Art rock é um guarda-chuva multifacetado, que tanto pode abrigar gente que faz o rótulo ser visto com bons olhos (leia-se ouvidos), como os Roxy Music, ou pode trazer para perto de si abacaxis do tamanho de uns Kansas, por exemplo. Facto é que discos que já nascem com o carimbo de Grande Arte estampado nas suas capas geram uma expectativa que pode transformar-se em decepção assim que a agulha pousa no vinil – ou quando se clica no play -, por presunção, vaidade ou falta de talento, mesmo.

O australiano Angus Andrew, que agora conduz sozinho os Liars, segue pelo tortuoso caminho escolhido para o seu pop oblíquo por natureza que, no final das contas, junta art rock e eletrónica com resultados ambíguos. Com um novo álbum recém lançado – TFCF pela Mute Records -, e uma temática centrada quase que exclusivamente sobre a degeneração da relação entre Andrew e seu ex-companheiro de banda, Aaron Hemphill, os Liars soam desafiadores ao disparar uma metralhadora de batidas abrasivas como em “Staring At Zero”, toneladas de amostras de sons e timbres esquisitos, violões que surgem redentores e vocais ora cantados com a doçura de um Wayne Coyne dos The Flaming Lips como em “No Help Pamphlet”, ora declamados com o tédio abissal de um rap desengonçado em slow motion à Beck Hansen como em “The Grand Delusional”.

Agora, os Liars atiram para o Youtube o primeiro vídeo extraído de uma canção de TFCF, editado a 24 de agosto. “Cred Woes” deixa muito claro que o trabalho da banda de-um-homem-só vai trilhando propositadamente essa rota perigosa, que pode ser o equivalente sonoro de um quadro de Jackson Pollock ou, na pior das hipóteses, de Romero Britto. Para descodificar a arte de Angus Andrew, escolho os dois.