Por Inês Francisco Jacob e Mariana Narciso

Ao terceiro dia, subimos aos céus do Palco BLITZ e encerrámos o ciclo de homenagem à música com cunho da lusofonia. Neste sentido, e a saber a sobremesa, foram cinco as bandas que pisaram o palco e cinco os concertos que aquele palco recebeu, com as actuações memoráveis de We Trust, The Black Mamba, Capitão Fausto, Keep Razors Sharp e X-Wife. Que maratona!

We Trust

A melodia tem cor e boa-disposição com os We Trust. O projecto de André Tentúgal abriu o palco BLITZ no terceiro dia d’O Sol da Caparica e trouxe ao festival os hits que tem criado e lançado para uma atmosfera mais positiva da vida. Numa verdadeira ode à pronúncia do norte que, nesta leitura habitual, costuma cingir-se ao Porto e arredores, a banda cantou com mil cores cada faixa, quiçá em honra a Tentúgal que, antes destas aventuras musicais, actuava como realizador. É nítida a inspiração.

“Como é que se uiva no Porto? Como é que se uiva na Caparica?”, questionava André que ia entretendo o público sempre diverso e feliz e chamava também os discretos transeuntes. Seguiram-se “Time (Better Not Stop)” e “We Are The Ones”, música de actos de heróis, dedicada a todos os bombeiros de Portugal. “Silent Song” e “Once At A Time” ressoaram com a habitual imagem de marca: fazer-nos acreditar que tudo somos e tudo podemos, num misto de discurso inspiracional e de hino às forças vitais dos humanos.

Com um alinhamento de composições que resgatam a sua origem a 2010, altura em que os We Trust começaram a ganhar asas para voar com resistência, André despediu-se de nós dizendo: “sejam felizes e cuidem uns dos outros”. E que maneira acertada de dizer “até já”. Passou tudo muito depressa e isso foi, certamente, bom sinal.

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The Black Mamba

O funk hendrixano dos The Black Mamba subiu à BLITZ. É o segundo concerto neste palco, neste último dia de festival e ninguém melhor que Pedro Tatanka e os seus fiéis companheiros de música para fazer vibrar a envolvência do Parque Urbano da Costa da Caparica. O sol batia bem forte, mas não foi por isso que deixámos de apreciar a grandeza dos The Black Mamba, banda ainda fesca que se juntou em meados de 2010 quando Pedro Tatanka, Miguel Casais e Ciro Cruz se uniram para criar magia, num trio de perfeita sintonia ritmada.

O palco encontrava-se enriquecido com componentes cruciais, desde o coro perfeito de duas cantoras que acompanhavam o vocalista, aos saxofones que perseguiam as cordas da guitarra de Tatanka e a batida de Casais. Tudo na medida essencial.
O funk e os blues percorreram a assistência assim como os dedos do vocalista percorrem as cordas da sua guitarra, num movimento groovy e desmiolado que nem um Jimi Hendrix lusitano, com o seu chapéu de índio e as suas botas de cowboy. Tantos filmes nos vieram à memória!

Os temas apresentados inserem-se nos seus dois preciosos álbuns, The Black Mamba de 2012 e Dirty Little Brother de 2014. Temas já tão conhecidos por nós como “I’ll Meet You There”, “Sweet Lies” e “Rock Me Baby”. O público não se portou mal, admitimos, e interagiu sempre com um pezinho de dança e um sorriso no rosto.

The Black Mamba @ O Sol Da Caparica

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Capitão Fausto

A Tracker Magazine deu dois dedos de conversa com os Capitão Fausto logo após o concerto no palco BLITZ. Trouxemos à superfície, como não podia deixar de ser num festival do género, a questão central da lusofonia e o privilégio que seria, assim, tocar n’O Sol da Caparica. Mencionámos ainda o facto de o grupo se cingir à língua portuguesa nas suas letras e de toda a riqueza do cartaz do festival e de como isso é, neste caso, uma feliz excepção. Domingos Coimbra, o baixista, disse-nos:

Ao contrário de muitos festivais, este aposta mais em música portuguesa e, por isso, sentimo-nos bem, sentimos que é importante que existam festivais destes e sabe-nos muito bem vir cá tocar pela segunda vez, pois já viemos cá. E acho que o concerto correu bem. Acho que a razão de se cantar em português é por ser a língua com a qual nos sentimos mais confortáveis. É a língua que falamos melhor. As coisas já não estão tão divididas no que é português ou inglês, acho que estão divididas entre o que é mau e o que é bom, e o que for bom é indiferente a língua que utiliza, é bom e ponto final. É algo sempre subjectivo, mas acho que não é o factor língua que entra em consideração se gostamos ou não de uma banda.

Nós, por exemplo, entrámos aqui e estavam uns senhores que nunca tinham ouvido falar de nós e disseram que gostaram muito do concerto. Perguntaram-nos logo o nome da banda, ou seja, qualquer festival acaba por ser uma boa oportunidade para as bandas se darem a conhecer, sobretudo a pessoas que em momentos normais não iriam procurar por esse grupo.

Numa plataforma de singularidade de juventude, sem nenhuma infantilidade, os cinco, Domingos, Manuel, Salvador, Tomás e Francisco, foram percorrendo faixas fresquíssimas e outras com mais idade numa assembleia psicadélica entre pinheiros e fãs que, sempre que olhávamos, sabiam de cor as letras do grupo.

Entre ecos e ondulações psicadélicas deste entardecer terno e perante ouvidos muito atentos, estimávamos as lições da banda. Foram muitos os que por ali passaram e pararam para escutar melhor. Os cinco, com os seus enredos instrumentais, em teias que funcionaram sempre bem, tornavam cada melodia um portento, indo afluir em grande no tom de Tomás Wallenstein, que não se cansava de dar versos com sofreguidão. Eu vou morrer, eu vou morrer, Mas antes, vou aproveitar bem. Se eu não crescer, eu vou morrer. Por debaixo das saias da mãe. Já não são verdes, estes Capitão Fausto, e vão ficando fruta madura a olhos vistos.

Com …Os Dias Contados, álbum que tem estado nos pódios, o psicadelismo corre inevitavelmente nas veias e entrega-se de mão beijada nos concertos mesmo para aqueles que não fizeram pedido prévio. De sons que são trazidos dos vinis dos avós e das cassetes dos pais num banho de discos pedidos e trauteares de outras épocas, os Capitão Fausto comandam as tropas.
Numa entrega total e com esgares e expressões que vibram com as cordas das guitarras, com os teclados ou com o ritmo de velocidades da percussão, a banda foi gradualmente aumentando o seu tom de existência em palco. Neste sentido, cada faixa produzia um clímax muito próprio, indo o concerto acabar precisamente quando a noite chegava, como uma preciosa cereja no topo do bolo.

Os Capitão Fausto não têm, de todo, os dias contados. Ainda bem, para eles e para todos nós. Se quisermos categorizar, é difícil não lembrar os Grizzly Bear, os Tame Impala e ainda alguns sotaques instrumentais que parecem saídos das composições d’Os Mutantes. Bom mesmo é sabê-los capazes de criar músicas que imediatamente ganham barba rija, sem ignorarem os meandros da adolescência, da juventude e de tudo o que se segue, nesse ciclo quase sem fim.

Depois de Pesar o Sol e Gazela, Os Dias Contados dançam nos nossos dias e, nessa corrente cheia de letras com imensa seiva numa juventude que se predispõe, justamente, a crescer e a dançar em batidas mais excitantes, apetece-nos ir a correr em digressão com eles.

Keep Razors Sharp

Foi sedução aquilo que recebemos das lâminas dos Keep Razors Sharp. Antes do concerto, a Tracker foi escutar o guitarrista Luís Raimundo, desta vez sem o instrumento musical, e tentou perceber o que significava para a banda tocar num festival como O Sol da Caparica, que tem como fim primordial a valorização da lusofonia no plano da música. Eis a sua resposta em nome de todo o grupo:

Vou dar-te só um exemplo. À tarde fizemos o soundcheck e estivemos a conversar com amigos nossos que vão tocar no mesmo palco, como os The Black Mamba e com os Capitão Fausto. Mais do que isso, é alguém conseguir provar que é possível fazer um festival, e com sucesso, só com bandas portuguesas. Para nós, músicos portugueses, é mesmo maravilhoso poderes estar num festival com esta dimensão e só com bandas portuguesas. É mesmo maravilhoso.

E com isto eu não quero transparecer a imagem daquele velho do restelo, do género, ah, festivais portugueses só têm de ter bandas portuguesas. Claro que não. Há festivais que têm dimensões particulares e, obviamente, que se propõem a trazer artistas do país, isso é outra coisa. Já existem festivais que têm este formato e isto funciona e é possível ser bem sucedido.

Por volta das 21:30, no palco BLITZ, “5 Miles” é a faixa que abre o concerto, integrando a sexta posição do álbum de 2014. E o concerto não poderia ter tido melhor começo. Com a voz sedutora do músico Afonso Rodrigues, fomos de imediato contaminados, nem que fosse só pelo jogo de luzes manipuladoras que encandearam as nossas retinas, fazendo pulsar o sangue. Podemos ver no enorme ecrã, bem atrás dos artistas, um intenso rodopio de imagens em movimento, como se de manchas de cor se tratassem, acompanhadas e sincronizadas com a batida de Carlos BB e do baixo de Bráulio.

Sente-se a união forte entre todos, o amor entre todos. Esta que é uma banda peculiar no que toca à sua formação, já que todos os membros têm ou tiveram outros projectos musicais. Somos sugados de maneira muito feliz para junto do palco e para junto dos Keep Razors Sharp e a galope ouvimos temas como “I See Your Face”, “The Lioness” ou ainda “Sure Thing”, e as palavras não são suficientes para descrever este álbum e a sua importância para o post-rock português.

Num tom francamente psicadélico e quase espacial, a banda fez-nos mergulhar numa actuação ao vivo digna de cinema de culto. O Sol da Caparica pede que venham na próxima edição meus caros, e nós também. Estamos com necessidade de mais desta poção.

X-Wife

A Tracker perguntou aos X-Wife o que significava para eles tocar neste festival, bem antes da sua actuação responsável por fechar o palco BLITZ. João Vieira confidenciou-nos:

Acho que para nós é importante por várias razões. Primeiro, por nos incluírem neste bolo de bandas portuguesas e artistas portugueses, com tanta boa música que se está a fazer em Portugal neste momento… está mesmo a produzir-se boa música e está a passar-se uma fase óptima dentro de tantos géneros musicais. Depois, também por nos terem escolhido a nós, uma banda já com bastantes anos de carreira e ainda existir esse interesse nos X-Wife e acharem que somos uma banda importante em Portugal e que deve chegar a novas gerações, porque há gerações muito novas no festival. Nós sabemos isso e é importante, mesmo importante para nós conseguir chegar a novas gerações e gerações mais novas. Este tipo de oportunidades são mesmo de agarrar e agradecemos o facto de nos terem posto num horário tão bom.

Os portuenses João Vieira, Fernando Sousa e Rui Maia entram em palco e apercebemo-nos do quanto sentimos falta de ouvir os seus sons singulares e enérgicos da banda. Não há igual aos X-Wife, e sim, são mesmo portugueses! A encerrar as presenças no palco BLITZ, a banda deu mesmo tudo ao público que tanto tinha esperado por eles. 22h30 e já se saltava com “Keep On Dancing”, do álbum Infectious Affectional, de 2011. Vários foram os temas que se tocaram e nos fizeram viajar por épocas distintas. Desde o álbum de 2014, Feeding the Machine, a 2006, com Side Effects, até 2008, com Are You Ready For The Blackout? Um itinerário bem enriquecido com esta panóplia toda. E sim, X-Wife, vocês ainda têm interesse e muito mesmo. O público-alvo do festival ganhou, convosco, mais uma audição perfeita. É só carregar no replay e deixar fluir. Do resto, tratam vocês.

Rui Maia deu-nos sempre o toque perfeito, remetendo para os sintetizadores de Vive La Fête ou atirando aos choques sonoros dos New Order, acompanhados sempre pela voz distinta de João Vieira que se engrandece em palco de forma extraordinária. Todos eles, aliás, ficam gigantes, e que incrível é de se ver.

Este é um ponto de destaque do concerto ao vivo: ficam irreconhecíveis estes membros da banda e fazem-nos, mesmo quando somos teimosos ou tímidos, levantar os pés do chão e abanar todo o recinto com energia colectiva. Esse é um prémio para todos aqueles que se transcendem em palco e levam o resto do séquito atrás. Obrigada!

Menção honrosa para “Movin’ Up” que, para além de ser um sucesso ao vivo, também fez parte do jogo de futebol FIFA, na edição de 2016. Nem Ian Curtis se aguentaria das canelas se os ouvisse. Até para o ano, Sol!

X-Wife @ O Sol Da Caparica