da sua música gira à volta de sonhos perdidos e outros que ainda estão para acontecer, e das Viagens perpétuas e em loop do coração.