Se o coro inicial poderia erroneamente indicar que estaríamos perante uma cerimónia de alguma forma de carácter religoso, a verdade é que a apresentação ao vivo do tema-título do próximo longa-duração dos Everything Everything não se encontra assim tão longe dessa imagética. Como se desfiado num lugar de culto futurista onde, perante uma plateia de seres humanos habituados aos ambientes digitais enquanto denominador comum e dominante nas suas vidas correntes, “A Fever Dream” é apresentada numa sala de estudo musical secreta e distópica em que se aprende o contacto com as emoções através das construções melódicas baseadas nos grandes compositores clássicos.

Arqueólogos musicais e estudiosos das esferas clássicas que serviram de base no decorrer de longos séculos a toda a artificialidade sonora das composições tecnologicamente avançadas do presente – dado os elementos primordial e profundamente electrónicos em que desaguam os pianos clássicos dos momentos iniciais do tema ,- os rapazes de Manchester endoutrinam mentes insubmissas, seguidores das correntes em prol da arte enquanto linguagem não articulada veículo de sensações com uma pop não convencional entrelaçada em variações rítmicas imprevisíveis.

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Contrapondo vários vértices sonoros num duelo entre o futurista e o clássico numa mesma figura geométrica, os Everything Everything reúnem no mesmo manifesto canónico de “A Fever Dream”, o segundo tema revelado do seu quarto registo de estúdio dos mancunianos que sucede a Get To Heaven de 2015, uma electrónica explosiva e dançável,  não estranha ao seu cancioneiro art pop mas de beats mais vincados e espírito mais sombrio que em trabalhos anteriores, e uma delicadeza clássica tricotada nos ecos fluídos dos pianos, dois elementos fundidos pelo falsete já habitual de Jonathan Higgs. A versão ao vivo do tema foi gravada no Heaven, em Londres. A Fever Dream é editado a 18 de agosto pela RCA.