O novo caminho está traçado e o tiro certeiro dado. Clear Shot é o mais arriscado registo dos TOY e, talvez por isso, seja sinónimo de crescimento criativo, com o psicadelismo associado ao imaginário cinematográfico e um visual menos colorido mas brilhante. Thomas Dougall e companhia alinham-se para criar uma ambiência que se estranha à primeira, talvez se continue a estranhar à segunda, porém entranha-se cada vez mais a cada audição.

Os TOY são um caso de sucesso que se viu crescer na cena underground e a par de uns The Horrors que estavam prestes a descolar rumo a um enorme reconhecimento. Desde TOY, o primeiro álbum homónimo, que vemos a banda apostar em camadas sobrepostas de ruído e feedbacks, numa constante crescente até a um clímax que se tornou na característica principal nas suas longas canções. E sim, a duração foi sempre grande comparativamente ao que era “suposto” para um single, por exemplo. Vemos também a introdução de novas sonoridades, mais eletrónicas e até mais espaciais em Join The Dots. Uma força que aumenta o seu valor a cada minuto que se ouve, em instrumentais gigantes com loops crescentes e que intensificam o seu peso – vemos estas referências em tudo o que nos põem a ouvir. E é nesta base que partem para novas explorações: reinventam a sua própria sonoridade e abrem portas de uma outra abordagem experimental e futurista com brilhos pop mas com o psicadelismo e shoegaze de sempre. Sejam bem-vindos a Clear Shot.

Abre com espécie de brisa e um riff introdutório a marcar o que nos espera. “A Clear Shot” desenvolve-se, aos poucos, ao longo do tempo e cresce a cada verso. É uma reinterpretação deles mesmos e do que conhecíamos. A explosão final leva-nos a crer que os TOY estão cá para nós. Fazem-se ouvir novos sons vindos dos sintetizadores. Este ponto é importante: com a saída de Alejandra Diez, os synths ficam a cargo de Max Oscarnold (de The Proper Ornaments) e não são apenas usados para aumentar a atmosfera trépida mas para trazerem novas melodias e sons para acompanhar, algo que é imediamente perceptível. Há algo novo a descobrir. Ao entrarmos em “Another Dimension” entramos, literalmente, numa “nova dimensão”. Toda a música é uma autêntica viagem. Tentem visualizar a própria regressão do tempo a alta velocidade, contrariando igualmente a sua rapidez de claro krautrock. Sente-se mesmo uma detonação de cor e algo “cartoonizada” que nos tira da autoestrada em que circulamos e que nos volta a lá estar sem que percebamos como. Um autêntico controlo sensorial que estica cada molécula num teletransporte sonoro.

Fast Silver” foi o primeiro single. Na altura, era percetível uma visão mais crescida da banda, a importância que as palavras sejam tão sincronizadas com o resto do instrumental que com este se fundem. Surgem, também, com menos distorção mas conseguem tirar partido disso, tornando-a num tema indie-folk e num shoegaze mid-tempo que não se deixa crescer mais do que o necessário. A contrastar com o ambiente pesado e arrastado, “I’m Still Believing” transporta-nos para uma alternativa mais pop dos TOY. Será cedo para o dizer, mas talvez venha a ser a canção mais entoada de Clear Shot. Refrão pomposo e so simple, so fine de se decorar. Guitarras orelhudas que nos ficam na cabeça a rodopiar de cada vez que se ouvem. A canção é um assalto ao mainstream e um guia de como fazer uma boa música. (E ainda acrescentar voodoo pelo meio!)

O disco torna-se cada vez mais visual e é mais fácil conseguir imaginar um cenário onde as músicas podem crescer individualmente. “Clouds That Cover The Sun” dá-nos essa mesma ideia tão cinemática que, através do instrumental, se imagina facilmente toda uma ambiência nublada com alguns rasgos de brilho que vão aparecendo aos poucos. O riff é tão melodioso que se transforma num loop tremendo e que não cansa de se ouvir. Se em “I’m Still Believing” se podia ouvir algo mais colorido numa história contrária, em “Jungle Games” percebe-se que a cor é pouco importante. Ou melhor: é o peso monocromático de um filme de Hitchcock a preto e branco que aqui sobressai. Um retrato completamente psych, movido por uma locomotiva perigosa, que se torna numa autêntica floresta sonora. É como se ouvíssemos Dougall a sussurrar cada dificuldade que passa para atravessá-la. Mas leva-nos a um caminho que parece ser a salvação e onde o sintetizador é orientador de luz directa.

Este instrumento tem um peso enorme em “Dream Orchestrator”. É tão importante a sua presença para trazer este efeito killswitch que faz acompanhar uma autêntica avalanche de velocidade que nos lembra automaticamente do brilhantismo dos NEU!. Há um crescendo enorme em termos sonoros que proporciona a liberdade de cortar a respiração sempre que é interrompida com amudanças de tempo. Quase como se fosse uma viagem rápida cheia de obstáculos e que aterra, sem dispersar por outros caminhos, em “We Will Disperse”. Uma faixa que mistura um universo melodioso, como se ouviu na faixa anterior, e uma abordagem claramente progressiva e catchy como em “I’m Still Believing”.

A atmosfera de film noir sente-se com mais intensidade no fim do disco. “Spirits Don’t Lie” mostra este lado estranho do que se pode ouvir durante uma viagem com um Impala ’67 preto no meio de um nevoeiro cerrado. Tem tanto ou mais de perigo quanto “Jungle Games”. Os sintetizadores voltam a ter um peso enorme na criação deste ambiente e a fazer acompanhar cada vez mais a voz. Um caminho sem fim à vista, regado de uma escuridão tal que quando surgem luzes, também surge claridade nos olhos. Mas mesmo para acabar, nada como concentrar todo este visual cinemático em “Cinema”. Inicia-se com ambiências saídas de um filme western mas que rapidamente se torna no fim da jornada que começaram. É como se dentro do carro fosse um Clint Eastwood que deixara o seu cavalo e estivesse pronto a tomar de assalto os nossos ouvidos. De facto, esta músca é o culminar de todas as novas experimentações que os TOY foram fazendo ao longo do disco: ambientes nebulosos, brilhantes em certas zonas, variando intensidades, aumentando o peso de novas camadas sonoras, tempos mais controlados entre o supersónico e o regressivo, visualmente e, talvez a mais importante característica, um synth mais melodioso a complementar à voz.

Clear Shot é a passagem para uns novos TOY, num álbum que vem mexer com o universo que pensaríamos conhecer da banda. Há muito para descobrir e muito para se imaginar a cada audição. A simplicidade completa-se com a complexidade textural que dá um retrato pessoal da banda e que se faz notar, por exemplo, no artwork do mesmo. Mesmo aparecendo como fotografia de banda, é na experimentação do tecido visual que traz uma associação à música que fazem. O álbum pode ser ouvido em streaming exclusivo da rádio NPR aqui.